Mercado de olho no óleo e no Fed
A semana começou com o recuo do petróleo Brent, apesar da ameaça de sanções econômicas dos Estados Unidos ao Irã. O contrato para entrega do barril em novembro era negociado a US$ 90,67, por volta do meio-dia (horário de Brasília), com queda de 2%. E o dólar caía ante o euro e a libra, mas subia 0,13% frente ao iene, +0,15% ante o franco suíço e +0,24% contra o dólar australiano. Em relação ao real, alta de 0,17%, cotado a R$ 5,1477, no mesmo horário.
Os dados do começo da semana reforçam a expectativa de estabilidade da inflação, expressa na Pesquisa Focus, encerrada sexta-feira, 21, e divulgada hoje pelo Banco Central. A mediana do IPCA para 2026 ficou estável em 5,02%, já a de 2027 passou de 4,24% para 4,25%, na segunda semana seguida de alta. No câmbio, a mediana para 2026 permaneceu em R$ 5,20, pela 10ª semana consecutiva de estabilidade, e a de 2027 passou de R$ 5,29 para R$ 5,30, também pela 2ª semana seguida de alta.
Para a Selic, a mediana de 2026 manteve-se em 13,75% a.a., pela 3ª semana (a expectativa é de que a última baixa do ano ocorra na reunião do Copom em 16 de setembro) e a de 2027 permaneceu estável em 12,00% a.a., pela 10ª semana. Entretanto, a mediana dos últimos cinco dias úteis elevou tanto o IPCA de 2026 para 5,03% quanto o de 2027 – para 4,32%, o que elevou a mediana da Selic para 12,25% nos últimos cinco dias.
Previsões de curto prazo
Além de prever a última queda da Selic este ano em setembro, o mercado aposta que o IPCA de agosto terá maior deflação -0,17% (para -0,20% na mediana dos últimos cinco dias úteis). O IBGE divulga o IPCA-15 (prévia do IPCA de agosto) nesta quarta-feira, 26. Como o IPCA caiu 0,11% em agosto do ano passado, isso significaria novo recuo da taxa de 12 meses do IPCA, que estava em 4,44% em julho.
Para setembro, a Focus ficou estável em 0,52% (mas a mediana dos últimos cinco dias subiu a 0,55%). O IPCA de setembro de 2025 foi 0,48%. Na troca dos dois índices, a inflação continuaria em queda. Para outubro (alta de apenas 0,09% em 2025) a situação piora: a Focus aponta 0,33% e 0,34% (na mediana dos últimos cinco dias). Em 2025, a taxa foi de 0,18% em novembro e de 0,33% em dezembro.
De olho em Jackson Hole
Mas o mercado financeiro de todo o mundo, além de acompanhar as idas e vindas das ameaças do presidente Donald Trump ao Irã, que se refletem no mercado de petróleo e na inflação global, está de olho nos três dias do seminário do Federal Reserve de Kansas City, realizado na cidadezinha de Jackson Hole, no Wyoming, de 27 a 29 de agosto.
O mercado aguarda a exposição do novo presidente do Federal Reserve Bank, Kevin Warsh. Nomeado pelo presidente Trump, Warsh tem sido crítico da postura altista dos juros defendida, até aqui, pela maioria dos 12 membros do Federal Open Market Committee (FOMC), o órgão equivalente ao Copom, que orienta a política monetária dos Estados Unidos e influência a economia global.
A principal expectativa é com a exposição das três mentes que lideram a reformulação da política de inflação do Fed, após o longo reinado de Jerome Powell, nomeado no primeiro governo Trump. Greg Mankiw, Thomas Sargent e William White têm ideias bem definidas sobre os motivos da subida dos preços e eles estão atrelados a causas externas: duas guerras (a de fevereiro de 2022 e a de fevereiro de 2026) que elevaram os preços da cadeia do petróleo e de alimentos e, agora, as estimativas sobre os impactos do El Niño. Contra ambos, as taxas de juros não podem fazer muita coisa, a não ser contrair a demanda da economia.
Qual o efeito do El Niño no Brasil?
A NOAA (o sistema de acompanhamento climático dos EUA sobre o aquecimento das águas do Pacífico) aumentou a probabilidade de um El Niño mais forte. O boletim de agosto da NOAA elevou de 81% para 93% a probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte a partir de outubro. O período crítico será o trimestre outubro-novembro-dezembro (95%). No trimestre setembro-novembro, pico do plantio da safra 2026/27 no Brasil, a intensidade é de 93%.
O fenômeno tem 18% de chance de retorno à neutralidade já no segundo trimestre de 2027, refletindo a tendência de enfraquecimento após o pico, assinala a Pesquisa Econômica Bradesco. O maior banco privado do agronegócio mapeia o fenômeno em todo o mundo. E o impacto sobre as safras do país, mais de 50% concentradas no Centro-Oeste, será mais suave do que aposta o mercado financeiro, que torce pelo pior (+ inflação e + juros).
O El Niño pode ser danoso na Argentina, no Chile e no sul do Brasil, com chuvas acima da média no Sul. Acontece que a principal lavoura do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina é o arroz, em terrenos alagados. Se não houver enchentes como a de 2024, não será tão danoso. A incógnita é o Paraná, segundo maior produtor de grãos do país, com 13,3%. Já as regiões que serão mais afetadas por falta de chuva estão mais ao Norte (o Pará responde por 2,1% da produção de grãos e Rondônia, por 1,6%) e no MATOPIBA.
O acrônimo das iniciais das regiões sul do Maranhão (2,2%), Tocantins (2,4%), Piauí (1,9%) e Oeste da Bahia (3,8%). O MATOPIBA seria o 3º produtor do país, com 10,3% (o RS tem 10,5%). O estrago extremo da safra de soja (semeada no período crítico do El Niño) afetaria 8% a 10% da safra. Já o milho (segunda safra) e algodão são semeados após a colheita da soja, em março-abril, com o El Niño mais calmo.