Sem confiança, títulos dos EUA voltam a cair

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Donos da moeda de maior circulação no mundo, os Estados Unidos acumulam dívida pública global de mais de US$ 40 trilhões, equivalente a 130% do PIB. Mas a desconfiança sobre a liderança americana, posta em xeque na guerra do Golfo Pérsico, fez o plano do secretário do Tesouro, Scott Bessent, de dobrar as recompras de títulos, não durar 24 horas.

Nesta quinta-feira, as manchetes do britânico “Financial Times” e do “Wall Street Journal” mostram as dificuldades dos países com alto endividamento público e finanças em deterioração – caso dos EUA, que relançaram o tarifaço 2 para arrecadar recursos necessários a cobrir a devolução de trilhões em impostos arrecadados em 2025 pelo tarifaço 1, anulado pela Suprema Corte em fevereiro – para conquistar a confiança dos mercados.

A manchete do “FT” diz: “Os títulos de longo prazo dos EUA caem, já que a intervenção de Bessent não conseguiu acalmar os investidores”. E o jornal explica que “O rendimento dos títulos do Tesouro americano com vencimento em 30 anos sobe apesar da medida de "pelo menos dobrar" as compras desses títulos”.

Já o “WSJ”, que tinha preparado uma edição calcada na boa reação inicial da quarta-feira, quando os mercados acolheram com queda nas taxas de juros de longo prazo, a decisão de Bessent teve de lançar a manchete na edição “online”: “Os rendimentos dos títulos disparam, anulando em grande parte o efeito da intervenção de Bessent”. E explica que “os rendimentos dos títulos do Tesouro estão subindo novamente e os preços do petróleo estão avançando”.

A dinâmica dos mercados é tão rápida que a manchete ultrapassada pelos fatos era: “Bessent assume com maestria seu papel como principal negociador de títulos dos Estados Unidos”, seguida da explicação: “.O Departamento do Tesouro sinalizou sua disposição de intervir depois que os rendimentos atingiram níveis quase recordes em duas décadas”.

Diante do fracasso inicial do Plano Bessent, louvado por Wall Street como o “único adulto na sala” no secretariado de Donald Trump, o “WSJ” teve de se ajustar à realidade e explicar que “O ‘status’ cobiçado do mercado de títulos do Tesouro como porto seguro está desaparecendo” [é comum o mercado usar como parâmetro do “spread” entre papéis de países emergentes, a diferença de rendimento perante “Treasury bills” de cinco, dez, 20 e até 30 anos]

Na primeira versão do “WSJ” ganhara destaque um artigo do repórter Damian Paletta, que cobre o Tesouro com o título: “Scott Bessent e a Arte da Corda Bamba do Tesouro”.

Diante do aparente insucesso, surgiu um artigo explicativo citando que “Dois novos estudos apontam indícios de que os investidores não estão tão dispostos a aceitar baixos rendimentos devido à segurança dos títulos do Tesouro”

E o drama do tamanho da dívida do Tesouro americano, bancado, em grande parte por países soberanos, sobretudo os produtores de petróleo que confiavam nos EUA, surge justamente pela perda de confiança na liderança americana no Golfo Pérsico, por não conseguir dobrar o Irã.

O “Wall Street Journal” abre o caderno de Economia com a seguinte manchete: “A dívida dos EUA acaba de ultrapassar os 40 trilhões de dólares: como chegamos a essa situação”, informando que “Os Estados Unidos atingiram um novo marco de endividamento em sua luta para controlar suas finanças”. O “FT” sublinha que, além do tamanho, as taxas da dívida americana atingiram “níveis históricos”.

Ata do Fed tende à alta de juros

E para piorar a situação, que, em parte, justifica a reticência do mercado, o “WSJ” comenta que a “ Ata da reunião do Fed revela apoio mais amplo ao aumento das taxas de juros”, explicando que muitos dos participantes do Federal Open Market Committee (FOMC), composto por 12 membros, “acreditavam que taxas de juros mais altas provavelmente seriam necessárias se a inflação não diminuísse”.

O preço do barril de petróleo do tipo Brent continuou em alta hoje, com o contrato para entrega em outubro subindo 1,95%, cotado a US$ 93,53, depois das novas ameaças de Trump ao Irã. E, no mercado de moedas, o dólar tinha pequena reação ante o iene (+0,39%), contra o franco suíço (+0,21%) e contra o real (+0,20%), cotado a R$ 5,1950. Como se percebe, a saída de “investidor estrangeiro” da b3 (que inclui recursos de brasileiros em paraísos fiscais) está mais ligado ao cenário global do que especificamente ao cenário eleitoral brasileiro.