Governo, empresas e famílias devem 164,3% do PIB
Amanhã o Banco Central divulga os dados consolidados de receitas menos despesas do setor público em junho, o chamado resultado primário, e ainda o montante de juros da rolagem da dívida pública. A dimensão dos juros mensais (R$ 107,5 bilhões) torna ridículo o discurso de que é preciso cortar gastos para fazer superávits fiscais.
Sim é preciso conter gastos (sempre). Mas o tamanho dos juros que realimentam a dívida pública torna estéril qualquer esforço de contenção de gastos se não vier acompanhado de substancial redução de juros. Em maio, as despesas (lideradas pelo rombo do INSS) superaram as receitas em R$ 56,1 bilhões. Somados aos juros, sobraram R$ 163,6 bilhões para serem rolados em junho.
Os dados parciais de junho do Tesouro Nacional (faltam as contas das estatais e dos estados e municípios) mostraram déficit primário de R$ 48,178 bilhões. O INSS teve rombo de R$ 50,474 bilhões, o Tesouro Nacional teve superávit de R$ 2,451 bilhões, e o Banco Central déficit de R$ 155 milhões.
Na dívida pública bruta, que passou de 80% do PIB, os juros nominais estão em torno de 14,25% ao ano (a taxa Selic, que deve cair para 14,00%, em 5 de agosto). Descontada a inflação acumulada de 4,64% em junho, o juro real é de 9,18% e a dívida pública é rolada junto a bancos, fundos de investimentos e investidores institucionais, a prazos curtos.
O país tem também dívida externa, mas captada a juros mais baixos e a prazos mais longos. Em junho, segundo o Banco Central, a dívida pública interna e mais a dívida bancária e junto a fundos especiais somava R$ 7,901 trilhões. A dívida líquida atingia 71,8% do PIB.
As empresas deviam R$ 7,215 trilhões (entre dívidas bancárias e emissões de títulos no mercado de capitais. O custo médio para as empresas nos créditos junto ao Sistema Financeiro Nacional era de 24,4% ao ano, com inadimplência de 4,0%.
Já para as famílias, embora o saldo da dívida seja menor, R$ 4,998 trilhões, os juros médios pagos no mercado de recursos a taxas livres estavam em 64% ao ano (ou 56,7% em termos reais em junho), com um (aumento de 1,2 ponto sobre maio e de 6 pontos no ano. Em função disso, o grau de endividamento das famílias em relação à renda atingiu 49,8% e a taxa de inadimplência atingiu o recorde de 7,6%.
Não haverá Desenrola que possa evitar o endividamento em bola de neve, se os juros não cederem um pouco. O ano de 2026 estava programado para uma redução substancial de juros, mas a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, explodiu os preços do petróleo e a inflação em todo o mundo.
No Brasil, a estratégia do governo Lula de subsidiar a gasolina, o diesel e o GLP, evitando reajustes que jogariam combustível na inflação evitou uma escalada ainda maior dos juros e da inflação (que está cedendo). Mas o mercado, que aposta na inflação e nos juros altos para ter mais ganhos, reclamou contrariado. Seria decente reconhecer que os juros são pornográficos no Brasil.
Mas a conta geral de endividamento chegou a R$ 21,681 trilhões em junho, equivalente a 164,35 do Produto Interno Bruto (PIB).