Mercado errou aposta da inflação

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Guilherme Benchimol, porta-voz do mercado; ao fundo a Faria Lima

O mercado errou feio nas suas apostas para a inflação (e o Brent em nova queda para US$ 84,10, ou -2,05% amplifica o comportamento para agosto, quando já se esperava deflação). O resultado foi a queda, a contragosto, dos juros em todos os vencimentos até 2031, contrariando o discurso de porta-vozes do mercado, como Guilherme Benchimol, da XP, de que não há alternativa além do corte dos gastos para evitar problemas na rolagem da dívida pública.

[Sempre sustentei aqui que o maior problema da dívida são os altos juros reais (em torno de 10%), nível amplificado pelas expectativas inflacionistas do mercado financeiro, diariamente renovadas por gestores de recursos, que ganham mais com os juros nas alturas e não querem fazer parte do ajuste fiscal, que exige baixa dos juros].

Em julho, segundo o IBGE, o IPCA-15 subiu 0,06%, abaixo das expectativas de mercado. Em 12 meses, a inflação recuou de 4,80%, em junho, para 4,52% (quase no teto da meta, de 4,50%). O preço dos alimentos consumidos no domicílio recuou 1,14% no mês, liderado pelos itens “in natura”, e o grupo acumula alta de 2,6% nos 12 meses encerrados em julho, contra 3,4% no mês anterior.

Para o Bradesco, “os próximos meses devem apresentar leituras mais benignas para a alimentação no domicílio”; mas “já na parte final do ano, o El Niño deve pressionar os preços dos alimentos”. Os bens industriais registraram ligeira queda de preços, movimento conduzido pelos bens duráveis e semiduráveis. Em 12 meses, bens duráveis sobem 2,6%, mesma taxa verificada no mês anterior.

Os serviços subiram menos do que o esperado, em parte explicado por uma menor elevação do preço de passagem aérea (11,70%) e ainda assim, o sinal é de desaceleração. A taxa de 12 meses recuou de 5,5% para 5,3%. Nos últimos três meses anualizados, o grupo sem passagens aéreas sobe 4,6%. Os núcleos tiveram redução marginal na variação em 12 meses. O núcleo por médias aparadas com suavização desacelerou de 4,3% para 4,2%.

Para o Bradesco, “após a incorporação do choque do petróleo e de pressões pontuais sobre alimentos, os dados confirmam dissipação desses efeitos. A desaceleração dos núcleos indica que o efeito de segunda ordem do aumento do preço do petróleo não está sendo verificado nos dados”. Com os efeitos (especulativos) do El Niño começando a afetar os dados no segundo semestre, o Bradesco prevê que “a inflação cheia deve seguir próxima do limite superior do intervalo da meta”. Ou seja, há chance de cumprir a meta.

Contas externas melhoram

No mês de junho, o déficit de conta corrente foi de US$ 2,3 bilhões, menor da metade do valor de junho de 2025. O déficit acumulado em 12 meses chegou a US$ 61,3 bi, ou 2,5% do PIB. A conta corrente segue em melhoria ao longo de 2026, após fechar 2025 com déficit de 2,9% do PIB.

O saldo da balança comercial continua robusto em US$ 8,8 bi no mês, um dos melhores para o mês. Dados da secretaria do comércio exterior mostram que as exportações estão fortes em 2026, puxadas por petróleo, soja e minério de ferro. A exportação de carnes, sobretudo bovinas, está surpreendendo, em movimento de forte exportação concentrada no começo do ano devido à cota chinesa. O que deve diminuir, com a cota já superada. Em 12 meses o saldo da balança comercial está em US$ 71 bilhões e o Bradesco espera US$ 76 bilhões para 2026.

Numa prova de que o diferencial de juros está muito elevado no Brasil, o investimento direto no país registrou entradas recordes de US$ 9,1 bilhões em junho. Em junho de 2025, o IDP foi de US$ 3,1 bilhões. Desde setembro de 2025, o investimento direto tem surpreendido e ficado acima da sazonalidade mensal em vários meses. Em 12 meses, o IDP soma US$ 89,3 bi (3,6% do PIB), mais de US$ 20 bi acima do mesmo período do ano passado.

A robustez do investimento direto tem superado com facilidade o resultado de conta corrente (balança comercial + serviços + rendas de capitais). As balanças de serviços e rendas continuam deficitárias, praticamente em linha com o esperado, com destaque para -US$ 5,1 bilhões, em serviços de transportes O saldo em 12 meses é de -US$ 52,6 bilhões, ligeiramente melhor que o mesmo período de 2025.

Já a balança de rendas teve déficit de US$ 6,5 bilhões, acumulando saldo negativo em 12 meses de US$ 85,7 bilhões, maior que o acumulado até junho de 2025. Para o Bradesco, “a tendência do ano continua sendo de uma conta corrente cujo saldo melhora até chegar próximo de 2% do PIB. A balança comercial (...) com saldo robusto ajuda a diminuir o efeito dos déficits da balança de serviços e de renda”. O resultado foi que, num dia de alta do dólar no mundo, na expectativa da reunião do Federal Reserve (hoje e amanhã), a moeda americana caía 0,03% por volta de 12:38 (horário de Brasília), cotada a R$ 5,1138.