Nas tarifas, Trump quer a Fifa, não ONU e OMC
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Para o presidente americano, Donald Trump, que retirou os Estados Unidos dos principais acordos internacionais (como o do Clima), esvaziou a ONU e seus organismos internacionais (como a OMS e a OMC) e anunciou tarifaço contra o Brasil a partir de 22 de julho, o mundo ideal seria o da Copa do Mundo, gerido pela Fifa.
No jogo contra a Bósnia: o artilheiro Balogun, dos EUA, foi expulso, por jogo violento. E estaria suspenso no jogo, eliminatório, contra a Bélgica, dia 6 de julho. O presidente Trump apelou à Fifa e foi atendido: para Trump, “a Fifa corrigiu uma grande injustiça”. Mas os deuses do futebol não aceitam interferência e a Bélgica eliminou os EUA por 4 X1.
O arrazoado do USTR (o Escritório de Comércio dos Estados Unidos), equivalente ao nosso MDIC (Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior) para justificar o tarifaço de 25% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, com lista de exceção de mais de 11 mil itens (que pesam no bolso de seus consumidores ou vitais à indústria), como o café, carne bovina, laranja e suco de laranja, peixes, madeiras serradas, terras raras e peças e motores para aeronaves) é tão primário e grosseiro quanto a intervenção de Trump atendida por Giani Infantino, da Fifa.
Na verdade, a gênese do pacote americano traduz visão imperialista que não aceita concorrência no comércio, pois implicaria aceitar a perda em alguma área. Na agricultura, os EUA foram gigantes e líderes em quase todos os grãos, alimentos e produção de carnes passíveis de serem produzidos em território americano. A escala cresceu no século passado, quando as duas guerras mundiais afetaram a produção agrícola na Europa.
As exceções ditadas climáticas são claras como o cacau e o café e outros produtos que são inviáveis de produzir no solo ianque. Mas as geadas que atingiram os cafezais de São Paulo e Paraná em julho de 1975 mudaram o mapa da agricultura do Brasil. Atrás de clima mais ameno, o café se instalou no sul de Minas e no Triângulo mineiro. A cana-de-açúcar e a laranja ocuparam áreas que eram do café em SP.
E a produção de soja, iniciada no Rio Grande do Sul e Paraná, foi atraída para o Planalto Central, com sementes de soja, milho e algodão adaptadas pela Embrapa. Pastos foram substituídos por lavouras mecanizadas e a integração da produção de grãos com o confinamento de gado bovino para engorda provocou recordes de produção de grãos e carnes. Soja e milho são matérias-primas das rações para aves e suínos, cuja produção alimentou brasileiros e gerou excedentes exportáveis. O alvo da conquista do cerrado no governo Geisel (1974-79) era atender à demanda do Japão.
Na virada do século, o Brasil já era líder na exportação de carne de frango (desbancando os líderes EUA e o segundo lugar da França). O passo seguinte, com a entrada da China como grande comprador de proteínas e matérias-primas, foi erradicar a febre aftosa nos rebanhos bovinos e suínos para habilitar o Brasil como exportador dos dois tipos de carne.
A peste suína africana destruiu, na década passada, mais da metade da produção de carne de porco (a carne mais consumida na China). Isso abriu enorme espaço para carnes no mercado chinês. Os Estados Unidos não aproveitaram, porque seu rebanho bovino vem encolhendo (é menos da meta dos 220 milhões de cabeças no Brasil) e o país precisa importar carne para seus 340 milhões de consumidores.
Os pecuaristas americanos tentaram acusar os pecuaristas brasileiros de práticas desleais ou de conquista de florestas para pastos (o que fizeram no século 19). Mas a necessidade de segurar a inflação doméstica, deixou a carne bovina brasileira fora da lista: é vital à produção de hamburguers. É bom ficar atento a novas investidas.
Do mesmo modo, madeiras de pinus serradas foram isentas de taxas porque são vitais à indústria da construção de casas nos EUA. Idem para o suco de laranja (a produção da Flórida é insuficiente) e para as peças e motores para a aeronaves da Embraer, importantes para o mercado regional, assim como máquinas e tratores de uso industrial.
Mas o lado mais revelador do inconformismo americano com a perda de sua hegemonia econômica em diversas áreas é a crítica de que as instalações industriais no mundo estão com capacidade acima do consumo global. Ora, quem criou a pujança industrial nas economias emergentes após a primeira crise do petróleo, em 1973, foram os próprios Estados Unidos. Houve clara intenção de transferência da produção de bens com uso intensivo de energia (como o alumínio e o aço) para fora do território americano. Com o Brasil, acumulam saldo de mais de US$ 400 bilhões em 15 anaos!
E o governo Nixon, ao abrir relações comerciais com a China, em 1972, o que, a partir da década de 1980 levou à crescente transferência de unidades de produção das multinacionais americanas nos chamados “tigres asiáticos”. As dimensões da China mostraram que as fábricas locais, produziam em muito maior escala. Com investimentos maciços em educação e a formação de engenheiros (enquanto os Estados Unidos privilegiam advogados para discussão de relações comerciais e patentes), a indústria americana ficou obsoleta e várias áreas na economia mundial (siderurgia e atividades que usam muito aço, como a construção naval e a indústria automobilística).
Querer que o mundo pague o preço pelo oportunismo americano que trocou o GATT pela OMC, porque era vantagem (nos anos 90) perder na corrente de comércio para ganhar nos fluxos financeiros, “royalties” e patentes) é igual tentar mandar no jogo como na Fifa (e não deu certo). O Brasil e outros países têm de recorrer aos painéis de controvérsia da Organização Mundial do Comércio.