Paz faz Brent cair e ajuda Copom
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Antes do armistício de ontem, com o cessar-fogo de 60 dias entre Estados Unidos e Irã, e liberação total do tráfego pelo Estreito de Ormuz, o cenário era pessimista para a super quarta-feira, 17, quando o Federal Open Market Committee (FOMC) e o Comitê de Política Monetária do Banco Central decidem sobre as taxas de juros nos EUA e Brasil.
O pessimismo no Brasil, com a alta de 42% no barril do Brent, o estrangulamento logístico em Ormuz e a destruição de várias instalações petroquímicas no Oriente Médio, embutia uma visão de choque de oferta nas cadeias globais. E a última pesquisa Focus traduzia isso: a expectativa para a inflação deste ano aumentou de 5,11% para 5,30% e a mediana dos últimos cinco dias úteis chegou a 5,35%, muito acima do teto da meta (3,00%+1,50% de tolerância=4,50%).
Em função das pressões inflacionárias (o mercado previu IPCA de 0,32/0,33% em junho; 0,31/0,33% em julho e, finalmente, estabilidade em agosto, 0,03/0,00%), esperava-se uma baixa de 0,25% na taxa Selic nesta quarta-feira, mas o ano fecharia em 13,75% na mediana da Focus e a mediana dos últimos cinco dias úteis era ainda mais pessimista: a Selic só teria uma nova queda, encerrando em 14,00%. E pior, com o IPCA de 2027 esperado em 4,10/4,20%, as apostas para a Selic subiram de 11,50% para 12,00% em dezembro do próximo ano.
O alívio do Brent
Mas o impacto do acordo (por ora, um “Acordo Quadro”, como definiu o “New York Times”, ou seja, EUA e Irã manifestam intenções, sem entrar nos detalhes) foi bastante significativo nos preços do petróleo, com queda inicial de mais de 5% nos preços do barril do tipo Brent nos contratos para entrega em agosto e queda em todos os vencimentos futuros até 2037.
Às 10:24 (horário de Brasília), o Brent era negociado a US$ 83,16 (queda de 4,78%). Em uma semana, a queda chega a 11,6% e a baixa alcança 23,8% em 30 dias. O contrato de dezembro de 2026 era negociado a US$ 80,10, uma baixa de 2,48%.
Os mercados de ações reagiram em alta em todo o mundo. O Ibovespa subia 2,54% às 11:24, mas Petrobras PN caía 3,8% Na Ásia, o índice Nikkei, do Japão subiu quase 5%, os índices chineses tiveram alta de até 3%. Na Europa, o índice Dax, da Alemanha subiu 1.23%, o CAC, da França tinha valorização de 0,73%, mas, a FTSE, da Bolsa de Londres, registrava queda de 0,34%. Nos EUA, o S&P 500 operava em alta de 1,49% e o índice Nasdaq valorizava 2,38%.
Dólar tem queda global
A vitória alardeada pelo presidente Donald Trump não encontrou eco nos mercados de câmbio, onde a moeda americana operava em baixa global. O índice do dólar tinha queda de 0,27%, o euro valorizava 0,39% ante o dólar, a libra subia 0,22%, o dólar caía ainda 0,10% ante o iene japonês e 0,56% frente ao franco suíço.
Em relação aos países emergentes, o dólar perdia 0,40% para o dólar australiano e 0,02% para o peso mexicano. Outra baixa, de 0,08%, era registrada diante do yuan, chinês. Mas houve baixa significativa de 0,27% diante do real, cotado a R$ 5,0443, às 11:23 (horário de Brasília). Na pesquisa Focus, antes do armistício, o mercado elevou a projeção do câmbio para dezembro de R$ 5,15 para R$ 5,20.
Os dilemas do Copom
O Copom não pode ignorar que as projeções da inflação estão bastante acima do razoável (além de 5,11/5,30% para o IPCA deste ano), a projeção para a inflação em 12 meses em junho de 2027 estava em 4,11/4,30% na última Focus). A pacificação, temporária, no Oriente Médio, afasta o pânico, mas não devolve conforto aos bancos centrais.
E o Copom ainda está diante do dilema do ano eleitoral. Todo o cenário anterior aos ataques de Israel-Estados Unidos ao Irã em 28 de fevereiro, era de queda dos juros (Selic na faixa de 12% a 12,50% - agora estaria dois pontos acima?) e, em função disso, o governo tomou medidas econômicas de impacto, como a redução do IR para quem ganha até R$ 5 mil mensais e o Programa Desenrola.
Sem uma queda substancial dos juros (mesmo que a renegociação abata 80% a 90% dos juros, porque os bancos vão recuperar operacionalmente contratos que já tiveram baixas de provisões) o quadro macroeconômico continua ameaçador aos devedores. Por isso, o mercado espera baixa da Selic nesta reunião e acenos para 5 de agosto.
A visão do Itaú
Como é hábito às vésperas das reuniões do Banco Central, o Itaú apresentou na noite de sexta-feira, 12, o “Cockpit do Copom, com suas projeções para a decisão: “Esperamos que o comitê opte por um corte de 25 p.b. para 14,25% a.a., mantendo suas opções em aberto para a próxima reunião ao comunicar que, neste momento, o espaço remanescente para qualquer calibração adicional é mais incerto”.
“Não acreditamos que o comitê irá descrever o balanço de riscos para a inflação como assimétrico, uma vez que tal mudança poderia levar o mercado a passar a discutir altas de juros de forma mais concreta”.
“Seguimos enxergando que o cenário atual sugere um “trade-off” bastante delicado entre avançar no processo de flexibilização (em particular, em meio às incertezas crescentes no âmbito doméstico, dado o alto grau de alavancagem das empresas e das famílias), e o risco de deterioração adicional do ambiente inflacionário. Em termos líquidos, desde a última reunião, o tamanho total do ciclo parece ter diminuído”, diz o Itaú. A conferir.