Entre inflação e recessão, BC decide a Selic

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A próxima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) e do Federal Reserve dos Estados Unidos, será em 17 de junho, daqui a mais de um mês. Até lá, muitos fatos e dados tendem a alterar o balanço de riscos inflacionários e choques externos sobre os quais o Copom opta entre o controle da inflação e a necessidade de estímulo à economia. Isso olhando a conjuntura atual e um horizonte 18 meses além. Desta vez, o dilema é ainda maior.

A guia principal de inflação do Copom é o IPCA, sobretudo o IPCA de serviços. Enquanto o IPCA cheio de abril subiu, em 12 meses, a 4,39% (4,14% em março) e as projeções apontam para a faixa de 4,7% a 5,3% até dezembro, o nível de serviços segue rodando na faixa de 6%. Parte da pressão em serviços deve-se à força do mercado de trabalho.

Como pano de fundo, paira no horizonte a alta dos preços do petróleo. Sem aparente acordo sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, após dois dias de encontro dos presidentes Donald Trump e Xi Jinping, em Pequim, o barril do Brent para entrega em julho foi negociado hoje a US$ 109, com alta de 3% e se mantém em alta em todos os vencimentos até junho de 2027 (US$ 82).

Esperava-se mais notícias alentadoras de Pequim e o S&P 500 caiu 0,95%, ante as previsões de que não haverá tão cedo, espaço para baixa dos juros nos EUA. Isso provocou jornada de valorização do dólar ante as principais moedas. Às 12:30 (horário de Brasília) o euro caía 0,39%, a libra -0,65%, o dólar subia 0,23% frente ao iene e 0,42% ante o franco suíço, a moeda australiana caía 1%. O real desvalorizou. O dólar foi cotado a R$ 5,0727, alta de 1,74%.

Dilema eleitoral

Como é ano eleitoral e o Brasil, assim como os Estados Unidos, também autossuficiente em petróleo, busca atenuar com redução de impostos e subsídios ao diesel e à gasolina uma alta, que se sabe passageira, mas poderia contaminar toda a cadeia de preços, jogando a inflação para um patamar mais elevado (tornando mais difícil e custosa sua reversão em despesas de juros ao Tesouro, bem superior aos subsídios, bancados com a tributação na exportação do petróleo), os bancos centrais dos dois países estão diante de um dilema em ano eleitoral. Com a inflação disparando, as consequências são negativas para os dois governos.

Embora hoje seja o último dia de Jerome Powell como presidente do Fed, que teve seu substituto aprovado, esta semana, pelo Congresso, os agentes financeiros locais estão descrentes de que Kevin Warsh convença os demais membros do Federal Open Market Committee (FOMC) de que seja hora de baixar juros.

No Brasil, o desgaste da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pelas revelações de suas relações promíscuas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, um dos principais financiadores do filme “Dark Horse”, rodado nos EUA sobre a vida de Jair Bolsonaro e que seria lançado no Brasil em setembro, como forte peça da campanha eleitoral, deixou o mercado financeiro desnorteado.

O candidato preferido do mercado era o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mas o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos pela trama golpista de 2022, após não reconhecer a derrota para Lula, só confiava na garantia de indulto por alguém do clã Bolsonaro e indicou em novembro o filho 01, Flávio Bolsonaro. O mercado, que já estava precificando a eleição de Flávio, quando as revelações de que cobrava dinheiro de Vorcaro à véspera da liquidação do Master e da prisão do banqueiro vieram à tona, ficou desnorteado. Até porque Tarcísio, descartado, não se desincompatibilizou e ficou no cargo para tentar a reeleição. Não pode ser o plano B.

Queda de 1,2% de serviços em março acende alerta

Março teve queda de 1,2% na receita real de serviços, descontada a inflação, revelou o IBGE, na Pesquisa Mensal de Serviços. As estimativas eram próximas à estabilidade. Isso acendeu o sinal de alerta de que o esfriamento do setor mais importante da economia prenuncie desaceleração geral, o que levaria o BC a baixar os juros.

No cálculo do PIB, cujo resultado do primeiro trimestre o IBGE divulgará dia 29 de maio, o Setor de Serviços pesa com 67%, a Indústria com 22/23% e a Agropecuária com 7/8%. A PMS é só uma fração do setor, que inclui comércio, atividades financeiras e imobiliárias e administração pública.

O Bradesco e o Itaú estão recalibrando as projeções do PIB do primeiro trimestre. Para o Bradesco, após números mais fortes em fevereiro, o resultado de março indica uma acomodação da atividade doméstica e deixa um ritmo de largada mais baixo para o segundo trimestre. O banco espera um crescimento próximo de 1% nos primeiros três meses do ano e uma desaceleração para em torno de 0,5% no segundo trimestre.

Já o Itaú considera que os números do setor de serviços vieram abaixo do esperado, com queda disseminada entre as atividades. O principal destaque negativo no mês foram os serviços prestados às famílias, que devolveram parte do forte avanço de fevereiro e encerraram o trimestre praticamente estáveis (+0,3% t/t). No trimestre, o setor de serviços recuou 0,7%, com desempenho diverso entre os segmentos: o item Informação e Comunicação teve alta forte, enquanto Transportes caíram, devido ao tombo em transporte aéreo (a atividade de turismo caiu 4%). Esse resultado deve aparecer na abertura do PIB trimestral, com alta do PIB de serviços no agregado, mas com diferenças relevantes entre as atividades, assinala o Itaú.

Meta de inflação em debate

Há uma corrente de economistas que sugere que o Copom deveria pausar a redução a conta-gotas (0,25%) por reunião da Selic, que está em 14,50% ao ano. Como os juros nos EUA estão na faixa de 3,50%-3,75%, o diferencial de juros é de 10,75%.

Entretanto, como a meta de inflação é de 3,00%+,50% de tolerância=4,50%, nível ultrapassado pelas projeções, o dilema do Banco Central é seguir com juros altos sem chance de derrubar a inflação para o centro da meta antes de 2028, ou adotar o realismo de que a meta de inflação ficou fora da realidade devido à inflação gerada pela guerra do Golfo Pérsico, como também ocorreu em 2022.

Seria realista, argumenta o economista Sérgio Werlang, gestor do regime de metas de inflação, em 1999, como diretor de Política Monetária do BC, para evitar juros reais altíssimos (hoje, acima de 10%). O tema vai entrar em discussão no Conselho Monetário Nacional em junho. O PT propôs o aumento da meta para 4,50% em seu congresso este mês.

O dilema atual foi enfrentado por Paulo Guedes no governo Bolsonaro, após a Rússia invadir a Ucrânia, em fevereiro de 2022, e gerar a disparada dos combustíveis e da inflação. Sem que o BC conseguisse frear a inflação com a alta dos juros, Guedes cortou os impostos federais e o ICMS dos estados sobre combustíveis, energia elétrica residencial e comunicações. O IPCA baixou de 12% a 5,79%, mas o teto da meta estourou e não evitou a eleição de Lula.