Gasolina opõe Tesouro ao mercado

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Quem acompanha esta coluna sabe que tenho explicado a torcida do mercado financeiro pela inflação. Quanto mais a escalada dos preços do petróleo e dos seus derivados, incluindo fertilizantes, elevar o IPCA, maiores ganhos terão os investidores que estão com papéis atrelados à correção monetária pós-fixada. Mas não é só. Uma alta da inflação impõe cautela do Banco Central para baixar juros da Selic.

O plano original de 2026 era reduzir a Selic de 15% a 12%. Cada ponto para cima ou para baixo da Selic custa mais ou menos R$ 63 bilhões ao Tesouro Nacional ao fim de 12 meses. O mercado está apostando que a Selic fecha o ano em 13% ou mais. Ou seja, o Tesouro pode ter despesa extra de R$ 80 bilhões. Antes da guerra do Golfo Pérsico subir o petróleo acima de US$ 100, o mercado apostava em queda de 0,50% na Selic, em 18 de março, repetida em 29 de abril.

Agora, o Ministério da Fazenda, depois de criar uma fórmula para evitar a disparada do diesel, que afeta o transporte de mercadorias e as passagens de ônibus urbanos e interurbanos, luta para reduzir os impostos da gasolina (o item de maior peso – mais de 0,5% - entre os 377 pesquisados pelo IBGE no IPCA). Usaria para isso, o aumento da arrecadação na exportação de óleo (taxada em março), para neutralizar o aumento de gastos fiscais. Proposta neste sentido foi enviada ao Congresso.

A Faria Lima já mostrou suas garras. Aproveitando-se que os jornais e a mídia só ouvem um lado da moeda (dos rentistas e dos gestores de fundos do mercado), os economistas do sistema financeiro, para assustar os congressistas, falam que a medida pode causar rombo fiscal. Tudo embuste. O que eles querem é mais inflação (que afeta toda a economia, mas tem um efeito concentrador de riqueza no ganho extra das aplicações financeiras em papéis do Tesouro e outros atrelados à inflação ou à Selic.

Quanto mais a inflação subir (arrochando pobres e a classe média endividada), melhor para os bolsos endinheirados dos gestores de fortunas e fundos de investimento da Faria Lima.

A disputa pela Brava Energia
A Brava Energia, uma das maiores companhias privadas de exploração de petróleo e gás do Brasil, recebeu ontem uma oferta de compra da Ecopetrol, a estatal colombiana de petróleo. Hoje, quando o barril de petróleo tipo Brent atingiu US$ 105, praticamente estável, as ações da Brava ON têm das maiores baixas na B3 (o Ibovespa cede 0,60%) e entre as petroleiras, com queda de 4,50% às 11:40 (horário de Brasília), enquanto as ações da Petrobras, da Prio, da Petrorecôncavo, tinham baixas entre 1,70% e 1,10%, numa reação negativa dos investidores à oferta de compra.

A Brava Energia é resultado da fusão de pelo menos três companhias de exploração de petróleo: 1 - Queirós Galvão Óleo e Gás, fundada em 1998; 2- da Ouro Preto Óleo e Gás, fundada em 2010 pelo ex-executivo da Petrobras e da OGX de Eike Batista, Rodolfo Landim, ex-presidente do Flamengo; e 3 – e da 3R Petroleum, criada em 2014 para Redesenvolver, Repensar e Revitalizar campos maduros que a Petrobras vendeu por terem custos de extração elevados, comparados aos do pré-sal, onde se concentrou.

Todas as companhias se especializaram em explorar campos maduros. De 2014 a 2019, além de abocanhar campos e outras empresas, a Ouro Preto adquiriu campos maduros da Petrobras, e em 2020, Landim, já presidindo o Flamengo, vendeu o controle para a Starboard Restructuring Partners, uma gestora de “private equity”. Em agosto de 2019, a Petrobras vendeu, por US$ 191,1 milhões, sete campos que fazem parte do Polo Macau, na Bacia Potiguar, para a 3R Petroleum. No mesmo mês, a Starboard Asset adquiriu 93% da 3R Petroleum e o passo seguinte foi a fusão das duas companhias em 2020.

Em março de 2019, a antiga Queirós Galvão virou Enauta. Com problemas na Lava-Jato, a empreiteira renegociou as dívidas em 2023 e o Bradesco, um dos credores, virou o maior acionista, com 26,2% de participação. Em abril de 2024, a 3R Petroleum anunciou acordo de incorporação com a Enauta Participações. Em julho do mesmo ano o CADE aprovou a fusão da companhia com a Enauta Energia, que passou a ser Brava Energia. O Bradesco ainda é o maior acionista, com 12,2% das ações ON.