Algumas inconsistências da economia

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A forte concentração das maiores economias (e das populações) do mundo no Hemisfério Norte (Estados Unidos, Canadá, a União Europeia, o Reino Unido, a Rússia, a China, a Índia, a Coréia do Sul e o Japão estão na metade superior do globo terrestre, assim como os maiores produtores de petróleo, gás e fertilizantes) cria uma situação que costuma distorcer as análises econômicas.

Num efeito manada, como os capitais que giram no mercado financeiro em moedas, ações, “commodities”, criptomoedas, títulos, pertencem a investidores do HN, situações que afetam diretamente os países nortistas são tidos como parâmetros aplicáveis às economias do Sul Global (entre as quais o Brasil é líder, secundado por Austrália). Economias emergentes como Indonésia (4º país mais populoso do mundo), Nova Zelândia, Argentina, e África do Sul também se destacam no Hemisfério Sul.

Em situações normais de temperatura e pressão (desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, situação agravada agora pela guerra do Golfo Pérsico, o mercado foge à normalidade) o ciclo dos preços do petróleo e dos combustíveis de aquecimento está mais atrelado à demanda dos países nortistas do que os do Sul. Isso significa que no outono-inverno (outubro a março) há forte demanda de óleo de aquecimento no mundo, forçando alta de preços; chegando a primavera, a partir de abril, há forte demanda de fertilizantes para o plantio das lavouras locais.

As análises que falam de pressão nos preços dos fertilizantes (que contaminam os preços dos produtos agrícolas no Brasil, confirmando o efeito manada) distorcem a realidade global. O plantio das safras dos países nortistas está sendo afetado pela alta atual dos fertilizantes nitrogenados devido ao fechamento do tráfego pelo Estreito de Ormuz, que estrangulou o escoamento de 25% a 30% do petróleo e do gás consumido no mundo. Os preços só não dispararam tanto porque na primavera e no futuro verão caem a demanda por combustíveis para aquecimento.

Esta realidade já explica por que a aplicação do sistema de paridade de preços internacionais (criado em setembro de 2016) para atrelar os preços dos combustíveis no mercado doméstico brasileiro aos do mercado internacional, atualizados pela taxa de câmbio) era uma estupidez. Importava a inflação de demanda do outono-inverno do HN para a primavera-verão do Brasil.

E, como o Brasil não se livrou da indexação dos preços passados, gerava mais inflação. Era muito bom para os especuladores do mercado financeiro que acompanhavam os preços internacionais. O ano de 2022 mostrou ao governo Bolsonaro que o PPI (que visava privatizar a Petrobras, ao facilitar a concorrência dos preços externos) era um estorvo.

Bolsonaro trocou cinco presidentes da Petrobras, inconformado com os sucessivos reajustes dos combustíveis que minavam sua popularidade e escalava a inflação e os juros. Em junho, junto com Paulo Guedes, cortou impostos federais e o ICMS dos estados (e municípios) dos combustíveis, energia elétrica residencial e comunicações. Não adiantou. Perdeu a reeleição para Lula e tentou o golpe. Eleito, Lula cumpriu a promessa de campanha de “abrasileirar” os preços dos combustíveis.

Em vez de reduzir a capacidade instalada das refinarias (operavam abaixo de 70% para gerar mercado à importação), a Petrobras na gestão de Jean Paul Prates, abandonou o PPI em maio de 2023 e passou a usar mais de 70% do petróleo mais leve do pré-sal (que extrai a US$ 21 por barril) nas refinarias que passaram a ocupar mais de 90% da capacidade instalada.

Com alta margem operacional, a Petrobras pode evitar aumentos da gasolina e do diesel nos dois últimos anos e atenuar o choque atual na guerra do Golfo. Se o país tivesse reeleito Bolsonaro e avançado na privatização de 50% do parque de refino (só restariam as refinarias de São Paulo e Rio de Janeiro), o Brasil estaria perdido, com uma inflação descomunal e crise de abastecimento em várias regiões.

O efeito dos fertilizantes
O mercado de petróleo perdeu um bilhão de barris devido à guerra com o Irã, alerta a Vitor, gigante norte-americana na distribuição de petróleo, combustíveis e fertilizantes derivados de petróleo, sediada na Suíça, ouvida pelo “Financial Times”. Segundo o influente jornal britânico, a interrupção do Canal de Ormuz aumenta o risco de choque alimentar global, alertam os operadores. O mundo está "com tempo emprestado" para evitar uma crise, já que o aumento dos preços do gás pressiona a produção de fertilizantes.

Assim como os ciclos climáticos fazem diferença entre os países dos dois hemisférios, no caso dos fertilizantes, isso é bom de ser levado em conta. Há uma exagerada especulação sobre os preços dos fertilizantes. Serve de cortina de fumaça para justificar especulação com preços de alimentos que só serão semeados a partir de agosto-setembro (quando é o período da grande safra 2026-27).

Por enquanto, estão sendo colhidos os últimos terrenos de soja, milho e algodão no Centro-Oeste. Com projeções recordes. Se a crise no Golfo persistir até a metade de maio, há motivos para alguma preocupação. Antes, é só especulação.

Recuos dão mais lucros
Os jornais americanos, à frente o “Wall Street Journal”, já insinuaram que os sucessivos recuos do presidente Trump, nos tarifaços e nos ultimatos ao Irã, facilitam as manobras especulativas nos mercados futuros. Uma pesquisa dos preços do barril do Brent nos últimos dois meses revela que os ganhos podem ser exponencialmente maiores nas apostas de baixas (“inside information” do círculo presidencial sobre os recuos do que nas altas).

Desde o ataque ao Irã, em 28 de fevereiro, a maior alta diária ficou em 12%. Na média, têm variado na faixa de 4% a 6%. Já as baixas registraram o recorde de 14,52% em 1º de abril (mas tinham tido queda de 13,29%, em 8 de abril, e de 9,07% em 17 de abril). Nesta quarta-feira, o Brent sobe 3,70% a US$ 101,70.

IA derruba inflação e juros?
Outra especulação é sobre o futuro presidente do Federal Reserve Bank, Kevin Warsh (o mandato de Jerome Powell acaba em 15 de maio), que defende cortes nas taxas de juros do Fed. desejados pelo presidente Trump, argumentando que um “boom” na inteligência artificial logo traria um aumento de produtividade que conteria os preços.

Na terça-feira ele será sabatinado no Senado para ter seu nome aprovado. No dia seguinte, 29, o Fed terá sua última decisão de política monetária sob o comando de Powell. No mesmo dia, três horas depois, o Banco Central decide se baixa a Selic para 14,50% (a aposta do mercado) ou 14,25%.

Mais difícil, será convencer seus futuros colegas no Federal Open Market Committee (FOMC), que, segundo o “Wall Street Journal”. Além do suposto “boom”, Warsh costuma citar a paciência do ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, na década de 1990. No entanto, ainda segundo o “WSJ”, seus futuros colegas veem uma economia que não se parece em nada com a daquela época. E têm demonstrado, de forma sutil, porém inequívoca, um ceticismo acentuado.