Mercosul-UE: o acordo ganha-ganha

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Mário Lubetkin, ministro das Relações Exteriores do Uruguai, falou ao JORNAL DO BRASIL

Os golpes disruptivos gerados na desintegração das cadeias produtivas de comércio, como os tarifaços de Donald Trump e a guerra no Golfo Pérsico entre Israel-Estados Unidos contra o Irã, cujos reflexos nos países vizinhos privaram o mundo do suprimento temporário de cerca de 30% do petróleo, gás natural e fertilizantes, reduziram o horizonte econômico ao curto prazo das oscilações diárias do barril do petróleo Brent e à dança das moedas.

Em meio aos impasses na reabertura do tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, o mundo aposta na retomada das negociações entre EUA e Irã, no Paquistão. Assim, o Brent para entrega em junho subiu mais de 5% nesta segunda-feira (20), cotado na faixa de US$ 95 às 12:15 (horário de Brasília). O dólar segue em ligeira baixa ante as principais moedas e era cotado a US$ 4,9845, às 12:20, alta de 0,12%.

Com base nos cenários da semana passada, a pesquisa Focus do Banco Central junto a 158 instituições financeiras, consultorias e institutos de pesquisa, divulgada hoje, aumentou as expectativas da inflação de 4,71% para 4,80% este ano (e 4,85% na mediana das respostas dos últimos cinco dias úteis) e o mercado previu redução no ritmo de baixa dos juros da Selic de 12,50% para 13,00% este ano.

Na visão do mercado, com a expectativa de 0,70% para o IPCA de abril, o Comitê de Política Monetária reduzirá a Selic em 0,25% em 29 de abril, para 14,50%, e repetirá a baixa em 17 de junho para 14,25%. A trava nos juros prosseguiria em 2027, com a Selic aumentada de 10,50% para 11,00%. Com o diferencial de juros entre Brasil e EUA acima de 10% (no momento está em 11%), o mercado reduziu de R$ 5,25 para R$ 5,08 (R$ 5,04 nos últimos cinco dias úteis), a previsão do câmbio em abril. Para dezembro, caiu de R$ 5,37 para R$ 5,30 (R$ 5,25 nos últimos cinco dias)

Em 10 dias começa acordo com União Europeia

Mas em apenas 10 dias, a partir de 1º de maio, entra em vigor o capítulo comercial (o mais importante) do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que formará formidável bloco econômico de mais de US$ 22 trilhões e de mais de 745 milhões de consumidores. O acordo, negociado há três décadas, é uma reafirmação do multilateralismo.

O presidente Lula destacou na Feira de Hannover, o imenso potencial de crescimento das economias dos dois lados do Atlântico com a desgravação tarifária (gradativa e sujeita a revisões a cada quatro anos) no comércio agrícola e de bens industriais. O acordo prevê redução de tarifas para 91% dos produtos importados pelo Mercosul e 95% dos produtos importados pela União Europeia, sobretudo agrícolas.

Uruguai

Para o ministro das Relações Exteriores do Uruguai, Mário Lubetkin, que atua no gabinete do presidente Yamandu Orsi, de centro-esquerda, desde a posse, em 1º de março deste ano, e que assumirá a presidência rotativa do Mercosul em julho, sucedendo ao Paraguai, o acordo entre os dois blocos (o 2º maior do mundo) abre imensas possibilidades em comércio e desafios à logística para integração das cadeias de comércio envolvidas na nova fronteira de negócios.

Embora seja o menor país do Mercosul em população (3,6 milhões de habitantes – pouco mais da metade da cidade do Rio de Janeiro, 6,4 milhões), o Uruguai tem a maior renda “per capita” da região (US$ 16.332) e o 2º Índice de Desenvolvimento Humano (0,862). O Brasil tinha renda “per capita” de US$ 10.673 (que, com a valorização do real este ano e o aumento do PIB, deve crescer para US$ 12 mil, estima o Bradesco) e um IDH de 0,786.

Mas o que anima Lubetkin, como disse em conversa, semana passada, com o JORNAL DO BRASIL, são as projeções do Banco Interamericano de Desenvolvimento sobre ganhos de escala do Uruguai no comércio de carnes, soja, óleos vegetais, lã e produtos de madeira para a UE. Presidido pelo brasileiro Ilan Goldfajn, ex-presidente do Banco Central no governo Temer, o BID prevê impulso de 8% ou mais no PIB e na redução da pobreza do Uruguai nos próximos 10 anos. Lubetin crê em dinamismo semelhante, talvez um pouco menor, nos demais membros do Mercosul.

Como negociador oficial do Uruguai e do Mercosul, a partir de junho, nos diversos fóruns geopolíticos (Ceplac, EFTA – os países da Europa que não integram a União Europeia, o G-77 , que congregava 77 países em desenvolvimento da América do Sul e Caribe, África e Ásia e agora tem 135 membros), o ministro das Relações Exteriores frisa que o grande diferencial do grupo, que dá autoridade política ao Mercosul é o respeito à democracia, expresso pelo “Consenso de Brasília” e vigente no rodízio do poder entre os quatro membros, a cada seis meses.

No Uruguai ele lembra que, após dois mandatos do conservador Luis Lacalle Pou, que sucedera a Tabaré Vazquez, sucessor do esquerdista José Mujica, falecido em maio do ano passado, ocorreu o rodízio democrático do Poder. Assim como na Argentina, no Paraguai e no Brasil. Já a Venezuela, que era membro associado, a partir de 2012, foi excluída do bloco, em 2017 por desrespeitar as regras democráticas.

Lubetkin considera que os solavancos atuais no entendimento entre as nações será superado pela prática do multilateralismo, do qual o acordo Mercosul-União Europeia é um exemplo do vigor das negociações bilaterais adiantadas, com um gigante como a Índia, e blocos econômicos da África e do Sudeste asiático.