Dívida custa R$ 84,2 bilhões em fevereiro

...

Por

.

Não são apenas os pequenos e microempresários e as famílias que estão atolados pelos altos juros das linhas de crédito. Nas PMES o nível de inadimplência atingiu o recorde de 5,8% em fevereiro, segundo o Banco Central. Já as famílias, que estavam com dívidas equivalentes a 49,7% do PIB tinham inadimplência de 7% na média dos créditos (5,0% no crédito pessoal; 6,0% em financiamento a veículos e 9,4% no cartão de crédito), devido aos altos custos do crédito a juros livres que comprometia 29,3% da renda em janeiro (o dado de fevereiro ainda não saiu).

Mesmo com os mais baixos juros da praça (a Selic estava em 15% ao ano em fevereiro, o setor público teve de fazer pagamento recorde em juros para o mês (R$ 84,201 bilhões) sobre a dívida líquida do setor público (DLSP), que atingiu R$ 8,4 trilhões no mês passado, o equivalente a 65,5% do PIB. O custo da DLSP acumula juros recordes de R$ 147,828 bilhões em janeiro e fevereiro e a cifra descomunal de R$ 1 trilhão e 36,770 bilhões nos 12 meses terminados em fevereiro deste ano.

Os dados do endividamento em bola de neve (situação agravada pela escalada da inflação em todo o mundo, devido ao aumento de 47% nos preços do petróleo do tipo Brent em março e de 75% em três meses, diante das escaramuças que levaram à guerra do Golfo) são bem mais preocupantes, pela magnitude, do que os números do resultado primário do setor público (receitas menos despesas, sem contar os juros da dívida).

Brent cai a US$ 106 e baixa nos futuros

Embora, hoje, os preços do barril para entrega em junho tenham tido pequeno recuo para US$ 106,70, baixa de 0,60%, acompanhada por todos os vencimentos até junho de 2027 (a cotação de dezembro deste ano caiu para US$ 83, depois que o presidente Trump ameaçou parar a guerra declarando vitória e deixando a cargo dos países importadores negociar com o Irã a liberação do tráfego pelo Estreito de Ormuz, mostrando que o cenário do mercado financeiro de estimar o petróleo na faixa de US$ 120 este ano é irreal.

Mas a verdade é que a escalada dos preços do petróleo determinou uma meia trava nos movimentos dos bancos centrais para baixar os juros este ano. O Banco Central brasileiro retardou de janeiro para março o início da baixa da taxa Selic, que estava em 15% ao ano e pausou a baixa para apenas 0,25% (14,75%) em 18 de março, situação que pode se repetir em 29 de abril. Segundo o Banco Central, cada um ponto de aumento na taxa Selic onera em R$ 62,6 bilhões o Tesouro Nacional nos próximos 12 meses. Antes da guerra, os cálculos eram de que a Selic baixaria três pontos para 12% (visão do Bradesco); já o Itaú revisou ontem a previsão de 12,25% para 13%.

Por isso, chega a ser mais grave que, justamente quando os juros aumentam o peso no custo da dívida (e a guerra afasta a possibilidade de um alívio maior – o Itaú já revisou para cima o valor da Selic em 2027 (de 11,25% para 12,00%, embora o mercado ainda aposte em 10,75%), o resultado primário do governo tenha sido mais negativo em fevereiro, com déficit de R$ 16,4 bilhões. Em janeiro, com o orçamento trancado, houve superávit de R$ 103,6 bilhões, o que produziu um superavit acumulado de R$ 87,301 bilhões. Em 12 meses, o déficit foi de R$ 52,8 bilhões.

Receitas voltam a crescer

Os dados da arrecadação federal em fevereiro animaram tanto a consultoria 4intelligence, quanto o Itaú. A consultoria destaca que a Receita Administrada pela RFB apresentou incremento de +4,1% em 12 meses, enquanto a Arrecadação Líquida para o RGPS cresceu +5,6% na mesma métrica, ambas influenciadas pelas condições ainda favoráveis da atividade econômica e do mercado de trabalho. O recuo nas Receitas Não Administradas pela RFB (-4,4%) é causado por menores receitas em dividendos e concessões. Após as transferências (-1,2%), houve incremento na Receita Líquida (+5,6%). Nas despesas (+3,1%)), a consultoria chama a atenção para as variações modestas em Benefícios Previdenciários (+2,2%) e BPC (+2,4%) atenuaram a forte expansão do começo de 2025.

O Itaú considera positivo o fato de que “as receitas voltaram a mostrar um desempenho robusto nos últimos meses, após uma fraqueza em meados do segundo semestre de 2025, enquanto as despesas seguem pressionadas. No mês, a surpresa foi concentrada nas transferências de receitas para governos regionais, impactando negativamente o governo central e positivamente Estados e Municípios”.

Por isso, o banco revisou para melhor, em 2026, “as projeções do resultado primário de -0,5% do PIB (antes -0,8%). Isso reflete uma maior arrecadação vinculada ao petróleo e utilização parcial do espaço gerado com alguma contenção dos preços de combustíveis no curto prazo, ainda sem formato definido. Com isso, avaliamos que o governo se encontra bem próximo de cumprir a meta efetiva de -0,5% do PIB (considerando limite inferior e abatimentos), embora sua concretização permaneça sensível à evolução do cenário externo, às respostas ao choque de petróleo e ao cumprimento do arcabouço fiscal”. O banco tem sido dos mais céticos agentes econômicos face às contas fiscais.