Copom troca o ‘coponês’ pelo ‘economês’
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Em meio à incerteza global pelo agravamento da guerra do Golfo entre Israel-Estados Unidos X Irã, pelo espalhamento do conflito com os países vizinhos produtores de petróleo e gás, com impacto direito no suprimento de energia e outros insumos, a Ata da Reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central, de 18 de março, que fez a primeira redução de 0,25% na taxa Selic desde 18 de junho de 2025, quando ela foi fixada em 15% ao ano, trouxe uma certeza: o português do Copom ficou bem mais compreensível. Sem rodeios, diante das incertezas, o Copom não se comprometeu com passos futuros.
Sem dúvida, isso se deve ao fato de que houve a troca provisória na diretoria de Política Econômica (Dipec) do Banco Central, que poderia ser definitiva. Desde o fim do mandato do jovem economista Diogo Guillen, em dezembro de 2025, a diretoria passou a ser acumulada pelo experiente economista Paulo Pichetti, que responde estatutariamente pela Direx (a diretoria de assuntos ligados à dívida externa e as relações da economia internacional).
Além de um texto mais direto, sintético e objetivo – a Ata de 18 de março de 2026 é composta de apenas 18 tópicos para explicar a situação da economia internacional e seus reflexos sobre a economia brasileira; enquanto a última reunião em que Guillen elaborou a Ata (10 de dezembro de 2025) tinha 19 tópicos e os recordes recentes foram os 27 tópicos de março de 2025 e de dezembro de 2024. Sob a batuta de Pichetti, houve menos “coponês”, o linguajar do Copom, e mais ‘economês’, mais compreensível em português. O Bradesco sintentiza a objetividade do Copom tanto no Comunicado após a reunião, quanto na divulgação da Ata ao afirmar: "Ata adicionou poucos elementos em relação ao comunicado".
Na análise dos balanços de riscos (baixistas e altistas) da inflação só foi mencionada uma vez a palavra “desancoragem”. O jargão se refere às expectativas futuras dos agentes econômicos para o IPCA no horizonte do Copom – 18 meses adiante, no caso o segundo trimestre de 2027, quando o mercado financeiro. Segundo as expectativas semanais da Pesquisa Focus do Banco Central elas apontavam IPCA de 3,2% no período (quase no centro da meta, que é de 3%, com tolerância de 1,5% para cima ou para baixo).
O Itaú, que faz um balanço sistemático e comparativo das Atas do Copom, tem mostrado sempre a ênfase na “desancoragem” das expectativas (ou seja, quando as projeções futuras da inflação excedem em muito a meta prevista para 18 meses adiante (desde 2021 a meta tem sido de 3,00%). Na Ata de 18 de março só houve uma citação da palavra “desancoragem”.
Nesta quinta-feira, na companhia do presidente Gabriel Galípolo, Paulo Pichetti vai apresentar o Relatório de Política Monetária (antigo Relatório Trimestral de Inflação) e será possível comprovar se a troca do “coponês’ veio para ficar. Ou seja, se Galípolo vai dar sinais de que na indicação de dois novos diretores do BC (estão vagas a Dipec e a diretoria de Organização do Sistema Financeiro Nacional, que era ocupada por Renato Brito Gomes), incluiria a mudança de posição de Pichetti. Durante muitos anos, ele comandou no Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, a elaboração de índices de preços e o acompanhamento do PIB.
Os sinais externos
No mercado futuro de negociação de contratos de “commodities” a referência mudou. A partir de hoje está valendo o contrato para entrega em junho. Embora no mercado à vista tenha havido queda de 12%, para US$ 100, o contrato de entrega em maio, que era referência até ontem, voltou a ser negociado acima de US$ 100, a US$ 102,86, com alta de 2,92% e o contrato de junho sobe 2,91%, negociado a US$ 98,62 por barril.
Os mercados de ações realizaram lucros e operam em ligeira queda hoje, sem referência clara quanto aos objetivos do governo Trump. Ele faz discursos erráticos e usa a diplomacia paralela do genro Jared Kushner, para negociar acordo de cessar fogo com o Irã, com intermediação do vizinho muçulmano Paquistão e acompanhamento dos países árabes produtores de petróleo e gás. Mas o Irã, negando negociações paralelas, segue lançando mísseis contra Israel, para não enfraquecer sua posição em mesa de negociações.
No mercado de câmbio o dólar sob diante das principais moedas (euro, libra, iene, franco suíço) e dos países emergentes (dólar australiano, lira turca e peso mexicano). Contra o real a valorização do dólar era de 0,21% às 12:15 (horário de Brasília), cotado a R$ 5,2440.