Copom cauteloso reduz a Selic a 14,75%
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Os Estados Unidos e Israel mataram mais de uma dúzia de importantes líderes iranianos na campanha militar iniciada no final de fevereiro, incluindo o líder supremo, Aiatolá Ali Khamenei, e o chefe de segurança, Ali Larijani. Mas os preços do petróleo e do gás dispararam mesmo na tarde desta quarta-feira (18), após ataque das forças israelenses às instalações de South Pars, no Irã. Trata-se de um dos maiores campos de gás do mundo, cujo lençol é compartilhado pelo Catar, o que ameaça a escalada da guerra e seus impactos no fornecimento global de energia.
A incerteza em torno do petróleo se juntou à do fornecimento de gás e resultou num aumento ainda mais forte no preço internacional do petróleo do tipo Brent, cujo barril para entrega em maio chegou a US$ 111 nas negociações do começo da noite, depois de fechar a US$ 109, com alta de 6%. Sensível aos desafios e incertezas do mercado internacional, o Comitê de Política Monetária do Banco Central foi cauteloso e baixou por unanimidade a Selic, que estava em 15% ao ano, em apenas 0,25 ponto percentual, para 14,75%, como previa o mercado.
A nota do Copom
“O ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e”commodities”
“Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes seguiram apresentando algum arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação”.
“As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,1% e 3,8%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,3% no cenário de referência”.
“Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, que já se encontravam mais elevados do que o usual, se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente do choque de comércio e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das ‘commodities’ com efeitos desinflacionários”.
“O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. Os indicadores do final de 2025 mostraram desaceleração na atividade econômica, enquanto o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho”.
“O Comitê considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma prospectiva, em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil. Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções foi elevada consideravelmente, em função da falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados”.
“O Comitê julgou apropriado dar início ao ciclo de calibração da política monetária, na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta”.
“O Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14,75% a.a. e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”.
“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”
Os desafios da energia
Dentro deste cenário de incerteza global, o governo do Brasil, um país autossuficiente e exportador líquido de petróleo, mas que ainda depende de 20% a 25% do diesel e do GLP importados, vem lutando há duas semanas com medidas para amortecer os impactos de uma equalização dos preços domésticos dos combustíveis e de fertilizantes nitrogenados aos saltos dos mercados de “commodities”. É que uma alta da inflação atinge os planos de redução dos juros, que estão em níveis reais recordes e levando empresas à RJ e famílias à inadimplência.
Se a obrigatoriedade do reajuste quase imediato do sistema de Paridades de Preços Internacionais (PPI), adotado em setembro de 2016, no governo Temer, que provocou uma montanha russa de altos e baixos (nunca repassados 100%ao consumidor), e motivou a greve dos caminhoneiros em maio-junho de 2018, estivesse em vigor, a apreensão deveria ser grande. Mas, desde maio de 2023, a Petrobras “abrasileirou” os preços dos derivados, levando em conta que usa 70% do petróleo do pré-sal, que extrai a custo inferior a US$ 21 por barril. Por isso, em vez de 163 reajustes para o diesel em 2017, no ano passado houve dois reajustes – para baixo.
Agora, para não estrangular os importadores (enquanto os projetos de expansão da capacidade de produção de diesel nas refinarias da Petrobras não são concluídos, o governo reduziu o PIS/Cofins do diesel e propôs aos secretários de Fazenda dos estados a reduzirem o ICMS, que representa 17% do preço do diesel. Os subsídios envolvidos compensam a eventual economia com a redução dos juros (cada um ponto na Selic custa R$ 63 bilhões ao fim de 12 meses). Antes da guerra, o mercado esperava redução de três pontos.
Lula age bem diferente do governo Bolsonaro. Em junho de 2022, impôs a medida goela abaixo dos estados em 2022, para tentar ganhar a eleição e o rombo fiscal criado estourou no governo Lula. Só em janeiro deste ano foi possível zerar as alíquotas reduzidas. Agora, o governo Lula está discutindo democraticamente a questão. Mas há governadores da oposição que já fazem jogo duro eleitoral para insuflar os caminhoneiros a fazer greve para desgastar o governo Lula, antecipando a campanha eleitoral.
Fed espera para ver
Em reunião do comitê de mercado aberto (FOMC) encerrada três horas antes da decisão do Copom, o banco central dos EUA (Fed) manteve, pela segunda vez seguida, a sua taxa básica de juros no intervalo de 3,5% a 3,75% ao ano, em linha com a expectativa dos mercados globais. Desta vez, apenas Stephen Miran, diretor indicado por Trump em setembro, votou pela redução da taxa básica de juros em 25 pontos-base. O mandato de Jerome Powell acaba em 15 de maio, com uma nova reunião em 29 de abril.
O comunicado da decisão trouxe poucas mudanças de redação. A principal foi a inclusão de uma frase para indicar que as "implicações dos desenvolvimentos no Oriente Médio para a economia dos EUA são incertas". Ao analisar o resultado da reunião, que mostra cautela das autoridades monetárias em todo o mundo a consultoria 4intelligence antevê dois cortes de 25 pontos-base no juro do Fed no cenário base para este ano, nas reuniões de 17 de junho e 16 de setembro.
A consultoria considera “bastante provável que o juro do FED venha a ficar estacionado por mais tempo do que ora contemplamos. A desobstrução dos canais de escoamento do petróleo no Oriente Médio é essencial para limitar riscos inflacionários e permitir que o banco central dos EUA complete a normalização de sua política monetária”.