Como jornais e mercado reagem ao ‘show’ de Trump
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Os principais jornais do mundo (os americanos “The New York Times”, o “Wall Street Journal”, o maior jornal econômico dos Estados Unidos, e o britânico “Financial Times”, reagiram com críticas ao “show” do presidente Donald Trump em seu discurso no Congresso sobre o Estado da União, na noite de terça-feira. Mas os mercados financeiros reagiram de forma diversa: enquanto o S&P 500 subia 0,65% às 11:45 (horário de Brasília), o dólar apresentava altos e baixos.
A moeda caiu ante o euro, que subia 0,08%, frente a libra (+13%, frente ao dólar australiano (+0,48%) e perdia 0,20% frente ao yuane chinês e -0,09% em relação ao franco suíço. Mas avançava 0,45% frente ao iene, 0,10% frente ao peso mexicano e, às 11:50, depois de muitas oscilações, era negociado a R$ 5,1550, com ligeira alta de 0,03% contra o real. Mas o contrato de ouro para entrega em abril subia 0,66% na Bolsa de Mercadorias de Nova York (Nymex), cotado a US$ 5.207,30.
Fugindo à encenação que Trump fez ao eleitorado, visando as eleições que renovarão as 435 cadeiras da Câmara e 35 dos 100 assentos do Senado, em 6 de novembro, o austero “FT”, preferiu abordar a cena internacional, com a manchete: “Donald Trump condena as ambições nucleares "sinistras" do Irã em seu discurso sobre o Estado da União”.
Crítico, “WSJ” chamou a atenção para o cenário cor de rosa [ou de laranja, digo eu] que pintou no púlpito para a realidade da população: “Trump elogia uma recuperação econômica que muitos eleitores não veem”. O “Journal” acrescenta que, “em seu discurso sobre o Estado da União, o presidente disse que havia inaugurado uma nova era de prosperidade. Mas ele não disse uma coisa: “Eu entendo a sua dor”.
No cerne do discurso de Trump sobre o Estado da União estava o cálculo de que ele poderia persuadir os americanos de que a economia está em melhor situação do que muitos pensam. Ao alardear uma "reviravolta histórica", o presidente optou por não transmitir aos eleitores a mensagem de que compreende a ansiedade que as pesquisas mostram ser amplamente sentida, inclusive entre os eleitores indecisos de que o Partido Republicano precisa para manter suas maiorias no Congresso nas eleições de meio de mandato deste outono”.
Já o “NYT” foi mais incisivo e disse em manchete que “Trump faz um espetáculo, apresentando os democratas como os vilões”., acrescentando: “Na defensiva sobre a economia e com as eleições de meio de mandato se aproximando, o presidente Trump deixou claro que sua estratégia política é pintar os democratas como antipatrióticos e 'loucos'.
“Era espetáculo como estratégia de sobrevivência” resumiu o NYT.
No corpo da matéria o maior jornal dos EUA< disse que “em seu discurso sobre o Estado da União, o presidente Trump não se deu ao trabalho de apresentar uma série de novas políticas — algo incomum em um ano de eleição de meio de mandato, com o controle do Congresso em jogo. Ele não parecia preocupado em mostrar que entende quando se trata da questão que mais preocupa os americanos. "A acessibilidade", disse ele, fazia parte de uma "mentira suja e podre" perpetuada pelos democratas”.
Em vez disso, prossegue o NYT, “com o estilo cortante de um ativista nato e os instintos de um ex-produtor de “reality show”, ele passou boa parte de duas horas provocando as fileiras de democratas indignados na Câmara e tentando defini-los ao eleitorado como "doentes", antipatrióticos e totalmente fora de sintonia com os valores da maioria dos americanos”.
"Essas pessoas são loucas, estou dizendo, são loucas", disse Trump em certo momento, ao contar a história de uma jovem que foi forçada a passar por uma transição de gênero.
Ao entrar no discurso, Trump sabia que precisava usá-lo para sair de um momento politicamente traiçoeiro para si e seu partido. A maioria dos americanos se opõe à forma como Trump está perseguindo sua agenda anti-imigração, e mais de 70% deles acham que suas prioridades estão no lugar errado. Sua aprovação despencou para 41%.
Sua solução foi se envolver na imagem do heroísmo americano com comentários encenados ao longo do discurso, enquanto jogava a culpa de todos os problemas, desde a segurança das eleições até o estado da economia, de volta em seus oponentes.
Em vários casos, os democratas deram a Trump os confrontos que ele buscava.
O deputado Al Green, do Texas, que foi expulso da Câmara no ano passado por balançar sua bengala para o Sr. Trump, foi novamente removido depois de levantar uma placa proclamando "PESSOAS NEGRAS NÃO SÃO MACACOS" — uma referência a um vídeo racista que o Sr. Trump compartilhou recentemente nas redes sociais.
A deputada Lauren Underwood, de Illinois, levantou-se e saiu em paz em vez de "tomar mais um minuto" do discurso. E a deputada Ilhan Omar, de Minnesota, alvo frequente de Trump, foi uma das poucas que gritaram com ele.
"Você matou americanos!" ela gritou enquanto o Sr. Trump falava sobre a fiscalização da imigração.
"Você deveria se envergonhar", retrucou o presidente.
Mas se o Sr. Trump traçou os contrastes que queria criar dentro da Câmara, não estava claro quanto efeito sua atuação teria fora dela, onde as realidades políticas para ele e seu partido não são reconfortantes.
O assassinato de cidadãos americanos por agentes de imigração e cenas de crianças sendo detidas minaram a aprovação pública para sua campanha de deportação, apesar de seu sucesso em fechar em grande parte a fronteira para imigração ilegal. Sua base continua fixada nos arquivos de Jeffrey Epstein e se a administração tem sido totalmente transparente ao tornar público tudo o que se sabe sobre aqueles que conviveram com ele, incluindo o Sr. Trump. Na semana passada, a Suprema Corte derrubou o método preferido de Trump para implementar tarifas, uma pedra angular de sua agenda econômica e de política externa.
Se Trump se sentiu na defensiva em relação a tudo isso, soou como desafiador. Na noite de terça-feira, ele olhou para uma fileira de juízes da Suprema Corte com expressão impassível e disse a eles que seus planos tarifários continuariam sob o "poder legal que eu, como presidente, tenho para fazer um novo acordo."
Os democratas, percebendo divisões entre os republicanos sobre como Trump está perseguindo sua agenda e vendo as pesquisas se moverem a seu favor, permanecem confiantes quanto às eleições de meio de mandato. Em um discurso de resposta para os democratas, a governadora Abigail Spanberger, da Virgínia, disse que o Sr. Trump havia evitado em grande parte as preocupações dos americanos comuns.
"Ele mentiu, virou bode expiatório e distraiu", disse a Sra. Spanberger. Ela encerrou seu discurso apelando para que os democratas que concorrem às eleições de meio de mandato deste outono foquem na economia.
Durante o discurso, o Sr. Trump tentou mudar o foco para seus temas preferidos. Ele ofereceu pouca explicação sobre por que ameaça lançar mais ataques militares contra o Irã, dizendo que preferiria acabar com o programa nuclear do país por meio da diplomacia, mas que "nunca" permitiria que Teerã tivesse uma arma nuclear — "Não podemos deixar isso acontecer."
Sempre voltando aos democratas, ele os chamou de trapaceiros e mentirosos, atacando-os por sua oposição a uma legislação que supostamente combate suas alegações infundadas de fraude eleitoral generalizada.
Ele afirmou que nomeou o vice-presidente JD Vance para combater a "corrupção que destrói o tecido de uma nação" ao combater fraudes generalizadas, citando vários estados controlados pelos democratas, incluindo Minnesota e Califórnia. O Sr. Trump, que também foi condenado por fraude, sugeriu então que o vice-presidente poderia ser capaz de compensar o déficit orçamentário.
“Ele vai conseguir", disse o Sr. Trump. "E conseguimos encontrar fraudes suficientes — teremos um orçamento equilibrado da noite para o dia.”
O Sr. Trump iniciou seu discurso dissonante com bastante diligência, saudando uma "era de ouro da América", onde o mercado de ações está em recordes, contas de aposentadoria estão transbordando e novos investimentos entram no país aos trilhões — "Todo mundo está no alto, muito alto", disse o Sr. Trump. Ele destacou o influxo de "80 milhões de barris" de petróleo vindos de "nosso novo amigo e parceiro, a Venezuela", sem antes mencionar a audaciosa captura do líder do país (Nicolás Maduro) pelos militares dos EUA.
