IPCA e ‘bonds’ indicam a queda de juros

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O IPCA de 0,33% em janeiro, repetindo dezembro, ficou dentro das previsões do mercado (entre 0,32% e 0,34%) e, apesar de elevar a taxa em 12 meses de 4,26% para 4,44% não surpreendeu, porque a taxa de janeiro de 2025 foi de apenas 0,16%. O Bradesco observa que, “tirando o impacto do bônus de Itaipu sobre a tarifa de energia elétrica, a alta seria de 3,8%, importante desaceleração com relação a dezembro (4,3%)”.

Para o Bradesco “o destaque do mês foi a desaceleração na alimentação no domicílio, para 0,10%. A alta interanual passou de 1,5% para 0,4%. A desaceleração de carnes e cereais tem auxiliado a queda da inflação e compensado a ligeira alta em “in natura” na métrica acumulada em 12 meses. Essa desaceleração foi impulsionada principalmente pelo câmbio, pois o preço das proteínas em dólares segue elevado”, observa o banco.

A alta de Serviços foi de 0,1%, acumulando 5,3% em 12 meses. “O qualitativo desse grupo veio em linha com a nossa projeção e cenário de desaceleração gradual da economia. Os Serviços Subjacentes registraram praticamente a mesma variação do mês anterior, 0,57%. No próximo mês, esperamos uma desaceleração nesse componente por conta das promoções da Semana do Cinema, que será devolvida no mês seguinte. Em 12 meses, os Subjacentes acumulam 5,6% - cedendo em relação ao pico de 6,8% em junho de 2025”.

Já os bens industriais aumentaram 0,61% no mês. Esse grupo surpreendeu por conta da alta de automóveis. No entanto, as pressões baixistas continuam para o restante do ano: câmbio apreciado e importação de bens chineses exercendo pressão de baixa. No acumulado em 12 meses, a alta foi de 2,6%. A alta de 0,5% dos bens administrados se deu pelo aumento da gasolina (2,1%). Neste ano, o reajuste do ICMS contribuiu para essa pressão no IPCA do mês. Para fevereiro, o Bradesco prevê uma desaceleração do item, com reajuste baixista anunciado nas últimas semanas.

“A média dos núcleos teve alta de 0,44%, acumulando 4,5% em 12 meses. A variação trimestral anualizada ficou estável em 3,9%. Todos os núcleos acompanhados de perto pelo Banco Central estão em desaceleração em 12 meses, com destaque para o de Médias Aparadas com Suavização, que mostra desaceleração tanto na variação anual (4,3%), quanto na média de 3 meses, de 4,44%” destaca o banco.

O Bradesco ressalta que “o efeito da política monetária se faz presente na inflação, indicado principalmente pela desaceleração dos núcleos e nos Serviços Subjacentes. Ao longo de 2026, esperamos que a inflação atinja um nível mínimo de 3,4%, chegando a 3,5% em março. Esse timing será importante para a condução do ciclo de corte de juros pelo Banco Central”. O Bradesco prevê IPCA de 3,8% e Selic de 12% no ano.

O mês de fevereiro prevê forte alta sazonal no IPCA causado pelo impacto das mensalidades escolares. Entretanto, indicadores importantes da alimentação em domicílio, que subiu 0,10% em janeiro (contra 0,14% em dezembro), podem ajudar a segurar os demais preços. Um destes itens é a carne, que subiu 0,84% no mês. Mas, estudo do Bradesco, que leva em conta as atuais cotas impostas pela China (o maior importador do Brasil) e a possível redução das tarifas pelos Estados Unidos (o 2º comprador), não vislumbra uma disparada dos preços, o que manteria o IPCA do ano em 3,8%.

O impacto dos 'bonds'

O comportamento regular da inflação e o sucesso no lançamento pelo Tesouro Nacional de “bonds” globais, com vencimento em 2026 e 2056, que captaram R$ 4,5 bilhões dão folga ao governo para gerenciar dívida e segurança ao Banco Central para calibrar a curva de juros (de quebra, o mercado global mostrou confiança na gestão econômica-fiscal do governo Lula).

O Tesouro Nacional captou US$ 4,5 bilhões via emissão de “Global Bonds”. Os vencimentos da primeira emissão em 2026 ocorrerão em 2036 e 2056. No caso mais longo, houve reabertura de uma emissão realizada em setembro de 2025. Os volumes colocados foram de US$ 3,5 bilhões no título de 10 anos e US$ 1 bilhão no bônus de 30 anos. O papel de 10 anos pagou um prêmio de 219 pontos-base em relação aos “Treasuries” americanos, acima dos 210 pontos registrados em setembro numa emissão de US$ 750 milhões. Já o bônus mais longo saiu com um prêmio de 245 pontos, inferior aos 253 pontos observados na operação original. No momento o diferencial entre a Selic (15%) e o piso dos juros nos EUA (3,75%) é de 11,25%, o triplo do diferencial dos “bonds”.

Os recursos levantados destinam-se ao Tesouro Nacional para quitação de seus compromissos externos. Em 2026, o total de amortizações do Governo Geral alcança US$ 5,3 bilhões. A estratégia evidencia a busca por alongamento da dívida e diversificação das fontes de financiamento. Nos primeiros 40 dias do ano, o governo e empresas brasileiras já captaram US$ 9,3 bilhões.

O efeito combinado dos dois indicadores deveria ser uma nova baixa do dólar, como ontem. Mas ocorreu o contrário nos mercados globais (o dólar está em jornada de recuperação, à espera dos dados econômicos favoráveis dos Estados Unidos, a partir de amanhã): após abrir cotada a R$ 5,5930, e descer à mínima de R$ 5,1830, a moeda americana subiu a R$ 5,2110 e estava sendo negociada a R$ 5,2070 às 12:27 (horário de Brasília), com alta de 0,27%.

Redução da jornada em debate

O presidente da Câmara, Hugo Motta submeteu à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) o exame da proposta de emenda constituição da deputada do PSOL-SP, Erika Hilton, que trata do fim da jornada 6x1, à qual será apensada outra PEC, proposta pelo deputado petista Reginaldo Lopes.

Segundo o presidente da Câmara, "chegou o tempo de trazer um novo marco do trabalho para o Brasil, com a inspiração da conquista passada" em um momento no qual o mundo segue mudando com as novas tecnologias, a automação do trabalho e a inteligência artificial. A inclusão da PEC do fim da jornada 6x1 na pauta da Câmara no primeiro semestre não é uma novidade. Já havia sinais de que o assunto avançaria no Congresso neste ano. Mas o modo como Motta encaminhou o assunto nas redes sociais chama a atenção.

É, em primeiro lugar, a confirmação mais clara e concreta até o momento do realinhamento de Motta com o governo e com o presidente Lula. O tom trabalhista da fala, os argumentos a favor do novo marco e o destaque dado aos autores da PEC, ambos parlamentares de esquerda da base governista, mostram convergência entre Motta e o Planalto. É também uma indicação de que há boa chance de a proposta ser aprovada na Câmara e, talvez, no Senado, antes das eleições.

A rigor, fora os trabalhadores do campo, do comércio e da construção civil, a maioria dos trabalhadores brasileiros, desde a adoção do “home office” na pandemia, já não cumpre a jornada de seis dias de trabalho por um de folga. As jornadas de trabalho nos EUA e na Europa já são mais curtas e flexíveis. É para isso que o mundo caminha. O Brasil não pode repetir na jornada de trabalho o vexame de ter sido o último país ocidental a abolir a escravidão.