Itaú vê corte de 0,25% na Selic só em março

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Agência do banco Itaú

Enquanto o Bradesco (de onde saiu, em dezembro de 2024, como diretor Tesoureiro, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton Davi), ainda esperava, em análise de 16 de janeiro, um primeiro corte de 0,25% na taxa Selic, hoje em 15,0% ao ano, a reunião do Copom de 28 de janeiro, o Itaú, que divulgou ontem o cenário de janeiro, espera “adiamento do início do ciclo de corte de juros para março (corte -25p.b.; antes projetado para janeiro). A maioria do mercado, na pesquisa Focus também espera corte de 0,25% em março; a minoria, até 0,50%.

Para o Itaú, a taxa Selic deve cair a 12,75% a.a. em 2026 e 11,75% a.a. em 2027 diminuindo o grau de restrição, ainda que se mantendo em patamar contracionista. Já o Bradesco previa 12% em 2026 e 9,50% em 2027.

O Itaú está projetando o IPCA em 4,0% este ano e para 2027 e considera que o cenário externo benigno vai se contrapor à incerteza doméstica do ano eleitoral. O banco espera “desaceleração nos preços de bens e serviços, enquanto a alimentação em domicílio deve ter alta (no ciclo de proteínas). A menor variação acumulada em 12 meses deve ocorrer em julho (2,9%).

“O balanço de risco é baixista para alimentos (aumentos da disponibilidade interna de carne via menor exportação) e para bens (nível de estoques elevados), por outro lado enxergamos risco altista em serviços (em especial seguro de automóvel)”. Os preços administrados (energia elétrica e gasolina vão ajudar na desinflação, compensando a alta dos alimentos).

Para 2027, o Itaú também projeta IPCA em 4,0% porque o mercado de trabalho ainda estaria resiliente mantendo serviços pressionados.

Contas externas melhoram

O dólar global mais fraco (com postura mais tolerante do Fed em relação a inflação) ajuda a apreciação de moedas emergentes. O diferencial de juros (Brasil X EUA), mesmo se estreitando, continua sendo um fator de proteção e mantém a valorização do real elevada em relação aos pares.

Mas, com o cenário eleitoral ainda indefinido, prêmio de risco deve ficar pressionado ao longo do ano (principalmente no segundo trimestre, quando haveria depreciação do real). O banco projeta taxa de câmbio em R$ 5,50 por dólar em 2026 e R$ 5,70 por dólar em 2027.

No ano passado, com a retração do comércio global com os tarifaços dos Estados Unidos, houve piora nas contas externas, com o déficit em conta corrente maior do que investimento estrangeiro direto (IED) limitando a apreciação do real. Para 2026, o Itaú não projeta ”piora adicional”, mas frisa que a “melhora será gradual”: (i) moderação da atividade; mas (ii) deterioração estrutural da conta corrente (itens com pouca correlação com ciclo econômico e BRL) tornam mais lenta a trajetória de melhora.

Com o novo cenário, o Itaú elevou a projeção da balança comercial a US$ 74 bilhões em 2026 (de US$ 65 bi) e US$ 75 bilhões em 2027 (de US$ 70 bi). Assim, a projeção de déficit em conta corrente foi reduzida para US$ 70 bilhões em 2026 (de US$ 77 bi) e US$ 68 bilhões em 2027 (de US$ 71 bi), equivalente a 2,9% e 2,7% do PIB, respectivamente, ainda acima da média histórica.

PIB 2026 em 1,9%

“Revisamos a projeção de crescimento do PIB para 1,9% (de 1,7%) incorporando a revisão altista de atividade global. Além do ambiente global, contribuem para o crescimento no ano os impulsos fiscal e parafiscal, que devem aumentar para 1,1 p.p. (de 0,4p.p em 2025): 0,3 p.p. do BNDES, 0,3 p.p. de isenção do IR, 0,1 p.p. de E&M e 0,4 p.p. de gasto federal. O banco diz que o “viés segue altista, diante da possibilidade de novas medidas de estímulo em ano eleitoral”.

Eleições geram desafio fiscal

O Itaú sempre se apresenta como uma das instituições mais pessimistas quando ao desempenho fiscal do governo. Em abril do ano passado chegou a prever déficit primário (receitas menos despesas, sem considerar os juros da dívida pública) de 0,8% do PIB. Deu 0,53%, ou 0,33% com descontos.

Para 2026 o Itaú “espera resultado primário de -0,8% do PIB (...) e desafio de 0,3% do PIB para cumprimento do limite inferior efetivo da meta. Apesar do impulso fiscal esperado (considerando a isenção de IR) se aproximar do histórico de anos eleitorais [em 2022 Bolsonaro escancarou os cofres criando benefícios e reduções de impostos para tentar garantir a reeleição], o principal risco continua sendo a execução de despesas acima do limite do arcabouço (explicitamente, através de exceções ou flexibilizações às regras vigentes).

“O governo eleito irá sinalizar ajuste fiscal no próximo mandato?”, pergunta o Itaú, que responde: “Apesar da necessidade de realizar um ajuste fiscal relevante para estabilizar a dívida pública (cerca de 4p.p. do PIB), os preços de ativos são consistentes com probabilidade próxima de 50% do ajuste ser feito”.

Apesar do pessimismo (em abril, o Itaú chegou a prever que a dívida pública líquida chegaria a 67% do PIB em 2025 (fechou em 65,4% e um dos motivos era a aposta de uma inflação maior no ano passado (5,7% em março e 5,5% em abril, o que exigiria uma Selic terminal maior – de 15,25% [ficou em 15%] e travaria o PIB em 2,2% [o banco revisou para 2,3%], o Itaú que trabalha com a hipótese de um PIB de +1,9% este ano e a Selic fechando dezembro em 12,75%. Assim, espera que a dívida pública líquida alcance 71% do PIB. Se a inflação ajudar e o juro for menor e o PIB maior, o indicador fica mais suave.