Tesouro cobrirá déficit de R$ 150 bi do BC ocorrido em 2025
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O Banco Central, que tanto lutou pela autonomia financeira na gestão de Roberto Campos Neto, mas vivia tendo seus prejuízos cobertos pelo Tesouro Nacional, prepara nova má surpresa para as contas fiscais em janeiro. De janeiro a novembro de 2025, as contas do BC apresentaram déficit de R$ 156,411 bilhões. Mesmo com reservas do lucro de R$ 270,942 bilhões de 2024, com as perdas de R$ 114,152 bilhões de 2023, no último ano da gestão Campos Neto, haverá consumo das reservas de lucro e ajuda do Tesouro.
Os dados de dezembro de 2025 devem ser examinados pelo Conselho Monetário Nacional, dia 22 de janeiro. O ano de 2025 já começou mal em janeiro. O BC perdeu no mês R$ 10,232 bilhões em juros e R$ 60,569 bilhões em operações de “swap”, porque o BC foi surpreendido pela queda do dólar além do que previa, devido ao impacto dos tarifaços anunciados por Donald Trump na posse, em 20 de janeiro.
Com perdas adicionais de R$ 2,864 bilhões nas reservas em moeda estrangeira, o Banco Central começou a aumentar as posições em ouro, com ganhos de R$ 944 milhões em janeiro do ano passado. No primeiro semestre, o Banco Central teve perdas de R$ 117,952 bilhões, assim discriminadas: juros (-R$ 67,752 bilhões); operações com derivativos, envolvendo “swaps” cambiais negativas em R$ 51,638 bilhões. A desvalorização das reservas cambiais gerou perdas de R$ 6,789 bilhões, mas as transações com ouro deram ganho de R$ 7,465 bilhões. E a diversificação das reservas prosseguiu no 2º semestre.
Até novembro, as operações com ouro acumularam ganho de R$ 28,210 bilhões, compensando as perdas de R$ 6,609 bilhões das reservas cambiais em moedas. As operações com derivativos (“swap”) geraram perdas de R$ 34,525 bilhões. E o BC ainda teve perdas de R$ 144,169 bilhões em juros, produzindo um resultado negativo, em 11 meses, de R$ 156,411 bilhões.
A diferença de Lula X Bolsonaro na eleição
Em 2022, Jair Bolsonaro, com a ajuda da tesoura do ministro da Economia, Paulo Guedes, fez o diabo para conquistar o apoio popular na eleição de outubro daquele ano. Acabou dobrando para R$ 600, em junho, o valor do Abono Emergencial, e aceitou homens e mulheres solteiros no cadastro, estourando os gastos do programa. No modo “tudo pela eleição”, deu mesadas de R$ 1 mil para caminhoneiros autônomos e taxistas, de julho a dezembro.
Mas a inflação rodava acima de 12% ao ano e estourava as metas. Se o Banco Central continuasse a elevar a taxa Selic, esfriaria a economia e reduziria as chances da reeleição. Assim, Guedes, após tirar o imposto de importação dos “jet sky”, brinquedo de luxo dos ricos, cortou impostos federais e estaduais (ICMS) dos combustíveis, energia elétrica e comunicações. Não adiantou: a inflação foi de 5,79% acima do teto de 5,00%, e Bolsonaro perdeu a reeleição.
O estrago nas finanças públicas foi grande e dura até hoje. O governo Lula já pagou mais de R$ 150 bilhões em precatórios caloteados por Bolsonaro desde 2021 e recompôs programas sociais esvaziados por Bolsonaro. Agora em janeiro, as finanças dos estados terão a última recomposição de ICMS nos combustíveis, quando o litro da gasolina, consumida pela classe média, voltará a custar (como ocorreu nos últimos 50 anos) acima do diesel.
Agora veja o que o presidente Lula acaba de fazer (em janeiro), a nove meses da eleição. Ao aprovar o Orçamento Geral da União de 2026, com despesas previstas de R$ 6,54 trilhões. o presidente vetou R$ 400 milhões em emendas parlamentares, que funcionam como os antigos “santinhos eleitorais” dos tempos dos “coronéis” e estavam sendo alocadas fora do prazo e das normais legais. Ainda assim, os deputados e senadores poderão pilotar R$ 50 bilhões em verbas para serem empenhadas até julho.
Mas a proposta original era de R$ 61 bilhões. O governo vai contingenciar R$ 11 bilhões para cumprir as regras do orçamento fiscal. A rigor, além do Bolsa Família e do Programa Pé de Meia para estimular o estudante a manter o curso, as prioridades são o Vale Gás e o Minha Casa. Minha Vida, que não escapou aos cortes.
Programas de irrigação do Nordeste (complemento da transposição das águas do São Francisco) serão adiados. Assim como obras nos estados de Amapá, Tocantins, Ceará, Paraíba, Bahia, São Paulo, Goiás, Distrito Federal, Rondônia e Pernambuco. Na eleição de 2022, os votos favoráveis da Bahia, Ceará, Pernambuco e Paraíba, compensaram as perdas nos estados do Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná). Cortes em Goiás e São Paulo, hoje sob comando de governadores da oposição, podem ser explorados contra Lula. A responsabilidade fiscal fala mais alto.