O Brasil e a guerra comercial de Trump

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Os Estados Unidos tiveram um déficit comercial recorde de US$ 1.202,9 bilhões no ano passado, com importações de US$ 3.267,4 bilhões (+US$ 187,2 bilhões sobre 2023) e exportações de apenas US$ 2,064,5 bilhões (+US$ 46,4 bilhões). E não foi à toa que Trump escolheu o México, o Canadá e a China como os principais alvos das barreiras tarifárias (25% para México e Canadá, parceiros do Nafta, e 10% para a China. Desde a imposição de tarifas no 1º governo Trump (mantida por Biden), a China foi perdendo posição como fornecedor dos EUA. A posição foi assumida pelo México, que respondeu por 15,48% das importações americanas no ano passado, contra 13,43% da China e 12,63% do Canadá. Os três juntos respondem por 41,5% das compras americanas.

Mas, México e Canadá compram mais do que exportam aos EUA, motivo pelo qual Trump suspendeu por um mês o tarifaço. Enquanto o Canadá fornece principalmente insumos energéticos (carvão e petróleo somaram US$ 124,9 bilhões), motivo pelo qual ficarão com tributação de apenas 10% e as restrições atingirão veículos e peças (US$ 50,4 bilhões) e equipamentos elétricos (US$ 11,2 bilhões), no México, os alvos diretos serão os veículos e peças (US$ 136,6 bilhões) e equipamentos elétricos (US$ 87,1 bilhões).

Já na China, responsável por déficit de US$ 295,4 bilhões, os alvos principais são os equipamentos elétricos (US$ 124 bilhões), que inclui painéis solares e baterias elétricas. Os veículos elétricos “made in China” que tanto ameaçam Elon Musk em seus planos de trazer de volta a Tesla para os EUA (Texas), venderam apenas US$ 16,9 bilhões no país no ano passado, contra US$ 82 bilhões de máquinas e equipamentos em geral. Os três grupos responderam por mais de 75% do déficit e são o alvo das tarifas.

Excluída a União Europeia, cujo maior fator de déficit é o comércio com a Irlanda (-US$ 86,7 bilhões), seguido da Alemanha (-US$ 84,8 bilhões) – os dois somam US$ 171,5 bilhões, praticamente o tamanho do rombo com o bloco europeu está concentrado 72,8% na dupla. Sorte dos Países Baixos que oferecerem o maior saldo aos Estados Unidos (US$ 55,5 bilhões), seguido de Honk Kong (US$ 21,9 bilhões. Reino Unido e Bélgica também geram saldo por Tio Sam, assim como o Brasil (US$ 7,3 bilhões), segundo o levantamento do Financial Times, que é diferente dos dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

No sudeste asiático, quem podem entrar na alça de mira de Trump é um antigo inimigo dos Estados Unidos, o Vietnã, que carreou déficit comercial de US$ 123,4 bilhões no ano passado, o 4º maior no comércio bilateral. Café (o país é o maior produtor da variedade robusta/conilon, muito usado na indústria de café solúvel e cafés de cápsula) e roupas são itens importantes no déficit.



Produtos brasileiros ameaçados

Com a diversificação da pauta de exportação brasileira, que tem a China como destino de 28% a 30% das vendas, concentradas em comodities (soja, carnes, açúcar, café, e minérios e petróleo), e 20% para a União Europeia, de forma bem variada, o Brasil reduziu a participação americana nas suas exportações a apenas 12%. Mas as retaliações dos EUA ao México (destino de 2,3% das vendas brasileiras) e ao Canadá (1,9%), podem ter impacto indireto. Sobretudo na pauta de produtos industrializados. Em especial a produtos de aço e alumínio que já foram taxados no primeiro governo Trump. Mas não se pode esquecer ameaças aos aviões da Embraer, que tem a maior clientela nos EUA.

No caso do aço, os EUA respondem por 54,3% das compras do aço brasileiro. A Gerdau, por exemplo, criou filial nos EUA há mais de duas décadas para facilitar a conquista da clientela. E o México absorve 4,6% das vendas de aço e o Canadá, 3,7%. Juntos, os três mercados levam 62,6% das vendas de aço “made in Brazil”.

Outros produtos sob ameaça são suco de laranja, carne bovina (se bem que os frigoríficos brasileiros estão entranhados no agronegócio americano) e celulose.

A diplomacia do cinema

No comércio exterior, falta um pouco de criatividade para se contrapor ao açodamento tarifário-protecionista americano. No governo Geisel, com o salto do petróleo, em 1973, o governo Ford passou a taxar de tesourinhas a mel exportado pelo Brasil, que tinha bem mais fragilidade do que os EUA na balança comercial.

Mas, como fazer “Tio Sam” recuar? Simples: contra-atacando em áreas sensíveis. Como a redução da cota de exibição dos filmes americanos no Brasil.

Em duas semanas, Harry Stone, que era uma espécie de “embaixador ad-hoc de Hollywood” no Brasil, radicado no Rio de Janeiro, sacudiu os lobbies do cinema americano no Congresso e a tarifas caíram.

Não faltam motivos e alvos agora para o Brasil retaliar se vierem barreiras pesadas e injustas.

E o dólar volta a cair

Às 12:30, o dólar voltava a ser negociado em nova queda no Brasil a R$ 5,7845, uma baixa de 0,22%. Se a semana fechar abaixo de R$ 5,80 é mais uma batalha ganha pelo Banco Central de Gabriel Galípolo.

O dólar chegou a pico de R$ 6,3144 em 17 de dezembro. Desde então, caiu 8,38%. É muita coisa em pouco menos de 50 dias que ainda não foi transferida ao consumidor na baixa dos preços.

Mas Galípolo está ganhando a “reversão das expectativas”, que devia ser um ponto de honra de Roberto Campos Neto, em memória do avô ilustre. Mas RCN alimentava as expectativas contrárias.