
O OUTRO LADO DA MOEDA
BC não pode repetir grandes erros do mercado
Publicado em 11/12/2024 às 13:14
Alterado em 11/12/2024 às 13:14
A alta do Índice de Preços ao Consumidor nos Estados Unidos, que subiu para 0,3%, em novembro, após quatro meses seguidos em 0,2%, fazendo a taxa anual se elevar ligeiramente de 2,6% para 2,7% (a meta é de 2%), deixou o mercado financeiro nervoso em todo o mundo, com a perspectiva de que o Federal Reserve ganhando novo argumento (além de esperar pelos impactos tarifários de Trump na inflação) para não baixar os juros na reunião da próxima quarta-feira, 18 de dezembro.
O dólar valorizou em todo o mundo. O euro cai 0,19% hoje frente ao dólar, que sobe 0,21% frente ao iene e 0,41% diante do peso mexicano. No dia em que o Comitê de Política Monetária do Banco Central, decide, na última reunião presidida por Roberto Campos Neto, sobre o aumento de juros, a possível meia-trava americana reforçou as apostas de uma alta de 1% na Selic para 12,25%. Isso amplia o diferencial entre as aplicações financeiras no Brasil e explica o terceiro dia de ligeira queda do dólar ante o real (0,03%) cotado a R$ 6,0434, às 12:30. Mas as cotações voltaram a subir desde então, numa manobra dos gestores de carteira para pressionar o Copom a subir a Selic 1%.
Sinais contraditórios, com serviços em alta
Em mais um sinal de economia aquecida, a Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE mostrou crescimento de 1,1% no volume de vendas em outubro sobre setembro. O bom desempenho foi puxado pela alta de 4,1% no volume de Transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio, e pelo avanço de 1,6% em Serviços profissionais, administrativos e complementares. A movimentação de preparo das safras agrícolas e de mercadorias para a “Black Friday” aqueceu as atividades de transportes.
Mas a escalada da inflação dos alimentos esfriou a demanda dos Serviços prestados às famílias' (-0,1%). O Itaú considera que, com os dados de hoje [a PMS representa apenas uma parte dos serviços – faltam dados do comércio, atividades financeiras e de seguros e imobiliárias], “o carrego estatístico para o 4º trimestre do ano ficou em 1,7% (índice cheio) e 0,3% (serviços prestados às famílias)”. Isso pode ser lido pelo Copom como sintoma da atividade fortemente aquecida, embora comércio e indústria venham caindo, sentindo os juros altos.
Mercado e Copom erram muito
O mercado nem sempre deve ser levado em conta pelo Banco Central. Seus erros são descomunais, como mostram as medianas das previsões macroeconômicas para 2024 e 2025 na última Pesquisa Focus do BC em 26 de dezembro de 2023. Os dois maiores bancos privados do país erram também como o Banco Central, que é independente, mas não infalível como se julga.
Por sinal, guiado exclusivamente pelo mercado – já que o Federal Reserve só decide as taxas de juros dia 18, com propensão à cautela, para esperar as medidas de Trump a partir de 20 de janeiro – o Comitê de Política Monetária do Banco Central corre o risco de errar a mão hoje.
Vejam os desvios entre as projeções do mercado (Focus), Itaú, Bradesco e do próprio Banco Central por meio do Relatório Trimestral de Inflação (RTI), que previu, em 21 de dezembro de 2023, que o PIB deste ano cresceria só 1,7% (no relatório de setembro a previsão era de 1,8%). Vai ser o dobro. Os números da inflação serão quase um ponto maiores. O dólar deve subir R$ 1,00 e a Selic, talvez, 3,25 pontos percentuais. Para 2025, a Selic prevista em dezembro de 2023 era de 8,50%; agora, de 13,75%, um desvio de 38,18%. Enfim, erros sem conta que custam caro aos empresários e famílias endividadas.
OLM