
O OUTRO LADO DA MOEDA
Focus: IPCA fura teto em 24 e 25; Itaú: Selic já sobe a 12,25%
Publicado em 09/12/2024 às 14:40
Na pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central, às vésperas das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), as previsões do mercado são as piores possíveis: O IPCA estoura o teto de 4,50% em 2024 (4,84%/4,85% nas respostas dos últimos cinco dias úteis); em 2025 (4,59%/4,73% em 5 dias) e sobe a 3,81%/4,005 em 2026. Uma das causas é a escalada do dólar (R$ 5,95/R$ 6,00 em 2024; R$ 5,77/R$ 5,82 em 2025 (pelo efeito Trump). E a consequência é que a Selic sobre quarta-feira para 12,00%; fecha 2025 em 13,50%/13,75%) e sobe em 2026 de 10,50% para 11,00%.
A escalada do dólar deve levar, na previsão do mercado, o Copom a promover nova alta de 0,75% pontos na taxa Selic em 29 de janeiro, para 12,75%. A escalada deve continuar no primeiro semestre, para tentar neutralizar o impacto inflacionário global provocado pela escalada protecionista do aumento dos impostos de importação pelo governo Trump, acompanhada de valorização do dólar. As projeções para o limite de 2025 subiram da mediana de 12,63% na semana passada para 13,50% (nível antecipado pela mediana dos últimos cinco dias úteis de respostas – e nesta semana a medida dos últimos cinco dias subiu para 13,75%.
A consequência de uma economia ainda aquecida foi que o mercado está revisando para cima as projeções do PIB de 2024 de 3,22% para 3,39% e para 3,44%, nas respostas dos últimos cinco dias úteis (vale notar que há um mês a previsão era de que o PIB cresceria 3,10%). Mesmo com a alta dos juros, o PIB de 2025 foi elevado de 1,95% para 2,00% e 2,06% nas respostas dos últimos cinco dias úteis, numa aposta de que o eventual referendo dos parlamentos da União Europeia ao acordo com o Mercosul impulsione a economia brasileira rumo ao mercado gigantesco do velho continente.
Itaú prevê alta de 1% na Selic para 12,25%
Como faz habitualmente antes das reuniões do Comitê de Política Monetária, o Departamento de Pesquisa Macroeconômica do Itaú-BBA, dirigido pelo economista Mário Mesquita, que já foi diretor de Política Monetária do Banco Central, publica o “Cockpit do Copom”, com o resumo das condicionantes a serem examinadas pelos oito diretores e mais o presidente do Banco Central.
Para a última rodada de reuniões do Copom sob a presidência de Roberto Campos Neto (o diretor de Política Monetária, Gabriel Galípolo assume a presidência em 2 de janeiro de 2025, com três novos diretores a serem aprovados este mês no Senado), o Itaú espera a aceleração no ”ritmo de ajuste para 100 p.b. (50 p.b. em novembro), levando a taxa Selic a 12,25% ao ano”.
“Comparadas ao apresentado na reunião de novembro, as projeções de inflação do comitê no cenário de referência (que inclui taxa de câmbio seguindo a paridade do poder de compra e taxa de juros de acordo com a pesquisa Focus) devem subir: para 4,8% para 2024 (ante 4,6% na reunião de novembro), para 4,6% em 2025 (ante 3,9%), e, mais importante, para 4,1% (de 3,6%) no horizonte relevante (2º trimestre de 2026).
Além das incertezas fiscais, o Itaú assinala que “a taxa de câmbio, variável relevante para as perspectivas de inflação, chegou à sua máxima histórica, acumulando depreciação intensa (e bastante descolada das moedas de mercados emergentes). As expectativas de inflação tiveram alta acentuada, seja nas métricas implícitas em preços de ativos, seja na pesquisa Focus, onde as medianas das projeções para 2025 e 2026 tiveram saltos comparáveis a poucos episódios do passado, inclusive na data crítica utilizada como referência para a decisão desta semana. Esse cenário preocupante requer uma postura mais vigorosa por parte da autoridade monetária”.
O Itaú também aponta que “a atividade econômica medida pelo PIB do 3º trimestre surpreendeu para cima, indicando dinamismo maior que o esperado. O mercado de trabalho seguiu aquecido, com a taxa de desemprego fazendo nova mínima histórica”. Por isso, na visão do banco “a reação mais provável da autoridade monetária a tais desdobramentos será uma nova intensificação no ritmo de alta da taxa básica de juros, que deverá subir em 100 p.b. para 12,25% a.a. Tal decisão, unânime, seria justificada pela piora do cenário base e das projeções de inflação, com um balanço de riscos ainda assimétrico para cima, que levam à necessidade de avançar mais em território contracionista.
E ele considera que o Copom deve afirmar que antevê um novo ajuste de um ponto em 29 de janeiro, para 13,25%. Com persistências de pressões inflacionário o Itaú acredita que a taxa terminal (de 2025) deve ser maior do que a atual projeção de 13,50%, corroborando os 13,75% das respostas dos últimos cinco dias.
Inflação zero em janeiro?
Em meio à safra de projeções ruins, o mercado lançou uma projeção positiva para janeiro de 2025. Com a manutenção da bandeira tarifária verde na energia elétrica, embora a previsão do IPCA de novembro – que o IBGE divulga amanhã, terça-feira – aponte um salto de 0,27% para 0,36%/0,37% em função dos impactos altistas do dólar, o que se acentua em dezembro, quando, passado o efeito da “black friday”, o IPCA sobe de 0,52% para 0,57%/0,58%.
Mas, em janeiro aconteceria uma forte desaceleração da inflação: há uma semana, o mercado esperava IPCA de 0,44% em janeiro, nível reduzido a 0,04% na mediana do mercado. E as respostas dos últimos cinco dias úteis preveem inflação zero. A conferir.
Dólar é hoje um termômetro
Além de mudanças climáticas (até aqui as previsões de chuvas garantem uma excelente safra agrícola para 2025, o que pode implicar redução nos preços dos alimentos das cadeias da soja e do milho e de todos os animais engordados com soja e milho e derivados da agricultura (como farelo de caroço de algodão), no caso, aves, suínos e gado bovino confinado.
Por sinal, o dólar iniciou a semana em baixa de 0,46%, em relação à última sexta-feira, contado a R$ 6,0655, às 13:30. Mas o mercado continua fazendo apostas pesadas contra o real, criando um cenário irreversível para alta de juros pelo Banco Central, em função das dificuldades para o avanço no Congresso das medidas do governo para ajustar as contas públicas, uma vez que as lideranças do Senado e da Câmara fazem pressão junto ao governo para tentar convencer o Supremo Tribunal Federal a relaxar nas exigências de transparência no uso das emendas parlamentares. Uma suja chantagem para encobrir prática inaceitáveis de corrupção e compadrio.