O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

gilberto.cortes@jb.com.br

O OUTRO LADO DA MOEDA

Vozes sensatas: Copom deve pedir mesa

Publicado em 17/09/2024 às 15:43

Alterado em 17/09/2024 às 15:43

Na véspera da super quarta-feira, com reuniões do Federal Open Market Committee - FOMC, em Nova Iorque, e do Comitê de Política Monetária do Banco Central, em Brasília, crescem as apostas, em Wall Street, de que o Fed vai reiniciar o ciclo de baixa dos juros nos Estados Unidos com um corte mais agressivo, de 0,50% baixando os juros para a faixa de 4,75%-5,00%. Como a decisão do Fed será anunciada às 15 horas, o Copom terá três horas para ponderar bem sua decisão sobre a taxa que está em 10,50% ao ano.

Nos mercados de câmbio de todo o mundo, o dólar reagiu hoje ligeiramente com alta frente ao euro, à libra esterlina, ao iene e ao franco suíço. No Brasil, depois de cair 1% na segunda-feira, o dólar seguiu em pequena queda até o meio-dia. Depois de fechar ontem a R$ 5,51, o dólar abriu cotado a R$ 5,5053, subiu ligeiramente a R$ 5,5818, mas não se sustentou e depois do meio-dia estava em queda de 0,15%, cotado a R$ 5,5025, com os operadores em dúvida se com uma queda de 0,50% nos Estados Unidos o Copom não poderia aguardar para mexer nos juros na reunião de novembro.

Nas duas últimas semanas o noticiário tem dado preferência aos operadores que estão com posição prevendo alta da Selic. O Bradesco e o Itaú estão prevendo alta de 0,25% agora e a Selic fechando o ano em 11,25%. Para 2025, o Bradesco espera que volte a 10,50%. Uma das justificativas do Bradesco para a alta de juros foi o forte crescimento da economia: 3,8% na projeção anualizada do 2º trimestre (+1,4%). Com os efeitos climáticos da seca e queimadas na energia elétrica e nos alimentos, o Bradesco prevê IPCA de 4,4% este ano (quase no teto da meta de inflação - 4,50%) e 3,9% em 2025.

Economistas fazem coro com Haddad

Mas há vozes sensatas, lideradas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que consideram precipitada a iniciativa de elevar a Selic antes que o mercado absorva os efeitos da queda dos juros nos Estados Unidos. Com o agravante de que altas de juros são inócuas para mitigar pressões inflacionárias de acidentes climáticos (como aconteceu com as enchentes no Rio Grande do Sul). Pior, os efeitos colaterais da escalada dos juros travam o consumo e o investimento que resultaria em mais produtividade e economia de escala, contribuindo beneficamente para ajustar a projeção da inflação no centro da meta (3%), no horizonte de 12 a 18 meses da política monetária.

Para Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital, ouvido pelo siste Infomoney, parte relevante da pressão na curva de juros se deu por conta da fraqueza do câmbio, por sua vez, parcialmente provocada por incertezas fiscais. “Mas não é subindo a Selic em 1 p.p. ou 2 p.p. que essas dúvidas vão ser eliminadas. Manter o juro parado enquanto o resto do mundo corta já é uma postura conservadora”, diz. “A política monetária atual já está em território contracionista, em um nível que só ocorreu em ciclos passados quando a inflação estava com a dinâmica muito pior.”

Marco Bismarchi, sócio e gestor de portfólio da TAG Investimentos, também questiona a eficácia de um movimento de altas de juros seguido por outro de quedas. “Não faz muito sentido, porque geralmente demora cerca de 18 meses para a política monetária fazer efeito”, diz. Já Rafael Cardoso, economista-chefe do departamento de pesquisa econômica do Banco Daycoval, lembra que, mesmo com expectativas de inflação elevadas e câmbio depreciado, diz, a modelagem do próprio BC indica que os juros a 10,5% bastariam para levar a inflação para a meta.

Genial vê dívida pública insustentável

Já o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, aponta forte deterioração nas metas de superavit primário do projeto de Arcabouço Fiscal aprovado pelo Congresso. “Ainda que o governo tenha conseguido aprovar um grande conjunto de medidas de aumento da carga tributária e, portanto, de receitas, o aumento dos gastos públicos, em particular dos gastos obrigatórios, faz com que as dúvidas não apenas persistam, assim como as metas de 2025 a 2026 foram significativamente reduzidas”.

Camargo alerta que a tendência de retirar gastos não planejados das metas de superavit primário a serem cumpridas (cita os R$ 44 bilhões dos precatórios de Bolsonaro e os R$ 28,9 bilhões, com as enchentes do Rio Grande do Sul e o combate aos incêndios(?), já excluídos da meta, além do custo para o Tesouro da renegociação das dívidas dos Estados, estimados em R$ 60 bilhões. No total, estes gastos fora do Arcabouço vão totalizar mais de R$ 100 bilhões.

Ele vê que o aumento na coluna de gastos tendo de “ser financiado por aumento da dívida, mesmo não sendo contabilizado nas metas de superavit primário”. Assim “as metas de superavit primário do Arcabouço Fiscal perderam a função para a qual foram definidas”. Ele projeta que a dívida pública do governo brasileiro deverá atingir 85,7% do PIB em 2026. O resultado, adverte é “o aumento da percepção de risco do Brasil e da taxa de juros demandada pelos investidores para financiar nossa dívida. Mais cedo ou mais tarde, será indispensável um forte ajuste fiscal de caráter estrutural, ou seja, que ataque a origem dos aumentos de gastos, os obrigatórios, para evitar que a trajetória da dívida domine a política monetária, tornando-a inócua. Neste sentido, a trajetória atual da dívida é insustentável”.

[Com os juros mais altos que os previstos no Arcabouço (de 9% em 2024, para 11,25% e de 2025, de 8,50% para 10,50%em 2025) é que a dívida pública vai custar mais R$ 220 bilhões que o previsto no Arcabouço. É quase um “ovo ou a galinha”, se os juros sobem mais do que o necessário, o ajuste fiscal fica pior.]

Juros altos pioram inadimplência

Para o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi, a interrupção na queda das taxas de juros, que vinha se mantendo estável, pode contribuir para a permanência da alta inadimplência, principalmente nas dívidas de longo prazo das famílias e empresas. “Empresas com esse tipo de endividamento enfrentam riscos maiores e o aumento das taxas de juros pode resultar em pagamentos mais altos, complicando a gestão financeira. A incapacidade de refinanciar ou renegociar essas dívidas pode levar à insolvência”, diz Rabi.

De outra parte, “a valorização do dólar adiciona uma pressão extra, pois os importadores de insumos ou produtos são diretamente impactados. O fortalecimento do dólar encarece essas importações, reduzindo as margens de lucro e prejudicando a liquidez necessária para cumprir com as obrigações financeiras”, comenta Luiz Rabi.

Em julho, a negativação dos negócios continuou estável no país, com 6,9 milhões de CNPJs no vermelho, de acordo com o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian. Esse total representa 30,8% das companhias existentes no Brasil, revelando uma queda de 0.4 ponto percentual em relação ao dado de junho. A Serasa registrou, em média, 7 dívidas por CNPJ inadimplente. Somadas, as mais de 6,9 milhões de dívidas registradas chegam a R$ R$ 147,1 bilhões. A maior concentração de inadimplência é no setor de serviços, que tem participação de 67% no PIB brasileiro.

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