
O OUTRO LADO DA MOEDA
Muitas opções entre 0,25% e 0,50%
Publicado em 13/09/2024 às 12:33
Alterado em 13/09/2024 às 12:33
O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) volta a se reunir dias 17 e 18 de setembro, após semanas de intensa volatilidade e com fundamentos que justificariam o início de um ciclo de alta de juros, começando ao ritmo de 0,25 p.p. Mas acontece que no mesmo dia, com a vantagem pró Copom para decidir melhor, o Federal Open Market Committee – FOMC), o órgão colegiado de política monetária dos Estados Unidos, integrado pelos dirigentes dos diversos bancos da Reserva Federal, toma a decisão sobre o início dos cortes de juros com pouco mais de três horas de antecedência.
Como lembrava o Itaú, para justificar sua crença de aumento de 0,25% na Selic, que subiria de 10,50% para 10,75%, o dólar seguia pressionado e os desencontros de posições dentro do Copom e as incertezas fiscais estavam ao fundo do cenário. E os dados econômicos de julho mostraram que economia se encontra mais aquecida do que o BC esperava na última reunião, e as expectativas de inflação seguem desancoradas.
Com base nos contratos de opções de Copom da B3, 78% dos contratos precificavam ontem alta de 0,25 pp da Selic, já 14% apostam em 0,50%. Isso era até ontem, com o mercado do dólar fechando a R$ 5,6276, após ter alcançado R$ 5,6618 na quarta-feira. Mas em economia nada como um dia depois do outro para mudar o cenário.
Dados nos EUA sugerem corte de 0,50% (lá)
O que vai determinar mesmo o tamanho da escalada de juros no Brasil – o mercado espera que a Selic suba até 11,75% este ano e chegue a 12% ao ano em janeiro, para fechar em 11% em dezembro de 2025 - é o que o FOMC decidir. E o esfriamento da economia americana segue acelerado. Hoje saíram dados preocupantes: os custos dos produtos importados caíram 0,3% em agosto, acima dos 0,2% esperados e os de exportação tombaram 0,7%, contra -0,1% previstos.
Por isso, o presidente do Federal Reserve de Nova Iorque (que executa nas mesas de “open market” a política traçada pelo FOMC), John Williams, sugeriu hoje a possibilidade de o Fed iniciar o ciclo de baixa nos EUA com um corte maior, de 0,50%, reduzindo o nível dos juros americanos de 5,25%-5,50% a 4,75%-5,00%. O efeito imediato foi a queda do dólar em todo o mundo e no Brasil. Após abrir a sexta-feira a R$ 5,6277, o dólar despencava para R$ 5,5880 às 10:45, uma queda de 0,72%. E caía 0,80% frente ao iene e 0,64% frente ao franco suíço.
Se uma das peças do tabuleiro for mexida com mais intensidade pelo Fed, faz sentido o Brasil elevar os juros e ainda assim, em até 0,50% como pregam alguns? O mercado financeiro é uma gangorra e tem seus vasos comunicantes. Quando um preço fundamental nos contratos futuros (que dominam os mercados de juros, moedas, ações, commodities e ETFs) cai ou sobe, os contratos são renegociados para a nova realidade. Como numa gangorra, além da queda do dólar (por impactos externos de corte maior nos EUA), a possibilidade de estabilidade na Selic impulsionou o Ibovespa em mais de 1%, para 135.500 pontos.
Mas há outros sinais que mudam o painel de dados para o Copom decidir. Ante a queda do dólar, houve ajuste nos preços de commodities cotadas em dólar. O contrato do petróleo Brent para entrega em novembro subiu mais de 1% para US$ 72,69, mas o movimento parece tentar descontar a “desvalorização” recente da moeda americana. Dia 10 o Brent tinha descido a US$ 69,19, mas em 29 de agosto, data limite para rolagem de contratos, estava em US$ 79,94.
Como se vê, o cenário mudou muito em duas semanas. E o resultado, aponta a Abicomp, é que os preços domésticos dos combustíveis estão acima das cotações internacionais. Se o dólar continuar em descendente, muda o risco de reajuste nos combustíveis até o fim do ano. Se houver, será de baixa, o que ajuda em muito a desacelerar a inflação, cujo maior combustível é a gasolina.