
O OUTRO LADO DA MOEDA
Mercado em compasso de espera
Publicado em 28/08/2024 às 15:20
Alterado em 28/08/2024 às 16:21
O dólar se recuperou nesta 4ª feira nos principais mercados do mundo ante o euro, a libra esterlina, o iene, o franco suíço e as moedas de países emergentes. A exceção foi o peso mexicano, que valorizou quase 1% com o anúncio de reformas econômicas pela futura presidente, Cláudia Schein. O real começou ensaiando recuperação, mas as falas do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em palestra no Santander (de onde veio para o BC), destacando a desancoragem da economia, provocaram alta de mais de 0,53% do dólar para R$ 5,5383, às 12:50.
O mercado segue atento aos dados econômicos dos Estados Unidos e à confirmação [*] do atual diretor de Política Monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo, como substituto de Campos Neto, cujo mandato termina em 31 de dezembro. Junto com a indicação de Galípolo, que era o número 2 da Fazenda, viriam seu substituto na diretoria e um eventual remanejamento de cargos na indicação dos substitutos de Octávio Dalmaso (Regulação) e Carolina Assis (Cidadania), com mandatos também até 31 de dezembro.
A questão é que, com as eleições municipais, o calendário do Senado, onde os nomes indicados precisam passar por sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos e depois em votação no Plenário, está apertado. Principalmente se a indicação de Galípolo e de seu substituto ficarem para depois da eleição (6 de outubro para o 1º turno e 27 para o 2º turno). A incerteza é o pior cenário para o mercado e os agentes econômicos, que precisam de tempo para assimilar os nomes indicados e suas linhas de atuação na economia.
Um Copom feito por Lula
Até aqui, a composição do Copom é liderada por cinco membros indicados no governo Bolsonaro – o presidente, os dois que terminam o mandato em dezembro e mais Diogo Guillen, de Política Econômica, e Renato Brito Gomes, de Organização, cujos mandatos expiram em 31 de dezembro de 2025.
Campos Neto, que já fora indicado por Paulo Guedes, ministro da Economia de Bolsonaro, ficou mais independente ainda quando o Senado aprovou, em fevereiro de 2021, a Lei 179, que deu autonomia ao Banco Central perante o Executivo. Campos Neto levou ao pé da letra o mandato e não participou das reuniões com a equipe econômica do governo eleito.
O resultado é que o Copom exagerou nas precauções defensivas da política monetária – os juros foram mantidos altos por muito tempo – pelo temor de repique da inflação, já em 1º de janeiro, pela reincorporação dos impostos cortados eleitoralmente em junho de 2022, com validade até 31 de dezembro. Mas o governo não adotou de imediato nem retomou as alíquotas anteriores.
E, em maio, a Petrobras abandonou os reajustes automáticos de combustíveis pelo PPI (paridade de preços internacionais) e passou a usar mais o petróleo mais leve do pré-sal nas refinarias que, em vez de ociosidade de 25% (a meta era a privatização de 50% do parque de refino, se Bolsonaro fosse reeleito), passaram a operar com 93% ou mais de carga. Isso trouxe mais estabilidade aos preços dos combustíveis e à inflação em geral, que sempre sofre impacto direto e psicológico da alta da gasolina.
Nomes falados trocam Itaú por Bradesco
Uma característica dos ocupantes do Copom nos últimos 15 anos, sobretudo os que atuaram na diretoria de Política Monetária (Dipom), foi ter origem no Itaú. Foi assim com Mário Mesquita, que integrou uma diretoria do FMI e foi diretor do BC no 2º governo Lula e é o diretor de pesquisas macroeconômicas do Itaú. Bruno Serra, que antecedeu a Galípolo na Dipom, era chefe da mesa de operações do Itaú e voltou ao banco. Diogo Guillen era do Itaú Asset Management ao ser indicado à diretoria de Política Econômica, em abril de 2022. Galípolo presidiu o Banco Fator de 2017 a 2021.
Um nome ventilado no mercado para substituir Galípolo é o do economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa, também vice-presidente do Comitê de Macroeconomia da Anbima. Fernando Honorato está a 15 anos no Bradesco. Cresce ainda a importância de um bom operador em câmbio.
Na análise do IPCA-15, sutilezas separam a visão do Bradesco e do Itaú, que têm a mesma previsão para a Selic em 2024 e 2025 (10,50%), porém com crescimento menor do PIB e da inflação para o Bradesco.
Itaú - O IPCA-15 de agosto registrou alta de 0,19% (o Itaú previa 0,20%). Na abertura do dado, “destacamos surpresas baixistas em gasolina e em serviços para veículos e de estética. O item passagem aérea, por outro lado, veio acima das expectativas. Em relação aos núcleos, serviços subjacentes vieram abaixo das expectativas, enquanto industriais subjacentes vieram em linha com as expectativas.
O agregado dos itens que repetem a variação do IPCA-15 para o IPCA fechado do mês (passagem aérea, cursos, aluguel e condomínio, mão de obra, empregado doméstico, entre outros) vieram em linha com a nossa projeção.
Na média móvel de três meses, com dados dessazonalizados e anualizados, serviços subjacentes aceleraram para 4,9% (de 4,4%), enquanto o núcleo de industriais subjacentes acelerou para 2,6% (de 2,0%). Na mesma métrica, a média dos núcleos acelerou para 4,3% (de 4,1%).
Nossa visão: o IPCA-15 de agosto veio em linha com nossa expectativa e com abertura ligeiramente melhor do que a esperada, especialmente em função de alguma desaceleração mensal dos serviços subjacentes (com a devolução do choque de serviços para veículos e com serviços ligados a mão de obra abaixo do esperado). Para frente, esperamos que o componente de serviços siga pressionado, refletindo o mercado de trabalho apertado.
Bradesco – A taxa de 0,19% no IPCA-15, em agosto, foi ligeiramente maior que nossa projeção (0,16%). A queda do preço dos alimentos foi um pouco menos intensa, com destaque para os produtos “in natura”. Por outro lado, o aumento do preço da gasolina foi um pouco mais baixo que o Bradesco previa.
Os bens industriais acumulam alta de 1,0% nos 12 meses encerrados em agosto, contra 1,2% em julho. Nas métricas mais curtas, observamos alguma aceleração da inflação de bens industriais, em especial nos produtos duráveis, o que pode ser os primeiros sinais de repasse cambial.
Os serviços estão rodando em 4,8% na variação trimestral anualizada. Os serviços intensivos em trabalho estão desacelerando nos últimos meses, 4,5% na média de três meses anualizada.
Os núcleos estão um pouco mais altos do que o verificado no segundo trimestre do ano. Em agosto, a média dos núcleos subiu 4,3% na variação trimestral anualizada contra 3,6% no encerramento do último trimestre.
Nossa avaliação: a surpresa no número do IPCA-15 de agosto não indica uma trajetória muito diferente da inflação à frente. O câmbio relativamente mais depreciado coloca alguma pressão sobre os preços, mas nossa Pesquisa Empresarial sugere repasses similares ao padrão histórico. Esperamos que o IPCA termine o ano com alta de 4,3%.
Fonte: Itaú
[*] Nota da Redação: Coluna escrita antes da indicação, pelo presidente da República, do nome do diretor Galípolo para presidente do Banco Central, o que se deu na tarde desta quarta (28)