
O OUTRO LADO DA MOEDA
Ventos dos EUA mudam biruta
Publicado em 15/08/2024 às 14:49
Alterado em 15/08/2024 às 17:25
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e diretores-membros do Comitê de Política Monetária (Copom) costumam dizer que não há influência da taxa de juros do exterior com a Selic, como ressaltado no item 11 da última Ata do Copom: “O Comitê reiterou que não há relação mecânica entre a condução da política monetária norte-americana e a determinação da taxa básica de juros doméstica, tampouco entre a taxa de câmbio e a determinação doméstica da taxa de juros”.
Mas os fatos (anteriores à reunião de 31 de julho e posteriores à divulgação, em 6 de agosto) mostram o contrário. Bastou surgirem sinais, nos Estados Unidos de que o Federal Reserve poderia retomar o processo de queda dos juros em setembro para a escalada do dólar refluir. É verdade que o BC não alterou a política (só pode fazê-lo em 18 de setembro, três horas e meia após o Fed) e que os diretores continuem ameaçando elevar a Selic se necessário.
Mas é inegável que as flutuações do mercado de câmbio – por seus efeitos colaterais na formação de expectativas e na própria alta dos preços de produtos “tradeables” (negociados com o exterior) – têm de ser levadas em conta pelas autoridades monetárias. Depois de alcançar o pico de R$ 5,8657 em 5 de agosto, dia em que fechou a R$ 5,7238, o dólar não parou de cair ante o real. A queda se acelerou semana passada com indicadores de forte desaceleração da economia americana que sugeriam corte de até 0,50% e não apenas 0,25% em setembro. E a escalada do Ibovespa acima de 134 mil pontos reflete isso.
O que conta são os preços
Esta semana, novas indicações de comportamento da economia mostraram que os sinais de risco de recessão eram exagerados; a economia americana caminha mais para um pouso suave. O que enseja redução de apenas 0,25% em setembro e já surgiram apostas de redução de apenas dois movimentos idênticos de 0,25% (e não três). Isso se refletiu no dólar nos principais mercados, mas o real (+0,21 a R$ 5,46) e o peso mexicano, se valorizaram, indicando que as apostas contra as duas moedas eram exageradas.
Se até a reunião do Copom ficarem mais nítidos os sinais na economia americana e as indicações domésticas referentes a agosto (o IPCA será divulgado pelo IBGE em 10 de setembro) apontarem para a reversão da curva da inflação – que atingiu 4,50% em 12 meses em julho, o teto da meta de inflação –, mesmo dizendo que trabalha com horizonte de 12 a 18 meses, o Copom deve mudar o tom.
É que parece inegável que Campos Neto não deseja encerrar o seu mandato, em 31 de dezembro de 2024 com o 3º estouro na meta de inflação: ele assumiu o Banco Central em 2019 e registrou estouro do teto da meta em 2021 (o teto era de 5,25% e deu 10,06%) e em 2022 (mesmo com o corte eleitoreiro dos impostos dos combustíveis, energia elétrica e comunicação, o IPCA de 5,79% superou o teto de 5,50%.
Troca de comando tem de mudar BC
Embora Gabriel Galípolo, diretor de Política Monetária, o mais cotado para substituir Campos Neto em 1º de janeiro de 2025 - quando também precisam tomar posse os novos diretores de Cidadania e Relacionamento, na vaga de Carolina Assis, e de Regulação, na vaga de Otávio Damaso - insista que não haverá guinada na política monetária, para não assustar e causar mais ruídos no mercado, a verdade é que incluindo a substituição de Galípolo, serão quatro remanejamentos em relação à atual diretoria de 9 membros, com o presidente.
Assim como houve remanejamento de funções no fim de 2023 - quando os mandatos de Fernanda Guardado, da área Internacional e de Maurício Moura, da diretoria de Regulação e Cidadania, que passou a Carolina Assis, que transferiu a diretoria de Administração a Rodrigo Teixeira -, é natural que além da indicação de um operador experiente e conhecedor de política monetária o Banco Central, a composição do Copom precisa de um expert em mercados de câmbio e riscos internacionais, para fazer par com a política monetária.
Embora o Copom negue, há aderência entre o câmbio, a política do Fed e a política monetária do Brasil. A evidência maior é a coincidência dos calendários das reuniões do Federal Open Market Committee (FOMC), o formulador de política monetária do Fed, encerradas às 15 horas, com as do Copom, que dispõe de mais três horas para decidir e soltar comunicado, até às 18:30
Desde 2 de janeiro deste ano a diretoria que era de Fernanda Guardado foi ocupada por Paulo Pichette. Economista experiente, responsável pelo CODACE, o Comitê de ciclos econômicos no Ibre, da FGV, onde acompanhava preços nos últimos 17 anos, Pichetti está muito mais talhado para ser responsável pela Política Econômica do que o jovem Diogo Guillen. Os sucessivos erros de avaliação do PIB, das contas externas e da inflação por parte do Relatório Trimestral de Inflação, produzidos pela diretoria, em nome do Copom, falam por si.
O Banco Central, que agora resolveu fazer outra pesquisa mensal de tendência, a Primus, feita com empresas do setor produtivo, em complemento à Focus, feita há mais de duas décadas com uma centena de instituições financeiras, consultorias e institutos de pesquisas deveria aperfeiçoar a compilação e projeção de seus próprios dados. Há muita valia nas projeções num horizonte de seis meses. Mas no horizonte de 12 e 18 meses perseguido pelas metas da política monetária, as projeções do mercado a cada semana repetem quase sempre as próprias projeções oficiais.