
O OUTRO LADO DA MOEDA
Gasolina e avião levam IPCA ao teto
Publicado em 09/08/2024 às 17:00
Alterado em 09/08/2024 às 17:00
A alta da inflação ex-alimentos, causada pela disparada do dólar desde maio, que obrigou a Petrobras a aumentar a gasolina em meados de julho, levou a taxa de inflação em 12 meses a bater no teto da meta de 4,50% (4,23% em junho). Na taxa mensal de 0,38% (0,21% em junho), acima dos 0,35% previstos pelo mercado, a gasolina, que subiu 3,15%, contribuiu com 0,16 ponto percentual ou 42,1% do aumento final do IPCA. Outro grande impacto (+0,11p.p.) veio da demanda das férias escolares: as passagens aéreas subiram 19,39%. Gasolina e avião responderam por 0,27 p.p. ou 71% do IPCA de 0,38%.
O quadro de aumentos se completou com a alta da energia elétrica, que subiu 1,93% e pesou 0,08 p.p. na inflação mensal, provocando alta de 0,77% no item Habitação, com impacto total de 0,12 p.p. na inflação. Transporte (0,37%) e Habitação (0,12 p.p.) produziram uma inflação mensal de 0,49%. Mas a taxa final foi aliviada pela baixa de 1,00% nos Alimentos em Bebidas, que contribuiu com queda de 0,22 p.p. no IPCA final de julho. A Alimentação em domicílio teve queda de 1,51% em julho após alta de 0,47% em junho, graças à baixa de alimentos “in natura” liderada pelo tomate (-31,24). A cenoura baixou 27,43%, a cebola, -8,97%, a batata-inglesa, -7,48% e as frutas -2,84 (quedas fortes em mamão papaya e banana).
Para as camadas mais pobres, com renda até cinco salários-mínimos (R$ 7.060) a inflação medida pelo INPC, onde o peso dos alimentos é maior, e gasolina e passagens aéreas pesam bem menos, a alta foi de 0,28% em julho (a alimentação levou um tombo – subiu 0,44% em junho e caiu 0,95% em julho), a taxa acumula 2,95% no ano e 4,05% em 12 meses.
Alimentos podem garantir IPCA dentro do teto
Se não houver nenhum novo aumento dos combustíveis até o final do ano (as quedas do dólar e do Brent podem aliviar as pressões sobre a Petrobras que ficou politicamente exposta pelo prejuízo contábil de R$ 2,612 bilhões no 2º trimestre, por ter feito acerto tributário de passivos fiscais com a Receita Federal e por ajustes nos planos de saúde dos funcionários e aposentados), o comportamento dos alimentos pode ser a chave para evitar estouro na meta de 4,50% (3,00% de meta+ tolerância de 1,50%).
O problema é que a gasolina serve, informalmente, como moeda de referência na cobrança de serviços por profissionais autônomos. A gasolina subiu 3,15%, os preços monitorados subiram 1,08% em julho e os serviços subiram 0,75%. Um alento é que apesar da alta, reduziu-se o percentual de preços em alta: a disseminação de alta caiu de 57% em maio, para 52% em junho e 47% em julho. Entre os alimentos, a disseminação caiu de 49% em junho para 39% em julho. Nos preços de não alimentícios a difusão caiu de 55% para 53%.
O calendário é apertado até o fim do ano, pois os índices mensais precisam ser inferiores aos dos mesmos meses de 2023: 0,23% em agosto; 0,26% em setembro; 0,24% em outubro; 0,28% em novembro e 0,56% em dezembro. O final do ano, com os produtos natalinos, tem grande influência de alimentos importados, como peixes e bacalhau, azeite, vinhos, e aves e ovos. Se o dólar continuar em refluxo, é possível ficar dentro da meta
Outra boa ajuda virá da redução das tarifas de energia (mesmo sob bandeira amarela) pelo acordo sobre redução de encargos da energia de Itaipu e de tarifas extras da Covid. Se os alimentos continuarem se comportando bem até o fim do ano, a inflação pode ficar dentro da meta. Mas as altas de 3,27% do café moído em julho, de 2,97% do alho e de 0,67% no pão francês (todos influenciados pelo dólar, servem de alerta. A sorte é que a carne, com grande peso na alimentação, continua em queda (0,07% no mês e -2,95% até julho).
Petrobras, com prejuízo, paga dividendos
O balanço da Petrobras no 2º trimestre comporta duas leituras: se a companhia teve prejuízo de R$ 2,605 bilhões no período (o primeiro desde 2020), como vai pagar dividendos de R$ 13,57 bilhões? No primeiro semestre, seriam R$ 27 bilhões. Na verdade, os lucros acumulados anteriormente é que estão pagando dividendos, tanto de R$ 6,4 bilhões foram usados da conta de reserva de lucros.
Mas, no exame com lupa do resultado do 2º trimestre, descontados os itens extraordinários (pagamento de R$ 10,6 bilhões, para efeito de caixa, de um acordo tributário no Carf cujo valor final era de quase R$ 45 bilhões; e o ajuste de mais de 5 bilhões nos ajustes do plano de saúde dos funcionários e aposentados) pode-se dizer que houve uma limpeza, com desconto, de passivos preocupantes. Ou seja, o caminho para a volta dos lucros está livre.
Excluídos esses eventos extras, o lucro líquido teria sido de R$ 28 bilhões, praticamente repetindo os R$ 28,8 bilhões do 2º trimestre de 2023 e superior aos R$ 23,7 bilhões do 1º trimestre deste ano. O que também atrapalhou o resultado foi a escalada de 11,2% no dólar, que, com os 3,2% do 1º trimestre, acumulou 16% de alta no ano. Só no 2º trimestre as despesas financeiras consumiram R$ 18,6 bilhões.
Ainda assim, a empresa teve geração de caixa livre de R$ 31 bilhões (Fluxo de Caixa Operacional, que é o parâmetro para calcular os dividendos). O Tesouro Nacional, maior acionista, não tem do que reclamar, além de receber o maior quinhão dos dividendos a Petrobras pagou R$ 70 bilhões em tributos incluindo royalties e participações especiais, que contempla estados e municípios, além de ICMS e ISS.
Prejuízo da Suzano foi de R$ 3,7 bi
Antes que reclamem e culpem o governo Lula pelo prejuízo de R$ 2,605 bilhões da Petrobras é bom saber que a Suzano, maior exportadora mundial de celulose de eucalipto, também foi atropela pela desvalorização cambial e teve prejuízo de R$ 3,7 bilhões no 2º semestre. A empresa é presidida por Walter Schalka, que era bem cotado para ser o presidente da Vale, em sucessão a Eduardo Bartolomeo. Na crise financeira mundial de 2008, a disparada do dólar pegou no contrapé a Aracruz Celulose e a Votorantim, deixando a Suzana isolada.