
O OUTRO LADO DA MOEDA
As contradições do mercado
Publicado em 07/08/2024 às 13:54
Alterado em 07/08/2024 às 13:54
As cotações do dólar voltam a oscilar bastante nos mercados globais, impulsionadas pelas declarações do vice-presidente do Banco do Japão, esclarecendo que não haverá mais aumentos de juro (como ameaçara o presidente do BoJ) “enquanto os mercados estiverem voláteis”. Assim, a maior recuperação do dólar (+2,20%) foi perante o iene. Mas, no geral, o dólar continuou em baixa, com ajustes, hoje, nos mercados, em ajuste para a aposta de queda dos juros nos Estados Unidos na reunião do Fed em setembro.
No Brasil, que tinha o real afetado pela concentração dos fundos globais nos ataques ao iene, o refluxo das cotações segue firme. Após roçar os R$ 5,80 na semana passada, as cotações que estavam exacerbadas pelo vencimento dos contratos futuros de dólar na B3, porque os investidores tentavam influir na formação da Ptax, o mercado esfriou esta semana arrastado pela mudança de cenário nos EUA, com a rápida troca do aperto pelo afrouxamento monetário. O dólar passou a ser negociado na faixa de R$ 5,60, depois do meio-dia.
Um dos fatores que ajudou a derrubar as apostas no dólar foi a entrevista do presidente do Itaú, Milton Maluhy, para comentar o lucro de R$ 10,078 bilhões no 2º semestre. Maluhy disse que os cortes de juros pelo Fed podem começar em setembro, com até três reduções de 0,25 ponto percentual até o fim do ano. “O que significa dólar um pouco mais fraco”, disse. Acrescentou que continua trabalhando com um cenário de Selic em 10,50% ao ano até o fim de 2024. Mas observou, realista, que “o BC saberá tomar melhores decisões.”
Ata e análises do Copom ficaram velhas
É interessante o pragmatismo do CEO do Itaú, às mudanças de ares dos mercados globais, porque ontem (6 de agosto), ao analisar a Ata do Copom de 31 de julho, o informe do Departamento de Pesquisa Macroeconômica do Itaú saiu-se com este título: “Ata do Copom: pronto para puxar o gatilho”. E o teor era mais dura afirmando que “A ata do Copom transmitiu a mensagem que o comunicado não entregou: ficou claro que todo o comitê, não apenas alguns membros, está pronto para aumentar a taxa Selic caso as tendências recentes nas expectativas de inflação e na dinâmica da taxa de câmbio persistam. O comitê observa a clara deterioração das perspectivas de inflação, capturada por suas projeções e por um balanço de riscos que, segundo vários membros do Copom, está assimétrico para cima”.
“Em suma, a ata mostra um comitê que está pronto para subir juros caso a moeda permaneça onde está. Como acreditamos que o real se fortalecerá nas próximas semanas, à medida que os mercados globais se acalmarem, mantemos, por enquanto, a previsão de que a Selic permanecerá em 10,50% ao ano. Se o câmbio não reagir, um ciclo de alta, começando em setembro, será inevitável”. Felizmente, os ares da biruta mudaram e seria insensato elevar juros em setembro quando justamente o Fed iniciaria o ciclo de baixa.
Mas os analistas “falcões” estavam com as garras à mostra. A Genial Investimento, em análise de José Márcio Camargo postada hoje (7 de agosto, após a baixa de dois dias, ampliada hoje) usou esse título:
'Porteira aberta para a alta de juros'
Finaliza assim: “Avaliamos que o documento apresentado hoje pelo BC, apesar de ser mais duro do que o comunicado, ficou em linha com o que era esperado pelo mercado na decisão da última quarta-feira. Nesse sentido, acreditamos que a Ata deixa a porteira aberta para possíveis altas de juros caso não haja uma reversão da piora dos fundamentos nos últimos meses. [todas as atas do Copom condicionam aumentos de juros se os sinais forem ruins na inflação].
Mas volta a ser sensato: “De modo geral, entendemos que a Ata reforça a percepção de que o Comitê optou por aguardar o início do ciclo de afrouxamento monetário nos EUA e analisar o seu impacto sobre os fundamentos, sobretudo o câmbio, antes de incorporar a deterioração dos fundamentos na dinâmica inflacionária. Dessa forma, embora a porteira esteja aberta, o cenário base ainda é de manutenção da Selic em 10,50% a.a. até o final de 2024”.
Análise de Conjuntura da LCA
“Os mercados financeiros globais atravessaram um período de pânico nos primeiros dias de agosto. O relatório do mercado de trabalho dos EUA foi apontado como estopim para a forte correção observada nos mercados. O mercado de trabalho dos EUA, de fato, começa a mostrar sinais mais claros de esfriamento; mas, a nosso ver, isso não necessariamente significa que a maior economia do mundo está na antessala de uma recessão, (...) mas “parece consistente com nosso cenário de desaceleração moderada do consumo das famílias e da atividade econômica norte-americana”.
“Assim, outros fatores parecem ter contribuído para o pânico, com destaque para o aperto da política monetária do Banco do Japão, que instigou um desmonte de operações de " carry-trade ", em que investidores tomam recursos emprestados em países com juros baixos para aplicar em países que oferecem juros mais altos. O nervosismo dos mercados refluiu parcialmente nesta 3ª-feira (dia 06), reagindo sobretudo à percepção de que as estatísticas econômicas por ora não corroboram os diagnósticos de recessão”.
“Dados os eventos externos recentes, passamos a contemplar que o juro básico dos EUA será reduzido a um ritmo de 25 pontos-base a cada reunião de política monetária - e não mais a cada duas reuniões. A perspectiva de que o FED cortará sua taxa de juros em ritmo algo mais rápido poderá ajudar a moderar a força do dólar nos mercados internacionais de câmbio, trazendo algum alívio aos ativos e moedas emergentes”.
“A ata do Copom reconheceu que os riscos externos e domésticos se acentuaram nos últimos meses; e que, para o cenário inflacionário doméstico, o canal principal de transmissão desses riscos é a taxa de câmbio. Na ata, o Banco Central foi assertivo em afirmar que o balanço de riscos para a inflação piorou e que "não hesitará em elevar a taxa de juros para assegurar a convergência da inflação à meta se julgar apropriado".
“Por ora não alteramos a nossa projeção de que a Selic será mantida nos atuais 10,50% por período prolongado. Mas avaliamos que, se não houver um refluxo nas pressões sobre a taxa de câmbio, que ajude a conter a piora das expectativas inflacionárias, acabará por haver um ajuste para cima na taxa Selic”. Vale lembrar que a LCA elevou de 4,2% para 4,4% a projeção do IPCA deste ano (o teto da meta é de 4,50%) e manteve em 4,1% a previsão de 2025.