O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

gilberto.cortes@jb.com.br

O OUTRO LADO DA MOEDA

Gastos do BC em juros sobem 516% em 2024

Publicado em 29/07/2024 às 20:52

Alterado em 29/07/2024 às 20:52

A tempestade perfeita – manutenção de juros altos, desvalorização do real e perdas em “swap” cambial pelo Banco Central – provocou aumento recorde nos juros pagos pela dívida pública em junho e no 1º semestre, no resultado consolidado do setor público divulgado hoje pelo BC. O déficit primário de junho (receitas menos despesas, sem contar os juros da dívida) foi de R$ 40,873 bilhões (a LCA Consultores previa R$ 41,2 bilhões), abaixo do déficit de R$ 48,9 bilhões em junho de 2023. No ano, o déficit de R$ 43,448 bilhões teve aumento de 113,3% (R$ 23,079 bilhões) frente ao 1º semestre de 2023.

Em junho, o governo central e as empresas estatais tiveram déficits respectivos de R$ 40,2 bilhões e R$ 1,7 bilhão, e os governos regionais, superávit de R$1,1 bilhão. Em 12 meses, o setor público consolidado acumulou déficit de R$ 272,2 bilhões, equivalente a 2,44% do PIB e 0,08 p.p. inferior ao déficit acumulado nos 12 meses até maio.

Gastos com juros explodem

Mas os juros apropriados por competência, somaram R$ 94,851 bilhões em junho de 2024, num aumento de 132,9% contra os R$ 40,726 bilhões em junho de 2023. O grande aumento ocorreu nas operações de “swap” cambial, que registraram ganho de R$ 20,5 bilhões em junho de 2023 e perda de R$ 28,6 bilhões em junho deste ano, num total de R$ 49,1 bilhões a mais este ano.

De janeiro a junho deste ano os gastos com juros somaram R$ 454,777 bilhões, um aumento de 34,82% (+R$ 117,451 bilhões) frente aos R$ 337,322 bilhões no 1º semestre de 2023. No acumulado em 12 meses até junho deste ano, os juros nominais alcançaram R$ 835,748 bilhões (7,48% do PIB), contra R$ 638,1 bilhões (6,06% do PIB) nos 12 meses até junho de 2023.

As contas do Banco Central tiveram forte variação no período. Em 2023, os juros nominais pagos acumuladamente pelo Banco Central somaram R$ 16,207 bilhões e o salto para os R$ 99,912 bilhões do 1º semestre deste ano foi de incríveis 516%.

E impactam dívida

O impacto se refletiu na Dívida Líquida do Setor Público (DLSP), que atingiu 62,2% do PIB (R$ 6,9 trilhões) em junho, com alta de 0,1 p.p. do PIB no mês. O resultado decorreu dos impactos dos juros nominais apropriados (+0,8 p.p.), do déficit primário (+0,4 p.p.), da desvalorização cambial de 6,1% no mês (-0,7 p.p.), e da variação do PIB nominal (-0,3 p.p.). No ano, a DLSP elevou-se 1,3 p.p. do PIB, em função, sobretudo, dos impactos dos juros nominais (+4,1 p.p.), do reconhecimento de dívidas (+0,2 p.p.), do efeito do aumento do PIB nominal (-1,7 p.p.) e da desvalorização cambial de 14,8% acumulada no ano (-1,6 p.p.).

Segundo o Banco Central, ao longo de 12 meses, cada 1% de desvalorização cambial economiza R$ 8,7 bilhões na DLSP e aumenta em R$ 10,6 bilhões na Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG). Já uma queda de 1% nos índices de preço (parte da dívida está indexada em IPCA ou IGPs) reduz em R$ 19,5 bilhões os gastos com juros da DLSP e em R$ 19,3 bilhões na DBGG.

O ponto mais sensível é a variação da Selic, que corrige a maior parte da dívida. Uma queda de 1% ao fim de 12 meses reduz em R$ 51,1 bilhões o custo da DLSP e em R$ 46,3 bilhões a DBGG. A previsão da Selic em janeiro era fechar o ano em 9,50% e em 8,50% em dezembro de 2025. Com a Selic parada em 10,50% desde maio e a previsão para 9,50% em dezembro de 2025, os custos da dívida subiram bem mais do que outros gastos públicos.

LCA esmiuça gastos do governo

O déficit de R$ 38,8 bilhões do governo central em junho ficou acima da estimativa mediana de mercado (déficit de R$ 37,7 bilhões). Em 12 meses o governo central teve déficit de -R$ 256,1 bilhões (-2,3% do PIB, redução de 0,1 p.p do PIB em relação ao mês anterior). Excluída a despesa extraordinária de precatórios de dezembro de 2023 (referentes aos calotes do governo Bolsonaro, o resultado seria de -R$ 163,7 bilhões (-1,5% do PIB).

Em junho as receitas foram cresceram em seus principais componentes, com destaque para a Receita Administrada pela RFB (+9,8% rem frente a junho de 2023), graças à reoneração de combustíveis, à limitação de compensações e pelo maior crescimento da economia. Nas despesas (+0% 2m 12 meses), a maior pressão foi em despesas discricionárias (+64,0%), pelo avanço dos investimentos públicos frente a 2023. Comparando os dois anos, os Benefícios Previdenciários tiveram queda de 7% em junho de 2024, pela mudança do cronograma de pagamentos do 13º do INSS. Em 2023, o 13º foi pago nos meses de maio, junho e julho, que este ano foi pago em abril, maio e junho.

Gastos menores no RS

A LCA destaca que dos R$ 27,7 bilhões de gastos extraordinários com a calamidade no Rio Grande do Sul, somente R$ 8,9 bilhões foram pagos até o fim do semestre, dos quais R$ 1,1 bilhão em junho. A lenta execução de gastos já programados e a ausência de pressões significativas para novos programas fizeram a consultoria revisar a projeção dessa rubrica para 2024, de R$ 30 bilhões para R$ 20 bilhões.

Com base nesses resultados, a LCA projeta resultado primário do governo central 2024 de -R$ 65 bilhões (-0,6% do PIB), ou -R$ 45 bilhões (-0,4% do PIB) após as exclusões que não entram na apuração da meta de resultado primário.

Focus mantém previsão de 0,7% do PIB

No Boletim Focus divulgado hoje, com projeções do mercado financeiro até a última sexta-feira, a estimativa para o déficit primário deste ano ficou 0,70%, mas a projeção para 2025 aumentou de 0,67% para 0,70% (0,80% nas respostas dos últimos cinco dias úteis).

A Focus elevou a previsão do IPCA deste ano de 4,05% para 4,10%, mas nas respostas dos últimos cinco dias úteis foi reduzida a 4,08%. Para 2025 a inflação subiu de 3,90% para 3,96% (sendo 3,98% nas respostas de 5 dias). Um dos fatores de pressão é a previsão da taxa de câmbio. O dólar estimado para dezembro de 2024 ficou estável em R$ 5,30 e a taxa de 2025 caiu para R$ 5,25.

No mercado à vista o real foi das poucas moedas a ganhar em relação ao dólar, com avanço de 0,28% por volta das 15 horas. O dólar subia 0,99% contra o peso mexicano, 0,42% frente a lira turca e 0,19% frente ao iene e + 0,228% diante do franco suíço, com altas ainda frente ao euro e à libra esterlina.

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