O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Inflação sobe; Lula cai nas pesquisas

Publicado em 12/03/2024 às 14:57

A inflação de 0,83% fevereiro (+0,41 pontos que os 0,42% de janeiro e um ponto acima dos 0,84% de fevereiro de 2023) surpreendeu todas as expectativas do mercado (0,77% na Pesquisa Focus a 0,81%, na previsão da LCA Consultores). O IPCA acumula 1,25% no ano e 4,50% em 12 meses. A grande pressão veio dos reajustes sazonais da Educação (4,98%), que impactaram em 0,29 pontos o IPCA, seguido pela alta de 0,95% na Alimentação e Bebidas (menor que os 1,38% de janeiro) que pesaram 0,20 ponto no índice geral. No acumulado do ano, os Alimentos subiram 2,34%, acima do IPCA, mas em 12 meses sobem 2,62%, contra 4,50% do IPCA.

O 3º item de maior aumento foi Transporte (+0,72%, com peso de 0,15 ponto no IPCA. Comunicações subiram 1,56%, com alta dos pacotes anuais de assinaturas de TV e de Combo (peso de 0,07). Outra alta expressiva (0,65%) veio de Saúde e Cuidados Pessoais (com peso de 0,09) puxada pelo reajuste de 1,03% nos serviços médico-dentários. Com alta de 0,27%, Habitação contribuiu com 0,04 no IPCA, que mede as despesas das famílias com renda até 40 salários-mínimos (R$ 52.800). As altas de Educação e Comunicação tendem a ser diluídas ao longo do ano. Outro dado positivo foi que a difusão de alta dos preços caiu de 65% em dezembro e janeiro para 57% em fevereiro.

A alta nas capitais

Além de praticamente dobrar de 0,42% em janeiro para 0,83% em fevereiro, o IPCA ficou acima de 1% em duas das 16 capitais pesquisadas pelo IBGE: Aracaju (SE) liderou as altas com 1,09%, seguido pelos 1,06% de São Luís. Em Salvador, a 4ª mais populosa, a taxa deu um salto de 0,13% para 0,96%. Em São Paulo, taxa mais que triplicou, de 0,25% para 0,93%. No Rio de Janeiro dobrou de 0,44% em janeiro para 0,88%. Em Fortaleza escalou de 0,68% para 0,84%, em Curitiba mais que dobrou de 0,39% para 0,84%.

Em Brasília, foi o maior salto: de -0,36% em janeiro para 0,75% em fevereiro. Belo Horizonte foi uma das quatro capitais a ter redução da taxa do IPCA, de 1,10% em janeiro para 0,82% em fevereiro. Outras quedas ocorreram em Goiânia, Belém e Rio Branco (AC).

Alimentos desaceleram

A boa notícia é que o indicador de maior peso no IPCA e no INPC, o Item Alimentos e Bebidas, aponta desaceleração. Após subirem 1,38% em janeiro, contra 0,42% do IPCA geral, os Alimentos e Bebidas desaceleraram para 0,95% em fevereiro, contra 0,83% no IPCA. As carnes bovinas, que têm um dos maiores pesos no IPCA e nas despesas das famílias seguem em baixa e estão segurando a inflação: caíram 0,58% em fevereiro e acumulam -0,50% no ano e -8,28% em 12 meses. Mas a autorização para 38 frigoríficos exportarem à China pode aquecer o mercado. Porém, como os chineses preferem as carnes dianteiras, os tipos mais nobres do traseiro (alcatra, filé, contra-filé e picanha) podem ainda ser oferecidos a preços moderados nos supermercados.

No INPC, que mede as despesas das famílias com renda até cinco salários-mínimos (R$ 6.600), os alimentos exercem maior pressão nas despesas. A taxa subiu de 0,57% para 0,81% em fevereiro, com taxa acumulada de 1,38% no ano, e de 3,86% em 12 meses. Em fevereiro de 2023, a taxa foi de 0,77%. Como no IPCA, as pressões altistas nos produtos alimentícios desaceleraram dos 1,51% de janeiro para 0,95% em fevereiro. A variação dos não alimentícios foi maior: 0,77% em fevereiro frente à alta de 0,27% no mês anterior.

IBGE

O exemplo dos EUA

O marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, cunhou a frase “É a inflação idiota” (stupid no original em inglês) para explicar ao atônito presidente George Bush (pai) porque não se reelegera e perdera para Clinton (Democrata), mesmo tendo sido aclamado herói um ano antes quando os aliados expulsaram as tropas de Saddam Hussein que invadiram o Kuwait. Os números ruins da economia corroeram a popularidade de Bush e levaram à derrota.

Pois a escalada da inflação dos alimentos em domicílio desde outubro explica a queda da popularidade do presidente Lula na última pesquisa do IPEC. Graças à supersafra de grãos, a alimentação em domicílio andou no terreno negativo praticamente de fevereiro até outubro (com uma alta especulativa em abril - +0,73% - como resultado do reajuste do diesel, combustível usado no transporte dos alimentos).

Em maio, os preços ficaram 0 a 0 e passaram, de junho a setembro no terreno negativo (quando houve a melhor avaliação do governo). Mas em outubro, com as notícias sobre o impacto do El Niño, a especulação agitou o mercado e gerou escalada nos preços dos alimentos. Como o ataque terrorista do Hamas a Israel ocorreu em 7 de outubro de 2023 e as falas de Lula, com o Brasil na presidência (rotativa) do Conselho de Segurança da ONU também começaram em outubro, as reações políticas às suas falas foram cozinhadas no caldeirão da inflação, subiu na direção inversa à queda de Lula nas pesquisas.

Agricultura familiar pede choque de tecnologia

Por coincidência as frutas, lideradas pela alta de 44,21% no preço da manga, tiveram a banana d’água, com alta de 8,652% no ano e a banana prata, com alta de 17,45%, entre as maiores escaladas nos preços dos alimentos. Pois, ainda assim, Lula não se cansou de atravessar a rua para pisar em calcas de banana na outra calçada...

Falando sério, as maiores altas nos alimentos vieram das frutas (laranja subiu 16,86% no ano), das hortaliças e dos legumes (a cenoura subiu 56,99%, seguido pelos 38,24% da batata inglesa). Todos são produtos de ciclo curto, sujeitos às intempéries climáticas, mas, sobretudo, dependentes de pequenos e médios produtores, vinculados à agricultura familiar.

No ano passado, em visita à China, Lula foi criticado por ter levado na comitiva o líder do MST, João Pedro Stedile. Mas a verdade é que os exemplos de máquinas e tecnologias criados na China para atender a pequena lavoura (comunitária) precisam ser copiados no Brasil. A indústria de máquinas produz equipamentos de última geração para as lavouras de ponta, apoiadas pelas pesquisas da Embrapa. Falta um esforço para amparar a agricultura familiar com novas máquinas e tecnologias para o aumento da produtividade.

O segmento carece, também de estruturas mais diretas e transparentes de comercialização e cotação de preços. Há muita influência dos atravessadores que especulam em momentos de estresse no mercado (quebras de safras, recompostas de quatro ou cinco meses), com enorme prejuízo do produtor e do consumidor. Na grande lavoura e pecuária, há a influência do mercado global.

OLM

Focus: mercado vê IPCA de 3,77% em 2024

Embora tenham errado nas previsões da inflação de fevereiro (pelas pressões atípicas de Educação e Comunicação), os economistas do mercado contatados na Pesquisa Focus do Banco Central (até 6ª feira, 8 de março) pouco alteraram a previsão para o IPCA deste ano, que subiu de 3,76% na pesquisa anterior para 3,77%, mas caiu para 3,75% nas respostas dos últimos cinco dias úteis. E a tendência é de forte queda da inflação em março (0,4% a 0,25%) e abril (0,35% a 0,33%). O mercado seguiu elevando a previsão do PIB, para 1,90% e manteve em 9,0% a projeção da Selic em dezembro (o Itaú elevou ontem sua projeção para 9,25%, a mesma do Bradesco) e em 8,50% para 2025 até 2027.

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