O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

IPCA-15: preços livres caem, sobem indexados

Publicado em 27/02/2024 às 15:20

Alterado em 27/02/2024 às 15:21

A alta de 0,78% no IPCA-15 de fevereiro tem duas leituras: a do copo meio cheio e a do meio vazio. No meio cheio, veio mais alto (+0,31 ponto percentual) que os 0,47% de janeiro, mas abaixo da mediana prevista pelo mercado (e pelo Itaú), de 0,82%, e vale ressaltar que a dinâmica da alta de preços foi puxada por indicadores com reajustes indexados pela inflação passada: a maior alta (5,07%) foi de Educação, pelos reajustes anuais em fevereiro, com alta de 6,13% nos cursos regulares. O reajuste será diluído ao longo do ano.

Educação contribuiu com 0,30 p.p. na taxa de 0,78%, superando os 0,20 p.p. representados pela alta de 0,97% em Alimentos em Bebidas, que desacelerou frente aos 1,53% de janeiro, com contribuição de 0,32 p.p. na inflação do mês passado. O 3º fator do copo meio cheio foi o calendário de reajustes em Comunicação: TV por assinatura subiu 4,02% e o combo de banda larga, TV, telefonia aumentou 3,29%, produzindo alta de 1,67% no item, que será diluído ao longo do ano e impacto de 0,08 p.p. no IPCA-15.

Outro item com forte participação de alta no IPCA-15 foi Saúde e Cuidados Pessoais, que subiu 0,78% (com impacto de 0,10 p.p. no índice), puxado pelos reajustes da apropriação mensal de 0,77% no reajuste anual dos planos de saúde, pela alta de 0,61% em produtos farmacêuticos e pela subida de 1,67% dos protetores solares (o que vai passar com o fim do verão).

O que merece destaque, pela leitura do copo meio vazio foi a desaceleração do ritmo de alta dos alimentos (+0,97% contra +1,53% em janeiro). O varejo começa a sentir as quedas no atacado pela não materialização, em nível mundial, dos temores de que o El Niño iria afetar as safras de grãos. As perdas no Sul do Brasil foram compensadas pela recuperação da produção na Argentina, após dois anos de seca.

As altas foram concentradas em cereais, leguminosas e oleaginosas (5,93%, mas já em desaceleração frente a janeiro, pois, em dois meses a alta é de 13,47%). Mas o excesso de chuvas no começo do ano afetou tubérculos, raízes e legumes (que acumulam alta de 22,51% em dois meses, mas em fevereiro tiveram alta de 9,31%, lideradas por cenoura (36,21%) e batata-inglesa (22,58%). Feijão-carioca subiu 7,21% e o arroz (5,85%), mas as carnes caíram 0,63%. Hortaliças e verduras (0,87%) e frutas (2,24%) desaceleram.

Itaú: boa surpresa em gasolina e passagens aérea

O Itaú, que esperava 0,82%, destacou as “surpresas baixistas em passagem aérea e gasolina” e assinalou que “o item combo de telefonia, internet e tv por assinatura veio acima das expectativas” (efeito férias e BBB?). Nos núcleos, os serviços subjacentes vieram em linha com as expectativas (de desaceleração gradual), enquanto industriais subjacentes vieram abaixo do esperado, puxados por vestuário.

Os itens que repetem a variação do IPCA-15 para o IPCA fechado do mês de fevereiro (passagem aérea, cursos, aluguel e condomínio, mão de obra, empregado doméstico, entre outros) vieram 5 bps abaixo da projeção do Itaú. Em resumo, para o Itaú, “o qualitativo dessa divulgação também foi melhor do que o esperado com surpresa baixista em industriais subjacentes (vestuário) e serviços subjacentes próximos do esperado. Na margem, a média dos núcleos acelerou para 3,9% (de 3,0%). Para 2024, projetamos IPCA de 3,6%.

Outro dado importante foi que o índice de difusão de preços em alta desacelerou de 67,03% no IPCA-15 de janeiro, para 65,25% no IPCA cheio do mês passado e desceu a 60,49% no IPCA-15 de fevereiro. O IPCA cheio será conhecido dia 12 de março.

Decompondo os reajustes em 12 meses, há nítida desaceleração nos preços administrados (estes completam em março um ano do início da reoneração de impostos federais e estaduais, cortados eleitoralmente de julho a dezembro de 2022, quando tendem a cair de patamar. Em fevereiro de 2023, quando o IPCA acumulava 5,63% de alta em 12 meses, os preços administrados estavam negativos em 2,57% e os preços livres subiam 8,62%.

Na leitura de fevereiro, o IPCA acumulava 4,49%, os preços administrados 8,67% e os preços livres apenas 3,17%. O item de maior contraste, depois dos preços administrados (sobretudo, combustíveis, energia elétrica residencial e comunicação) são os preços dos alimentos em domicílio. Mesmo com alta iniciada em novembro e dezembro, com ápice em janeiro, já se nota desaceleração e o grande contraste é que a alta acumula 1,16% em fevereiro, contra 11,85% dos alimentos em domicílios em fevereiro do ano passado.

Os preços industriais subiam 8,02% em fevereiro de 2023 e agora só 0,99%, em desaceleração. O mesmo ocorre em Serviços, que caíram de 6,36% em dezembro para 5,42% em fevereiro, contra 7,65% em fevereiro de 2023.

OLM

Na Focus preços caem em março e abril

E as previsões do mercado financeiro, segundo a Pesquisa Focus divulgada hoje pelo Banco Central são de continuidade da desaceleração da inflação em março e abril. A inflação menor não significa baixa dos preços (caracterizada por deflação), mas apenas um ritmo menos intenso de altas. Para fevereiro, o IPCA foi mantido em 0,765 na mediana até 6ª feira, 23 de fevereiro nas previsões dos últimos cinco dias úteis. Para março, (sem o impacto da educação e da comunicação) a taxa foi mantida em 0.24% (0,26% nos últimos 5 dias úteis). Para abril, a taxa ficou estável em 0,35%.

Isso significa que a inflação do 1º quadrimestre ficaria em 1,80%, contra 2,72% nos primeiros quatro meses de 2023.

PIB segue reajustado para cima

Às vésperas do IBGE divulgar, na 6ª feira, o resultado das Contas Nacionais Trimestrais do 4º período de 2023 – as apostas do mercado variam entre contração de 0,1% no PIB trimestral a alta de 0,1% - com taxa anual de 2,9% (na projeção do Itaú, a Agropecuária subiria 16,1%, a Indústria, 1,3% e os Serviços, 2,4%) -, o mercado financeiro segue reajustando para cima suas projeções para o PIB deste ano.

Com os bons números do crescimento real da arrecadação em janeiro, a taxa foi elevada de 1,68% para 1,75% na mediana do mercado (113 respostas) para 1,80% na mediana de 37 respostas nos últimos cinco dias úteis. A previsão do Ministério da Fazenda é de crescimento de 2,2%.

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