O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Trio da Americanas sofre como devedores

Publicado em 26/02/2024 às 15:11

Alterado em 26/02/2024 às 15:11

O nome da coluna lembra que sempre há o outro lado da moeda. E os balanços do 3º trimestre e dos primeiros nove meses de 2023, apresentados hoje pela Americanas S.A., em recuperação judicial desde janeiro de 2023, pelas bilionárias fraudes em balanços, com a não revelação de quase R$ 16 bilhões (D$ 15,910 bilhões) em risco sacado no final de 2022, mostram que o trio de bilionários, Jorge Paulo Lemann, Marcel Hermann Teles e Carlos Alberto Sicupira - que fizeram fortuna a partir da Corretora Garantia na arbitragem de taxas de juros nos anos 70 e 80 (quando viraram banco de investimentos e investiram no setor real (Lojas Americanas e Brahma, atual Ambev/Inbev) - agora penam, nas Americanas, se passando na pele de devedores.

A companhia, que fechou o 3º trimestre de 2023 com dívida bruta de R$ 38,372 bilhões (R$ 39,987 bi em 30.09.2022), dos quais R$ 15,902 bilhões (R$ 15,910 bi em 2022) eram de risco sacado (créditos de fornecedores com intermediação financeira, antes não especificado), espera reduzir ainda mais os empréstimos e financiamentos (R$ 15, 589 bilhões, contra R$ 17,386 bi em 2022) e avançar na recuperação judicial, a partir de 15 de março, quando começa a pagar credores até R$ 12 mil.

Em março, a Americanas quer fazer o leilão reverso (com preferência a quem der mais descontos) nas dívidas de maior valor, reduzindo-as de R$ 12 bilhões a R$ 6,7 bilhões, com desconto mínimo de 70% (a maior arbitragem de juros que o trio já fez).

No cronograma apresentado ao público, serão vários eventos em março e abril (a intenção é quitar as pequenas dívidas dia 1º de abril, com fornecedores de TI em 15 de abril e, em 29 de abril, com os credores comerciais de maior monta). Assim, em maio seria realizada a assembleia geral extraordinária (AGE) para aumento de capital e reestruturação societária para transformação de credores financeiros de R$ 12 bilhões em sócios.

Se tudo der certo, até o fim de maio a Americanas quitaria dívidas com os demais credores/fornecedores e em junho, ao fazer o Aumento de Capital/Reestruturação, com Emissão das Debêntures Americanas, haveria a Recompra de Créditos Quirografários relacionados à Opção de Reestruturação II. Tudo funcionando 100%, o endividamento cairia a R$ 1,875 bilhão.

Claro que nem tudo poderá sair como o figurino esperado, mas a adesão dos principais credores financeiros e a continuidade dos fornecedores, a princípio reticentes, dão segurança à proposta de recuperação judicial.

A queixa dos juros

Na abertura do “press release” que acompanha as Demonstrações Financeiras nos Fatos Relevantes divulgados ao mercado no começo da manhã desta 2ª feira, a companhia assinala, que, “apesar da leve melhora da economia brasileira ao longo de 2023, com a desaceleração da inflação, melhora nos níveis de desemprego e de confiança do consumidor, além do início do ciclo de corte da taxa de juros, esses fatores não foram suficientes para reverter o cenário de elevado endividamento familiar, inadimplência do consumidor e concessão de crédito restrita”

Segundo a Americanas, “este cenário afetou diretamente o desempenho de vendas do setor varejista em nosso país. Além disso, a Americanas viveu o evento mais adverso de sua história quase centenária, o pedido de Recuperação Judicial, que impactou significativamente a Companhia e alterou o curso dos negócios”. Ela prossegue ter tentado separar o ambiente da fraude contábil (sob investigação) das operações do dia a dia.

“A estratégia adotada foi de separar os assuntos de Investigação e Recuperação Judicial da operação, de forma a garantir que o time operacional, em um primeiro momento, estivesse integralmente focado em manter o diálogo frequente com os fornecedores e atender nossos clientes, possibilitando assim a retomada da capacidade de venda da Americanas”.

Redução de custos

Nos quadros evolutivos da comparação de janeiro a setembro de 2023 com janeiro a setembro de 2022, a companhia aponta “redução importante do consumo de caixa operacional, explicitando que mesmo com custos de R$ 2,1 bilhão na restruturação (Ebitda Ajustado (ex-IFRS)), houve redução de R$ 791 milhões frente aos R$ 2,894 bilhões no mesmo período de 2022.

 

A Evolução da Verdade na Americanas (R$ milhões)

Evento                 2021    2021R     2022    2023 (9M)

Lucro/Prejuízo  +544    -6.237    -12.912    -4.511

 

Depois que as fraudes contábeis de 2022, vieram à tona no começo de janeiro de 2023, quando o então novo presidente, Sérgio Rial, oriundo do Banco Santander, que presidira por vários anos, declarou haver não contabilização de operações de risco sacado de mais de R$ 12 bilhões no balanço e se demitiu, a Americanas, que só tinha publicados balanços até setembro de 2022, pediu e obteve Recuperação Judicial no TJ-RJ, em 19 de janeiro de 2023.

O balanço de 2021, que originalmente tinha apresentado lucro líquido de R$ 544 milhões, foi reclassificado, com perdas de R$ 6,786 bilhões e acabou produzindo prejuízo de R$ 6,237 bilhões. Já os números de 2022 resultaram em perda de R$ 12,912 bilhões.

Em 2023, com aportes do trio controlador, suspensão de pagamentos aos credores (financeiros, fornecedores e proprietários de lojas) e fechamento de 103 lojas até setembro, sobretudo as pequenas Local e Express) as perdas se reduziram de R$ 6,027 bilhões de janeiro a setembro de 2022 para R$ 4,611 bilhões no mesmo período de 2023. Uma redução de 23,5%.

Isso correu apesar da brutal queda de 45,1% na receita líquida de vendas, de R$ 18,741 bilhões nos primeiros nove meses de 2022 para R$ 19,293 bilhões em igual período de 2023. O segmento mais sensível foi das vendas “online”, com forte perda de confiança da clientela, temerosa da falência da empresa.

Inflação menor adoça biscoitos

O balanço da M. Dias Branco, um dos maiores processadores de trigo e massas derivadas do país, que registrou lucro líquido de R$ 889 milhões em 2023, com alta de 85% sobre os R$ 342 milhões de 2022, reflete o novo mix do grupo, que incorporou a carioca Piraquê e inovou na linha de massas e biscoitos, mas também o benefício da baixa dos preços de duas importantes matérias-primas na fabricação de massas e biscoitos: o trigo e o óleo de palma.

A invasão da Ucrânia pela Rússia provocou há dois anos uma alta violenta nos preços dos dois insumos muitos consumidos no processamento de alimentos. Mas, felizmente, os preços reverteram no mundo e em especial no Brasil com a supersafra de grãos. Segundo o balanço da empresa, o preço do trigo fechou 2023 24% abaixo de dezembro de 2022. Já o óleo de palma caiu 32% no período.

As baixas das matérias-primas adoçaram apenas os custos dos fabricantes. Os preços dos biscoitos e massas continuam salgados para o consumidor.

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