O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Balança comercial diferente em 2024

Publicado em 20/02/2024 às 12:43

Após o saldo comercial recorde de US$ 98,8 bilhões ano passado, segundo dados da Secex do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (pelos critérios do Banco Central o saldo da balança de bens foi de US$ 80,5 bilhões), os primeiros dois meses de 2024 revelam um movimento de exportações crescentes e um cardápio selecionado das importações que prenuncia um novo padrão para o crescimento do PIB este ano.

Do lado das exportações, até a 3ª semana de fevereiro, o complexo soja (grão, farelo e óleo) continua liderando as vendas do agronegócio, com exportações acumuladas de US$ 4,6 bilhões, um aumento de US$ 1,4 bilhão sobre o mesmo período de 2023 (sinal de que ainda há estoque se soja desde o ano passado). Os embarques de açúcar somaram US$ 2,6 bilhões, um aumento de US$ 1,4 bilhão sobre 2023, devido à escalada de preços no período. Já o milho teve pequena queda (US$ 0,4 milhão, contra 0,5 milhão em fevereiro.

Com sucessivos recordes de produção e preços mais elevados que há um ano, o petróleo assumiu a liderança geral das exportações com vendas de US$ 6,4 bilhões, um ganho de US$ 2,4 bilhões sobre o ano passado. As vendas de minério de ferro também cresceram US$ 1,1 bilhão para US$ 4,3 bilhões.

Os cinco principais produtos exportados somaram US$ 18,3 bilhões (US$ 12,1 bilhões em 2023). No ano passado somaram US$ 12,1 bilhões, porque não havia estoques agrícolas (a colheita da soja começou no fim de fevereiro). No total, as exportações somaram US$ 40,264 bilhões, com saldo de mais de US$ 10 bilhões sobre as importações, que acumularam US$ 30,037 bilhões.

Indústria reage nas importações

É justamente pelo lado das importações que se percebe a mudança do perfil da oferta e da demanda (esta vinculada à esperada recuperação da indústria e do comércio este ano, com níveis de juros mais palatáveis para o consumo e o investimento). As compras de combustíveis somaram US$ 1,9 bilhão nos dois primeiros meses do ano, com redução de US$ 0,8 bilhão frente a 2023. Vale notar que as importações de gás caíram 38% e as de óleo combustíveis 40%. Maior queda ainda em adubos e fertilizantes (ainda há grandes estoques especulativos de 2022), que somaram US$ 1,2 bilhão, menos da metade dos US$ 2,5 bilhões de janeiro a fevereiro de 2023.

O quadro fica mais nítido nas compras de insumos vinculados à indústria e ao comércio. Os gastos com componentes eletrônicos somaram R$ 1,3 bilhão no bimestre, contra US$ 0,7 bilhão em 2023. As compras ligadas às telecomunicações ficaram praticamente iguais (US$ 0,7 bilhão em 2024 e US$ 0,8 bilhão em 2023, com o Carnaval no começo de fevereiro pressionando menos as compras). As peças de automóveis repetiram US$ 0,9 bilhão. Mas as compras de máquinas e equipamentos cresceram 38%. Um sinal de que a nova política industrial estimula investimentos (depende de juros menores).

IBGE deve explicações

O Censo Demográfico de 2022 (adiado de 2020, devido à Covid, que se prolongou em 2021) foi muito mal realizado, com cortes de verbas e de perguntas nos questionários, determinados pelo então ministro da Economia, Paulo Guedes. Mas o que me espanta é que, passados sete meses da 1ª divulgação parcial da população brasileira, em agosto de 2023, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mantenha a população do país em 203,080 milhões de habitantes. Até agosto de 2022 éramos 216,5 milhões.

As mortes da Covid - até hoje não se sabe se foram mais que 700 mil, face à precariedade dos registros de “causas mortis”, sobretudo nas cidades onde houve hecatombe, como Manaus - não podem ter feito desaparecer 13 milhões de brasileiros (mais que um Portugal ou uma São Paulo).

Mas o impacto foi inegável: antes, o “relógio demográfico” do IBGE (que saiu do ar em agosto de 2022) registrava o aumento da população a cada 20 segundos; depois, caiu para 19 segundos. Agora não se sabe como está. A falta de precisão nos dados põe em xeque as políticas públicas pela não exatidão dos diagnósticos. Os casos de dengue nem foram pesquisados.

FGV alerta para números incertos

Ontem, ao divulgar o “Monitor do PIB” de dezembro, que antecipa a previsão de crescimento de 3% da economia em 2023 (o IBGE divulga oficialmente dia 1º de março), o Instituto Brasileiro de Economia da FGV pôs um alerta em nota de rodapé sobre a insegurança dos dados demográficos.

“1 Devido a divulgação dos dados de população no Censo Demográfico de 2022, foi utilizado para o ano de 2022 o dado oficial de população do Censo. Como os dados das Estimativas Populacionais do IBGE, utilizados para o cálculo de toda a série do PIB per capita, mostraram-se superior ao do Censo, optou-se nesta edição do Monitor por adotar os dados oficiais dos Censos Demográficos de 2010 e 2022 e a aplicação da taxa de crescimento média anual da população entre 2010 e 2022 para os anos entre esses períodos e o de 2023”, disse a nota do Ibre/FGV.

Assim, estranha-se que o presidente do IBGE, Márcio Pochmann, queira alterar estatísticas (de emprego, PNAD e indicadores sociais e de produção). O IBGE é uma usina de dados (indispensáveis para embasar políticas públicos e identificar carências). Para tal, precisa estar sempre atualizando o perfil da indústria, comércio e demais atividades. Mas tudo deve ser precedido dos dados sólidos do Censo Demográfico. Enquanto o Censo não estiver pronto, as divulgações parciais (como as de Características dos Domicílios, no próximo dia 23) ficam meio sem base de comparação com a real população do país.

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