O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

IPCA na meta não é gol do Copom

Publicado em 28/12/2023 às 17:46

Alterado em 28/12/2023 às 17:46

O IPCA-15, que é a prévia do IPCA cheio de cada mês, subiu 0,40% em dezembro, segundo o IBGE, e fechou o ano em 4,72%. As expectativas do mercado para o IPCA fechado, que será divulgado em 11 de janeiro, apontam para um IPCA acumulado de 4,60%, dentro do teto da meta do Banco Central. Mas o mérito de a inflação ficar dentro do teto (3,25%+1,50% de tolerância=4,75%) não pode ser comemorado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Ao manter os juros reais elevados, mesmo com a inflação em queda, o Copom desacelerou a economia neste segundo semestre e comprometeu o PIB de 2024.

A inflação desacelerou para dentro da meta por influência de dois indicadores mal avaliados pelo Banco Central. A supersafra de grãos fez os preços da alimentação subir apenas 0,83% no IPCA-15 (a carne caiu 9,26%, os óleos e gorduras, 13,74%, e os preços de aves e ovos ficaram 6,88% mais baratos), contra os 4,72% do índice (e o Copom ainda avaliou mal o impacto no PIB e na balança comercial, ambos subestimados); o outro indicador que ajudou a segurar os preços, mesmo com a reoneração dos impostos cortados em 2022 sobre combustíveis, energia elétrica e comunicações, foi o comportamento negativo dos preços das refinarias da Petrobras após a troca do sistema de PPI (paridade de preços internacionais) pelo abrasileiramento dos preços, conforme promessa de campanha de Lula.

A reoneração foi feita de forma escalonada a partir de março e em nível anterior a junho de 2022, quando foram cortados eleitoralmente os impostos federais e estaduais dos preços administrados mais críticos (a tarefa será completada no início de 2024). Mas o uso mais intenso do petróleo mais eleve do pré-sal nas refinarias da Petrobras, que operaram a pleno vapor, permitiu mais estabilidade dos reajustes (frequentes e intensos sob o PPI, impulsionando toda a cadeia da inflação). A deflação dos preços dos alimentos foi mais intensa porque os fretes ficaram mais estáveis. E os preços declinantes derrubaram a cotação do dólar, gerando círculo virtuoso.

O diesel baixou 22,5% nas refinarias, a gasolina ficou 8,7% mais barata e o GLP teve redução de 24,7% nas refinarias da estatal. O resultado disso é que a variação dos combustíveis domésticos ficou negativa em 5,39% no IPCA-15 de 2023, em grande parte pela ajuda da contenção do gás de cozinha. Já a energia elétrica subiu bem mais (8,96%) e contribuiu para a alta de 4,94% no Item Habitação, em 2023.

O Transporte teve alta de 7,67% no ano, mas não foi o item que liderou o IPCA-15 entre os nove pesquisados pelo IBGE. Os combustíveis, mesmo com a reoneração, tiveram queda de 23,69% no IPCA-15. Em compensação, as passagens aéreas aumentaram 48,11%, liderando a alta do ano. Mas as tarifas dos transportes públicos andaram na contramão da baixa dos combustíveis, com alta de 15,27%.

A maior alta foi de Educação (8,20%), puxada pelo reajuste das mensalidades em janeiro-fevereiro do ano passado, refletindo a alta de inflação de 2022, sem desconto dos impostos temporários em combustíveis, energia elétrica e comunicações. A terceira mais alta dentro do IPCA-15 veio do Item Saúde e Cuidados Pessoais (7,31%), mais uma vez liderada pelos aumentos de 11,56% dos Planos de Saúde. Os remédios subiram 5,92%. Outro item que subiu acima da inflação foi o de Despesas Pessoais (5,54%).

O único item a fechar o ano em baixa foi o de Artigos de Residência (-0,03%). O item Comunicações também ficou abaixo da variação do IPCA-15, com 2,85%, enquanto Vestuário teve variação de apenas 3,38%, bem abaixo da escalada do ano passado, mostrando a influência baixista do dólar no mercado de roupas e acessórios e em artigos de residência, com participação expressiva de bens importados.

Lições para o Copom
As críticas que esta coluna há muito vem dedicando ao Banco Central, pelo conservadorismo do Comitê de Política Monetária, que não tem mérito no fato de ter a inflação deste ano ficado dentro da meta, ap[os estouros em 2021 e 2022, parece estarem se disseminando pelo mercado financeiro (num eco tardio às reclamações do setor produtivo).

O próprio presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto parece ter abandonado a postura arrogante do início do governo quando ele, que votou e fez campanha para Bolsonaro, se mostrou arredio a trocar ideias com a equipe econômica chefiada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, arrogando-se no direito de cumprir o mandato de independência perante o Executivo, começou a entender que sua arrogância custou caro ao país. Mais que a queda da inflação foi derrubada a economia em 2024.

Além do exercício de humildade, deve fazer bem ao Copom a renovação do Colegiado, iniciada este ano com o ingresso de Gabriel Galípolo, ex-secretário-executivo da Fazenda, e de Aílton Aquino, funcionário do BC, e que se completa em janeiro com a posse de Paulo Pichetti na diretoria Internacional e de Rodrigo Teixeira na de Cidadania. Pichetti, com vasta experiência em acompanhamento macroeconômico no Instituto Brasileiro de Economia da FGV, deve reduzir os erros de avaliação do Copom. A melhora da acurácia nas projeções do Banco Central tender a fazer bem ao país.

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