O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Taxa de 0,28% em novembro põe IPCA na meta

Publicado em 12/12/2023 às 12:47

Alterado em 12/12/2023 às 12:48

Ao subir 0,28% em novembro (acima dos 0,24% de outubro, mas abaixo da média da expectativa do mercado, que era de 0,29%), o IPCA de novembro colocou a inflação de 2023 em 12 meses dentro do teto da meta, ao acumular 4,68%, contra 4,82% em outubro, já que a taxa em novembro de 2022 fora de 0,41%. O teto da meta é de 4,75% (3,25% de IPCA+ tolerância de 1,50%). Antes do IPCA de novembro, o mercado previa 4,51% para 2023.

Apesar de registrar mais do que o dobro da alta de outubro (+0,31%), o aumento de 0,63% nos preços da Alimentação e Bebidas, que superou pelo 2º mês seguido a alta mensal do IPCA, a baixa da alimentação (que esteve em queda de junho até setembro, mas sempre com números inferiores a 2022) produziu um índice acumulado negativo em 0,08% de janeiro a novembro, contra 4,04% do IPCA. Uma das pressões de alta foi a da cebola +26,59%.

Em 12 meses a alimentação subiu 0,57% contra 4,68% da inflação. A supersafra de grãos puxou dois itens para baixo: apesar da alta de 1,37% em novembro, as carnes bovinas acumulam baixa de 9,87% no ano e de 9,29% em 12 meses; já os óleo e gorduras (liderados pelo óleo de soja) caíram 16,41% no ano e 15,47% em 12 meses. Com a baixa dos alimentos, o peso da alimentação no IPCA, que era superior a 23%, caiu para 20,94%, igualando o peso dos Transportes (20,93%). Isso gerou mais renda para os mais pobres. O Itaú destacou a "composição benigna" do índice de novembro.

Quem analisa as tarifas?

O que segue preocupando é o processo de indexação. Os itens de serviços regulados pela inflação passada, sobretudo os preços administrados, estão com reajustes bem acima da inflação corrente, com alguns na casa dos dois dígitos, o que replica a inflação para 2024. Em Saúde e Cuidados Pessoais, os planos de saúde estão com reajustes de 12,01% em 12 meses. A tarifa de água e esgoto em Fortaleza teve reajuste de 14,43%. No Rio de Janeiro foi de 10,23%.

As passagens aéreas subiram 19,12% no mês, acumulando 36,45% em 12 meses. As diárias de hospedagem subiram 12,73% em 12 meses. O emplacamento e licença dos veículos tiveram alta de 21,33% e a energia elétrica residencial subiu 9,15% em 12 meses (parte pela recomposição dos impostos cortados eleitoralmente em 2022). Faltam transparência e rigor nas análises dos pleitos das concessionárias junto às agências reguladoras, que mais homologam do que discutem os valores e índices pedidos.

Quando menos pode ser mais

O economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, desenvolveu uma teoria interessante, senão, singular, para as reuniões desta semana do Federal Reserve e do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Nos Estados Unidos, mesmo com o otimismo dos investidores sobre a trajetória de inflação, o Fed deve sinalizar que será necessário manter os juros em níveis elevados para conseguir fazer com que a taxa de inflação convirja para a meta no horizonte relevante.

No Brasil, com a inflação já dentro do teto da meta, desaceleração dos núcleos, da inflação de serviços e serviços subjacentes, a expectativa dos investidores é quanto à sinalização dos futuros passos da política monetária. Enquanto o mercado trabalha com a hipótese de o Copom assinalar a continuidade da baixa de 0,50 ponto percentual na Selic (fecharia o ano em 11,75%) “nas próximas reuniões”, Camargo cogita da possibilidade de o Copom substituir o plural pelo singular (“na próxima reunião”) na indicação do futuro da Selic.

Em janeiro, novo Copom

Vale ressaltar que esta é a última reunião do Copom com a presença dos diretores Fernanda Guardado e Maurício Souza no colegiado. O mandato dos dois, que sempre se alinharam na ala mais conservadora, termina em 31 de dezembro e serão substituídos, respectivamente, por Pedro Pichetti, na área Internacional, e Rodrigo Teixeira, na diretoria de Cidadania. Caso o Comitê utilize o singular (em vez de frustração), poderia sinalizar “uma aceleração dos cortes de juros no futuro”.

Faz sentido, a nova composição do Copom começar janeiro (a reunião será nos dias 30 e 31), com baixa mais forte, para reanimar a economia. Mas José Márcio Camargo adverte: “com o cenário fiscal pouco definido e as expectativas desancoradas para a inflação em prazos mais longos, o Copom deverá manter cautela no comunicado”. Tudo depende do avanço das propostas de reforço da arrecadação junto ao Congresso pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, nas duas semanas até o recesso em 23 de dezembro.

Preferência pela carne mais barata

Em supermercados e açougues a carne bovina mais barata é a do dianteiro. Restrições de ordem religiosa aconselham judeus e muçulmanos a rejeitarem a carne traseira (do umbigo do boi para trás), por serem impuras e estarem mais próximas dos órgãos sexuais do animal. A China tornou-se o nosso maior comprador de carne bovina. Sobretudo após a febre suína africana atingir o país há sete anos e dizimar metade do rebanho de porcos, a carne preferida por mais de 50% dos chineses. Eles seguem quase os mesmos preceitos religiosos e dão preferência à carne do dianteiro (mais barata, caso do peito, do acém e da paleta dianteira, de onde se extrai o peixinho, falsa picanha servida em muitas casas de carne no Brasil).

Com a recuperação da oferta de carne suína no país, os chineses, que são econômicos, reduziram a pressão compradora e as cotações caíram ainda mais com a preferência pela carne do dianteiro. De janeiro a novembro as compras chinesas de carne caíram em preços e em tonelagem, com redução total de US$ 2,252 bilhões nas receitas, segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo). Isso provocou queda de US$ 12,239 bilhões nas vendas totais de carne bovina, em 2022, para US$ 9,754 bilhões este ano.

Os Estados Unidos, que também compram muita carne de dianteiro (mais barata) para fazer hamburguers, e atender à comunidade judaica, ampliaram sua participação nas exportações brasileiras. Mas foram só mais US$ 40,7 milhões. Na busca pela diversificação, o mercado que mais cresceu foi o chileno, com US$ 80,86 milhões. O comércio com o Chile, por terra, atravessando a Cordilheira dos Andes e a Argentina, gera logística interessante. Os caminhões frigoríficos levam carne bovina ou de frango e voltam com salmão e pescados.

A distância da China é tal que todo o ganho de Chile, Estados Unidos, Hong-Kong e Emirados Árabes Unidos (Dubai tem alto consumo em churrascarias) somou só US$ 172 milhões. Um nada frente às perdas para a China.

Picanha também não subiu

Mas há o outro lado da moeda: quando se mata um boi, se o dianteiro vai para a exportação e para as camadas mais pobres do mercado interno, sobra carne traseira. Grandes redes de supermercados, aproveitam para negociar com os frigoríficos e usam as ofertas de carne como chamariz à freguesia.

Os principais cortes são alcatra, maminha, contrafilé, filé mignon, lagarto plano e redondo, chã, músculo e a picanha. Como os preços estiveram em queda este ano e Lula pode cumprir parte da promessa eleitoral, de que os brasileiros iam voltam a se reunir em torno de um churrasco de picanha e cerveja.

OLM

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