Erros de previsão também nos EUA
Em meus 73 anos soube de muitas previsões catastróficas de Nostradamus de araque. Assis Valente fez um grande sucesso na voz de Carmem Miranda com “E o mundo não se acabou” (1938), que traça um perfil irônico de quem acredita a fundo em previsões apocalípticas e se dá mal. Em economia, ao longo de meio século, raramente tirei o chapéu para alguns gurus. Porque a maioria das previsões não se cumpre. E nem precia esperar muito.
O único guru que respeito é o “Dr.Catástrofe – Nouriel Roubini”, que previu o colapso financeiro mundial de 2008, em 2005, ao alertar que os “preços dos imóveis eram irreais”. Roubini, nascido na Turquia, de ascendência judaica e cidadania americana, custou a ser levado a sério. Só acreditaram nele quando explodiu a crise financeira mundial do “sub-prime” das hipotecas, do qual o mundo capitalista (e os bancos centrais) não se livrou.
Um guru doméstico, também dado a profecias catastróficas, era o jovem economista Paulo Guedes, que quando era consultor do Ibmec (que funcionava num anexo do MAM, derrubado para dar lugar ao Vivi-Rio, e que era bancado pela Bolsa do Rio, entidades financeiras e o Ministério do Planejamento). Guedes costumava chutar alto as projeções de inflação para o ano seguinte nos almoços de fim de ano do Ibmec, no restaurante do MAM. Dado o comportamento de manada de muitos operadores e investidores, as profecias de mercado, costumam ser autorrealizadas, ainda que parcialmente.
Errava muito para cima (mesmo alimentando a hiperinflação, as taxas de alta dos preços ainda ficavam bem abaixo do que previa). Porém, como já tinha um pé no mercado financeiro (era sócio da Distribuidora Pactual, que depois virou banco de investimento), podia errar como economista e ganhar como sócio-investidor. Sua previsão catastrófica antecedendo o Plano Cruzado (fevereiro de 1986) levou Luiz Gonzaga Belluzzo, que era um dos assessores econômicos do ministro da Fazenda Dilson Funaro, a batizá-lo de “Beato Salú”, o personagem de Nelson Dantas na novela “Roque Santeiro”, de Dias Gomes.
Por isso, é um grande risco para investidores do mercado financeiro fazer posições em ações, títulos de dívida, moedas, ou commodities a partir de previsões tipo fim do mundo de alguns gurus. Mais arriscado e tolo ainda são os investidores/crentes que caem na versão moderna do “conto do vigário”, o conto dos pastores e de “homens de Deus”, que prometem retornos astronômicos em aplicações financeiras em criptomoedas.
O caso do suposto pastor de Goiás que prometeu devolver quaquilhões (a moeda do Tio Patinhas) de euros é hilário se não fosse trágico. Mas os casos são recorrentes e abusam da ignorância financeira e da fé-alheia. Lembram do “Faraó dos Bitcoins”, um malandro, que era garçom em Cabo Frio, se converte a uma igreja evangélica para ganhar confiança dos irmãos e dos pastores que movimentam muito dinheiro? E dos artistas, sobretudo sertanejos, e jogadores de futebol que caíram em golpes semelhantes. Mas e o que dizer da vida pregressa do pastor Silas Malafaia, que há mais de uma década lançou um plano de compra da “Casa Própria no Céu” em prestações mensais?
Uma questão de proporção
Quem tem um mínimo de noção de economia, percebe que sai fora da realidade promessas de rendimentos de 10% ou mais mensais. Salvo na Argentina, onde a inflação está em três dígitos e sem freio. Caminho farto para as profecias catastróficas do candidato-economista Javier Milei, novo guru da ultra-direita. Paulo Guedes fez esse papel de mestre de cerimônia da candidatura Bolsonaro, posando de “Posto Ipiranga”. Sem poder fazer o que queria, sabotado de cara na reforma da Previdência, Guedes guarda mágoa do ex-chefe, enquanto participou esta semana de dois dias como palestrante ensinando estratégias de investimento num curso da corretora Primo Rico.
Por isso, chamaram atenção esta semana as previsões catastróficas de que o barril de petróleo do tipo Brent, cotado a US$ 93 para entrega em novembro, caminhava para US$ 100, nos próximos 12 meses, com a decisão da Rússia de Vladimir Putin de suspender exportações de diesel, gás e petróleo para verificar a garantia do mercado interno na largada do outono-inverno. Uma instituição respeitada como a corretora Goldman Sachs, projetava isso por seu departamento de pesquisas. Mas as projeções dos contratos futuros não apontam isso para os próximos três anos. Ao contrário, a tendência é de queda dos preços, mesmo que a Rússia e a Opep reduzam a oferta.
Cabe entender o que se passa no mercado mundial de petróleo e os impactos no Brasil. A instabilidade reinante deriva da invasão da Rússia à região da Criméia, na Ucrânia, na tentativa de garantir saída marítima do Mar Negro para o Mar Mediterrâneo, cruzando o estreito de Dardanelos, e das retaliações subsequentes da OTAN e dos Estados Unidos, que bloquearam bens de empresas russas em revide à suspensão do fornecimento de gás e petróleo pela Rússia aos países europeus. EUA e Canadá foram suprir a Europa.
Como o gás e o petróleo continuaram a ser extraídos do solo russo, surgiram países-laranja; Índia e Arábia Saudita, sobretudo, que passaram a comprar petróleo russo mais barato, refiná-lo e a vender os derivados mundo afora. O Brasil, que no governo Bolsonaro não aderiu ao boicote da OTAN (seguido por Coréia do Sul, Japão e Austrália, foi comprar diretamente óleo diesel, fertilizantes e outros derivados da Rússia.
Como estava em vigor a PPI (paridade de preços internacionais, criada no governo Temer, em 2016, os preços dos derivados no Brasil eram fixados pela média dos preços no Golfo do México (preços das refinarias texanas) e atualizados pela taxa de câmbio. Para os importadores que estavam sendo estimulados a morder mercado da Petrobrás, condenada pelos planos de privatização de Bolsonaro, a ficar apenas com 50% do refino (limitado às plantas do Rio e de São Paulo) – já tinha sido vendida a Landulfo Alves (BA) e estavam na lista das do Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Pernambuco, a margem dos importadores crescia ainda mais com o PPI, quando as matérias-primas eram importadas com descontos da Rússia.
Mas a nova política de preços da Petrobras, que leva em conta os preços mais baixos do petróleo do pré-sal (78% da produção nacional) e a maior utilização do parque de refino, operado a pleno vapor na gestão de Jean Paul Prates, tirou a vantagem comparativa dos importadores avulsos e de grandes distribuidoras. Em outras circunstâncias, haveria aumentos quase imediatos de preços, apenas com hipotéticos boatos. A Petrobras, que tem visão global do mercado, joga frio como um jogador de pôquer. Sabe que tem uma boa base e não se precipita à primeira jogada dos blefadores, mesmo que façam barulhos e espalhem pareceres mostrando defasagens de preços.
Petrobras podia ensinar ao BC
Pena que o nosso Banco Central, em especial o Comitê de Política Monetária, parece não entender os meandros do mercado de petróleo e derivados. O Copom, ao traçar seu cenário para manter os juros elevados desde agosto do ano passado – já quando Paulo Guedes, para aumentar (sem sucesso) as chances eleitorais de reeleição de Jair Bolsonaro, tratou de cortar os impostos federais e estaduais dos combustíveis, energia elétrica e comunicações, a partir de julho de 2022 - apostou integralmente na recomposição dos impostos federais e estaduais a partir de 1º de janeiro e na manutenção da PPI.
O governo Lula prometera uma nova política de preços da Petrobras e a Petrobras cumpriu com grandes ganhos ao país. Por não dialogar com a equipe econômica, num excesso de preciosismo de sua independência ao poder Executivo – como um 4º Poder – o Banco Central errou ainda ao não avaliar com previsão o impacto benéfico da supersafra de grãos para derrubar a inflação dos alimentos (negativa até agosto) e fixou o sarrafo dos juros em níveis muito elevados, que estão garroteando a economia. Já podia ter baixado os juros em 0,75%. Consertar os erros depois da obra feita, não adianta.
Ver para crer
Quando o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que iria impor ordem às operações das empresas de comércio eletrônico que abusavam do limite de importação de bens (pessoas físicas a pessoas físicas) até US$ 50. Foi alvo de muitas críticas. Gente embasbacada pelo excesso de liberalismo (que tira receitas para atender programadas sociais voltados aos carentes), só pensava no seu próprio umbigo (que ficaria mais caro comprar roupas e acessórios da Shein e congêneres).
Poucos cogitaram na possibilidade de as gigantes nas compras online criarem uma cadeia de fornecedores no país, gerando emprego e renda. Pois o Programa Remessa Conforme anunciou esta 6ª feira, no Diário Oficial da União, a adesão do Mercado Livre e da Shopee. Shein, AliExpress e Sinerlog já tinham sido habilitadas. A Amazon requereu adesão, mas ainda falta ser formalizada no DOU.
Até a semana passada, as empresas certificadas no programa representavam cerca de 67% do volume de remessas enviadas ao país, segundo informou a Receita. Para conter a sonegação tributária, o Remessa Conforme zera o Imposto de Importação nas transações de até US$ 50 para as varejistas aderentes que cobrarem os tributos no momento em que o produto é adquirido - antes, a cobrança só ocorria quando a mercadoria chegava ao país.