Após S&P, Focus derruba IPCA e Selic

Por Gilberto Menezes Côrtes

A semana que passou fez a visão cautelosa do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) ser ultrapassada pelos fatos. Como enumerou a Genial Investimentos, a pesquisa Focus do BC mostrou uma queda das expectativas para a inflação em horizontes mais longos, 2025 e 2026, de 4,0% para 3,90% e de 4,0% para 3,88% em 2025 e 2026, respectivamente. E O IBC-BR, o índice de atividade do BC para o mês de abril surpreendeu positivamente os analistas, que esperavam estabilidade, com crescimento de 0,56% frente a março. Por fim a Standard and Poor’s melhorou a avaliação de risco do país.

Pois a semana em que o Copom decide, com reuniões amanhã e 4ª feira, o destino da política monetária, a Pesquisa Focus trouxe dados ainda mais otimistas, com queda da inflação (e deflação em junho), aumento do PIB e redução das previsões da Selic para dezembro de 2023 e dezembro de 2024. No mínimo, segundo a Genial, ainda que o Copom mantenha a Selic em 13,75%, há “expectativa de mudança no discurso, onde poderá indiciar o início do ciclo de afrouxamento monetário”.

Como o Copom procura sempre alertar o mercado sobre os próximos passos, a expectativa é de que no comunicado de 4ª feira indique o cenário de agosto, repassando os avanços de expectativas: o IPCA de 2023 se reduziu de 5,42% (5,26% nas previsões dos últimos cinco dias úteis) para 5,12 (5,07% - o teto da meta de 2023 é de 4,75%); e para 2024 caiu de 4,04% para 4,00% (3,96% na mediana dos últimos 5 dias úteis). Há um mês a taxa esperada era de 4,13%. Com 3,96% o IPCA de 2024 está dentro do teto da meta de 4,50%.

Vale notar que depois da nova redução da gasolina pela Petrobras, seguindo a nova política de preços da companhia, que aproveitou a valorização do real, o mercado reduziu de 0,20% para -0,04% a previsão do IPCA de junho, sendo de -0,07% as projeções dos últimos cinco dias.

Já o PIB foi revisto para cima, após a indicação do IBC-Br do Banco Central apontar 6ª feira expansão de 0,56% em abril, no 1º mês do 2º trimestre: o mercado revisou de 1,84% para 2,14% a taxa de expansão do PIB deste ano (2,19% nos últimos cinco dias úteis), mas reduziu de 1,27% para 1,20% (1,19% nos últimos cinco dias) a taxa esperava para 2024. Se a Selic cair, o PIB sobe.

Selic: 12,25% em 2023 e 9,50% em 2024

Essa mudança rápida de cenário levou o mercado a revisar para baixo as projeções da taxa Selic do próximo ano: de 10%, para 9,50 (nas projeções dos últimos cinco dias da semana passada, o mercado já arriscava 9,75% há uma semana).

A título de comparação, vejamos o que indicava a Focus de 24 de fevereiro: o mercado chegou a elevar a Selic de dezembro de 2023 para 12,75% (de 12,50%) e a taxa de 2024 foi elevada de 10% para 10,25% (nas projeções dos últimos cinco dias úteis). Agora, o mercado reduziu a projeção deste ano de 12,50% para 12,25%. Isso indica que as primeiras reduções seriam em 2 de agosto. E a taxa de 2024 cairia para 9,50%, com o IPCA deste do teto da meta.

Meta de inflação e novo Copom

Por sinal, o mercado já não espera que o Conselho Monetário Nacional altere as metas de inflação de 2024 e 2025 (3,00%+ tolerância de 1,50%= 4,50%) em sua reunião deste mês. Restaria prever a meta de 2026, que não contaria mais com Roberto Campos Neto na presidência do colegiado, pois seu mandato expira em 31 de dezembro de 2024.

Até lá, parte da diretoria formada no governo Bolsonaro já terá sido trocada, a começar pela diretoria de Política Monetária – vaga desde meados de março – que deve ser ocupada pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Gabriel Galípolo – e a diretoria de Fiscalização, a ser ocupada por Ailton Santos. Em 31 de dezembro deste ano expiram os mandatos de Maurício Moura, diretor de Assuntos Corporativos, e de Fernanda Guardado, da Área Internacional. No final de 2024, também terminam os mandatos de Carolina de Assis, diretora de Administração, e de Otávio Damaso (Regulação).

Diogo Guillen, diretor de Política Econômica, e Renato Gomes, diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução) têm mandato até 31 de dezembro de 2025. Guillen, que acumula a diretoria de Política Monetária do BC desde março, é o maior responsável pelos erros de previsões do Copom.

Queda da inflação chega ao varejo

Depois do IGP-10 (medido pela Fundação Getúlio Vargas) até o dia 10 de junho, cair 2,20% no mês, o levantamento semanal dos preços ao consumidor divulgado nesta 2ª feira, 19 de junho, apontou deflação de 0,17%, o primeiro movimento negativo de queda no varejo, refletindo as fortes baixas dos alimentos no atacado, bem como bens industriais ligados à cadeia do petróleo e gás. Em 22 de maio, o IPC-S registrava alta mensal de 0,45%.

Das sete capitais pesquisadas pela FGV, apenas Recife registrou alta (0,14%). As maiores baixas ocorreram em Brasília (-0,73%) e Porto Alegre (-37%). São Paulo, a maior concentração urbana do país, teve queda de 0,01%. No Rio de Janeiro, a baixa foi de 0,05% e em Salvador, de 0,24%.

Na visão da LCA Consultores, o IPA-Agropecuário continuará em deflação em junho, com novas quedas de milho, trigo, soja, uva, café, laranja e bovinos, mas em menor intensidade. Mas a consultoria projeta altas relevantes de batata-inglesa e de algodão. Já o os preços industriais terão quedas menos intensas em junho, pois Indústria Extrativa e Produtos derivados do petróleo e biocombustíveis perderão parte de seu ímpeto deflacionário.

IPCA abaixo de 3%!

Sobre o varejo, a LCA espera quedas relevantes de Alimentação, Educação, leitura e recreação e de Transportes, o que manterá o IPC em terreno negativo em junho. Na previsão do Boletim Focus, junho terá deflação de -0,04% a -0,07%. Isso derrubaria a taxa em 12 meses do IPCA de 3,94% para 2,85%, no mínimo. Sem alteração na taxa Selic, o juro real superaria os 10%!.

Mesmo com a entrada do 3º trimestre, quando houve deflação de 1,32% de julho (-0,68%), agosto (-0,36%) e setembro (-0,295), não há previsão do estouro previsto pelo Copom que adotou atitude defensiva. Para julho a Focus apontou alta de 0,30% e de 0,22% para agosto. No máximo, o IPCA em 12 meses ficaria abaixo de 4,50% em agosto. Para setembro, não superaria os 5%.