Pré Galípolo, Copom já debate juro real neutro
Pode parecer irrelevante, mas antes mesmo da indicação de Gabriel Galípolo, secretário-executivo do Ministério da Fazenda e nº 1 de Fernando Haddad, para o cargo de diretor de Política Monetária do Banco Central, com uma visão menos ortodoxa, a Ata da reunião de 3 de maio, divulgada hoje pelo BC, revela que o Comitê de Política Monetária discutiu a possibilidade de aumentar o juro real neutro na reunião. Há divisão no colegiado, a ser explorada por Galípolo.
Conforme a definição da própria ata do Copom, no item 7 (para um total de 23 itens): ”A taxa neutra real de juros é aquela em que, na ausência de impacto de outros fatores, a taxa de inflação permanece estável e o produto cresce de acordo com seu potencial, refletindo os ganhos de produtividade e mudanças nos fundamentos estruturais da economia”. Hoje, a taxa de juros real considerada neutra no Brasil estaria na faixa de 4%.
IPCA menor faz juro real passar de 9%
Entretanto, com a Selic em 13,75% ao ano desde agosto e o IPCA acumulado de 4,65% em março, o juro real subiu a 8,7%. O dobro da taxa neutra. Mas o IPCA de abril, que o IBGE divulga 6ª feira, projeta nova desaceleração da inflação em 12 meses (pela queda na taxa mensal – a média do mercado espera 0,55%, mas há previsões menores: a LCA prevê 0,37% - e a substituição da taxa de 1,06% de abril de 2022, gerando alta do juro real.
Na 1ª hipótese, a inflação em 12 meses cairia para 4,121% e faria a taxa de juros real subir a 9,2%. Na 2ª hipótese, se a previsão da LCA se confirmar (nas últimas previsões a taxa ficou ainda menor que a prevista pela consultoria), o IPCA em 12 meses desce a 3,99% (pela 1ª vez abaixo de 4%, desde os 3,92% de outubro de 2020). Entretanto, essa inflação, elevaria a taxa de juro real para 9,27%. Mais do que o dobro da taxa de juro real neutro aceitável.
Copom explica o medo do 3º trimestre
Na ata do Copom soou até exagerada a explicação do Copom no item 12 para o desce e sobe da taxa acumulada de inflação entre o 2º trimestre e o 3º trimestre: “Em termos de trajetória de inflação ao consumidor ao longo de 2023, ressalta-se que se espera uma queda relevante na inflação acumulada em doze meses ao longo deste segundo trimestre em função do efeito base do ano anterior. No segundo semestre de 2023, como os efeitos das medidas tributárias que reduziram o nível de preços no terceiro trimestre de 2022 [quando houve deflação de 1,32%] não estão mais incluídos na inflação acumulada em doze meses e ainda se terá a inclusão dos efeitos das medidas tributárias deste ano, se observará elevação do mesmo indicador. O Copom, portanto, enfatiza que tal comportamento não reflete a dinâmica inflacionária subjacente e nem altera a visão sobre as perspectivas futuras”.
Aqui uma observação relevante. Os cortes nos impostos federais e estaduais (ICMS) impostos pelo ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, para tentar aumentar as chances de reeleição do presidente Jair Bolsonaro (deu Lula, que agora tentar recompor as finanças federais e estaduais com um mínimo impacto na inflação) foram os grandes responsáveis pela derrubada do IPCA a 5,79% em dezembro de 2022. Nada de mérito da Selic, que fez apenas desacelerar a taxa de crescimento do PIB, de 3,5% para a faixa de 1%.
É estranho que, em nome da coerência com seus princípios, o Copom não tivesse feito críticas às medidas fiscais expansionistas do governo Bolsonaro (renúncia fiscal e distribuição de benesses aos eleitores, via Auxílio Brasil e mesadas a caminhoneiros e taxistas), como faz hoje ao governo Lula por estender o gasto social, negligenciado por Bolsonaro.
A divisão no Copom
Prossegue o Item 12: “Ao avaliar os fatores que poderiam levar à materialização de cenário alternativo caracterizado por uma taxa de juros neutra mais elevada, enfatizou-se a possível adoção de políticas parafiscais expansionistas, que têm o potencial de elevar a taxa neutra e diminuir a potência da política monetária, como já observado em comunicações anteriores do Comitê”.
“Ainda em seu debate sobre a taxa de juros neutra vigente na economia, alguns membros levantaram um outro aspecto, agora relativo à conjuntura recente de dados econômicos. Tais membros ressaltaram que a conjuntura marcada por uma possível elevação das taxas de juros neutras nas principais economias, resiliência na atividade brasileira e um processo desinflacionário lento poderia ser compatível com uma medida de taxa neutra mais alta do que aquela utilizada pelo Comitê” [o Copom já está justificando a alta do juro real neutro].
“Nessa linha de argumentação, por consequência, incorrer-se-ia em um impacto menos contracionista do atual aperto monetário do que o implícito em seus cenários. Entretanto, a maioria dos membros do comitê julgou que essa interpretação ainda parece prematura e necessita de corroboração maior dos dados”. [é este debate que Galípolo precisa aprofundar no Banco Central e no Copom, pois a teoria, levantada por alguns está sendo comprovada na prática].