O fator externo pode ajudar em 2023?

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Por Gilberto Menezes Côrtes

Gilberto Menezes Côrtes

A participação conjunta do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, no Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça), marcou importante mudança na imagem que o Brasil pretende no governo Lula. Após quatro anos de afastamento da agenda climática, com a destruição dos mecanismos de controle do meio ambiente da região Amazônica, que custaram a suspensão da ajuda internacional de Noruega e Alemanha ao Fundo Amazônia e o bloqueio de mais de R$ 3,8 bilhões do fundo, o Brasil voltou à mesa de negociações com compromissos arrojados.

Nos quatro anos de governo Bolsonaro, o ex-presidente só compareceu ao 1º evento, em janeiro de 2019, quando leu um curtíssimo discurso e não expôs claramente o que pretendia. Ficou preso a uma agenda ideológica que não combinava com os padrões ESG (preservação ecológica, responsabilidade social e governança, na sigla em inglês) que viraram mantras das grandes organizações empresariais globais. Coube ao ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, desembrulhar as intenções brasileiras nos eventos seguintes.

A declaração da pandemia da Covid-19, em março de 2020, dois meses após o Fórum, provocou a suspensão do evento em 2021. Ele retornou em janeiro de 2022, com as escaramuças entre a Rússia e a Ucrânia no radar, que se materializaram em 28 de fevereiro, com a invasão da Ucrânia pelo exército russo. Agora, o mundo econômico discute como superar os impactos da guerra prestes a completar um ano, e a agenda de transição energética mundial.

Por feliz coincidência, o Brasil retorna à ribalta tendo planos e compromissos grandiosos a oferecer em matéria de preservação ambiental. Antes havia a liberdade e incentivo para destruição da floresta e a permissão para exploração de garimpos em terras indígenas. O que isolou o país, que se aliou ao governo Trump, na saída dos Estados Unidos no Acordo do Clima.

O governo Lula recompôs o Ministério do Meio Ambiente com uma ambientalista respeitada mundialmente como Marina Silva, que retoma as funções de supervisão e controle do IBAMA e demais órgão da pasta, e criou o simbólico Ministério dos Povos Originários, confiado a uma índia, a deputada federal Sônia Guajajara, num respeito tardio a quem habitava as terras brasileiras há milênios.

Pode parecer pouco, mas os gestos na recuperação da agenda do meio ambiente e nos compromissos da transição energética estabelecidos pela COP-27, são levados na devida conta pelos países mais desenvolvidos e as grandes corporações mundiais. Dono do 5º maior território mundial e a 6ª nação mais populosa (215,5 milhões), o Brasil voltou às mesas de negociações com propostas sérias que pesam tanto quanto intenções de ajuste fiscal.

Os gravíssimos atentados terroristas de 8 de janeiro, em Brasília e outros pontos do país, recomendaram que o presidente Lula evitasse ir à Suíça para reforçar os compromissos democráticos dos Três Poderes da República. Mas Lula, que estará presente na próxima reunião do G20 (o grupo das 20 maiores economistas mundiais), deve assumir, em 2024, a presidência do G20, o principal foro de governança económica global, reunindo as maiores economias desenvolvidas e emergentes. E estará em Davos em janeiro de 2024, ano em que o país participará de muitas discussões sobre a governança mundial.

Quem paga a conta ambiental?

Marina Silva retomou as discussões da agenda ambiental com representantes da União Europeia que tanto podem facilitar as negociações comerciais envolvendo produtos agrícolas brasileiros (em vias de serem retaliados pelo bloco, sob acusações de desleixo com o meio-ambiente e serem originários de áreas devastadas da floresta amazônica).

Pode parecer hipocrisia (e é), virem os europeus, que destruíram suas florestas nos últimos 300 anos, exigir que os emergentes (o grupo sul-americano que tem parte do bioma amazônico, sendo que 67% estão no Brasil, mais os países da África Tropical e da Ásia que concentram as florestas tropicais, sobretudo Indonésia e Malásia) poupem sozinhos as suas reservas nativas.

Marina Silva sugeriu que os países ricos deveriam desembolsar US$ 100 bilhões para que as nações emergentes possam fazer a transição energética/climática sem sacrifício de seus atuais meios de produção, que afetariam diretamente a geração de empregos. Pode ser utópico, mas é uma troca justa. O Brasil e os vizinhos poderiam ter acesso a boa parte do montante, assim como nações como a República do Congo e Indonésia.

Se as nações mais ricas da Europa (como Alemanha, Noruega, Holanda e Dinamarca, por exemplo) temem que o aquecimento global acelere o derretimento de gelo dos polos Norte e Sul, elevando as águas dos oceanos e provocando destruição nas cidades costeiras (que se repetiria nos quatro continentes), é preciso um pacto global para evitar a marcha da insensatez.

Revendo as promessas de Guedes

Todos devem estar lembrados que durante a campanha eleitoral, após ter antecipado medidas para fazer o PIB crescer mais até o 3º trimestre, e reduzir (via baixa de impostos federais e estaduais) os preços dos combustíveis, energia elétrica e comunicações no mesmo período, o ministro da Economia, Paulo Guedes, se gabava de que o Brasil ia apresentar crescimento superior à economia mundial e inflação abaixo à da Europa e dos Estados Unidos.

Os dados de dezembro do índice de preços ao consumidos dos EUA, que acumularam alta de 6,4% e de 5,7% no núcleo da inflação (excluídos os preços da energia, impactados pela guerra da Rússia na Ucrânia), e do PIB da China, com alta em torno de 3% no ano passado, mostram que não é bem assim.

Os dados do PIB brasileiro, com queda esperada de 0,3% no 4º trimestre (previsão do Itaú), levam o número final do ano para 2,8% (abaixo da Cina e dos 2,9% previstos para a economia mundial. Na inflação, excluída a mágica da redução dos preços administrados (que caíram mais de 5% em 2022), em vez da inflação ficar em 5,8%, chegaria a 9,56%, segundo indicou o IBGE. O pior é que a antecipação de medidas para turbinar a economia em 2022, durante o processo eleitoral, solou o PIB para 2023, que a LCA Consultores estima em 0,5% (o Santander prevê 0,8%). E há pressões para retorno dos impostos.

Recuperação da China pode ajudar

Mas a LCA, ao apresentar, ontem, o cenário mundial para 2023, deu indicações de melhoras. Ela prevê que o Fed (o Banco Central dos Estados Unidos já reduzirá de 0,50 ponto percentual para 0,25 p.p. a alta dos juros no país e fará o último aumento de 0,25 p.p. em 22 de março, ficando o juro americano entre 4,75% e 5%.

Nesse cenário, a LCA prevê “que a recaída recessiva na economia norte-americana terá intensidade e duração moderadas – entre outras razões porque o balanço financeiro das famílias continua favorável, num contexto de baixo comprometimento da renda com o pagamento de dívidas e elevado volume de poupança acumulado durante a pandemia”.

E a recuperação da China pode crescer este ano. Otimista, o holandês ING prevê crescimento de 5%. Os mais pessimistas preveem 3%. A LCA projeta 4,2%, com o retorno gradual da abertura da economia recompondo as importações e o fluxo das cadeias produtivas mundiais. Os riscos não desapareceram, mas estão mais suaves do que no final do ano.