O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Ano do urso: juros sobem no telhado

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Publicado em 28/11/2022 às 12:35

Alterado em 28/11/2022 às 12:35

Gilberto Menezes Côrtes JB

O mercado financeiro mundial sempre foi regido pelo movimento de dois animais símbolos de Wall Street. O touro e o urso. O touro, cujos ataques são de baixo para cima, com os chifres, simboliza os movimentos de altas. Já o urso, que ataca quando fica de pé, de cima para baixo, representa os movimentos de baixa. A maioria dos investidores celebra a temporada de “bull market”, quando as projeções são de valorização das ações e outros ativos. Mas há quem também saiba ganhar dinheiro nas temporadas de “bear market”, de mercado em baixa. Geralmente, os ciclos de alta são bem mais duradouros e intensos que os breves e menos intensos movimentos baixistas.

A famosa corretora Merril Lynch tinha o touro como seu símbolo. Já o urso foi adotado como símbolo e nome do banco de investimentos Bear and Stearns Companies Inc. Ambos não resistiram à maior crise financeira de Wall Street, a do sub-prime de agosto-setembro de 2008. Sem liquidez, o Bear and Stearns, foi comprado pelo JP Morgan Chase por US$ 236 milhões (cerca de 10% de seu valor de mercado anterior à crise). Já o touro da Merril Lynch foi comprado pelo Bank of America. Quem conhece o DNA do Chase e do BofA, sabe que as estruturas atuais nada tem a ver com os desenhos originais. Antes do fim do século passado o banco dos Rockfeller tinha mudado de mãos (assim como o Citibank, depois da desregulamentação bancária dos Estados Unidos) e o banco de São Francisco, fundado por Amadeo Gianini, e que serviu de inspiração ao Bradesco, passou, em 1998, ao controle do Nations Bank, que mudou a sede para a Carolina do Norte. Curiosamente, o BofA, que era um banco do pequeno depositante, mudou radicalmente o perfil após ser absorvido pelo Nations e virou um big administrador de fortunas no mundo e adotou o slogan de “Bank of Opportunity” (alô Daniel Dantas).

Por que estou falando de touros e ursos, caro leitor? Por um motivo simples e que torna ainda mais complicada a situação do mercado financeiro em 2023, diante das incertezas das políticas econômica, fiscal e monetária no início do governo Lula: a Goldman Sachs, o maior banco de investimento americano decretou que 2023 será o “ano do urso”. Ou seja, o mercado estará em baixa diante da previsão de alta dos juros para conter a inflação (ainda que o Fed tenha moderado seus alertas para os “fed funds” no próximo ano). A instabilidade do mercado de moedas, da bolsa e das commoditties, além, claro, dos juros futuros tende a tornar mais complicado o horizonte dos gestores e investidores brasileiros.

Focus aponta Selic maior em 2023

A Pesquisa Focus, captada junto a mais de uma centena de instituições financeiras, consultorias e institutos de pesquisa e divulgada hoje pelo Banco Central apontou novas elevações para a inflação deste ano (5,91% a 5,93% nas projeções dos últimos dias úteis) e para 2023 (5,01% e 5,00%, respectivamente), com o PIB evoluindo 2,81% este ano (2,78% nos últimos cinco dias úteis) e 0,70% e 0,74%, respectivamente, para 2023.

Mas o dado mais relevante na reversão de expectativas é de que a Selic, que está em 13,75% desde junho, e era esperada uma redução para 11,25% em dezembro de 2023, com os primeiros movimentos de baixa já no fim do 1º semestre (21 de junho), antes do 2º turno da eleição, teve nova previsão de alta, de 11,50% para 11,75%. E agora as previsões são de que a primeira redução da taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom) só venha a ocorrer em 2 de agosto.

Mágica do PIB não chegou à Black Friday

Já foi dito que o ministro da Economia, Paulo Guedes, fez um pacote eleitoral engenhoso para turbinar o crescimento da economia (e a redução do desemprego e da inflação) até as eleições. Isso foi feito mediante antecipações do pagamento do 13º dos aposentados do INSS em maio e junho, saque de até R$ 1 mil do FGTS, reduções temporárias (até 31 de dezembro) de impostos (sobretudo ICMS dos estados e municípios) sobre combustíveis, energia elétrica e comunicações e toda a sorte de estouros do Orçamento para destinar R$ 42,5 bilhões aos eleitores, mediante o artifício do “estado de emergência” para comportar o aumento do Auxílio Brasil de R$ 400 para 600 e pagamento de mesadas de R$ 1 mil a caminhoneiros e taxistas. Mas o que não estava claro era de que o truque tinha se esgotado até do 2º turno.

A volta da inflação em outubro (+0,59%), revelada em 11 de novembro, após três meses que acumularam deflação de 1,33%, foi o primeiro sinal. A queda das vendas do comércio e da produção industrial eram outros sintomas. Mas a prova dos nove foi dada pelo “pior Black Friday em 12 anos”, segundo o relatório de monitoramento da Confi Neotrust em parceria com a ClearSale, que apontou o recuo de 28% nas vendas online em todas as regiões do país, mesmo tendo como base de comparação o fraco ano de 2021 (em recuperação das perdas da pandemia).

Há vários motivos: o efeito de dispersão da Copa e a antecipação de promoções ao longo de outubro e novembro, são fatores imediatos, mas o horizonte dos consumidores é de desconfiança com a deterioração do cenário macroeconômico e dos temores em relação ao cenário de 2023. Faltas os dados das grandes lojas varejistas. Mas o fato é que o ano do urso já mostrou as garras.

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