O OUTRO LADO DA MOEDA
Lula e a volta da velha negociação
Publicado em 10/11/2022 às 17:53
Alterado em 10/11/2022 às 17:53
Lula Foto: Folhapress / Roberto Sungi
|
A diferença de estilo é cristalina. Em 2018, impulsionado pelo mote da “nova política”, propagado por Paulo Guedes, Jair Bolsonaro, que na campanha fustigava os políticos do “Centrão” (onde sempre militou em 21 anos na Câmara), acolitado pelo general Augusto Heleno, acreditou que iria governar só com o apoio de bancadas temáticas: da bala, agronegócio e evangélica. Sem habilidade política, pilotou o país por 46 meses em conflitos permanentes.
Derrotado - mesmo com uso desmedido da máquina pública e estouro de gastos em nome de uma “emergência econômica”, aprovada pelo Congresso, embora na campanha o ministro da Economia dissesse que “o Brasil estava bombando” e “cresceria mais que a China” - Bolsonaro entrou em mutismo quase total para lamber as feridas. O pacote de bondades eleitorais perdeu fôlego. Após três meses de deflação (-1,33%), a inflação subiu em outubro (0,59%), mas o eleitor só descobriu isso 10 dias depois de votar no 2º turno. (Com relação ao pódio dos PIBs, a China cresceu 3,2% e o Brasil, 2,5%).
Nos poucos dias de movimentação da equipe de Transição de Lula em Brasília, para levantar a real situação fiscal e administrativa do país, após Bolsonaro desviar recursos de programas sociais para turbinar gastos na sua reeleição, ficou clara a habilidade política de Lula para a velha e necessária negociação política, pondo algodão entre cristais. Em dois dias de negociações com as presidências da Câmara e do Senado e a cúpula do Supremo Tribunal Federal, o presidente eleito pacificou uma relação de conflito entre os três poderes.
A pacificação, que surge da negociação política, é fundamental para gerar ambiente capaz de viabilizar as promessas de campanha (ambos prometeram manter o Auxílio Brasil em R$ 600 e reajustes reais para o salário mínimo) em meio a um Orçamento fictício e inconcluso para 2023, que só previa verba de R$ 405 mensais para o AB, que Lula rebatizará de Bolsa Família. A negociação é inerente ao “múnus político”. Jair Messias Bolsonaro, um insubordinado desde a caserna, jamais entendeu isso na Câmara, onde atuava como “lobo solitário”. Lula, treinado para a negociação desde a vida sindical nos anos 70, quando Bolsonaro estava na tropa, está dando lições.
A licença para gastar acima do teto com o Auxílio Brasil e programas sociais urgentes oscila entre R$ 100 bilhões e R$ 175 bilhões. Quem fizer a contabilidade mínima verá que este “gap” no Orçamento Geral da União de 2023 é praticamente a soma dos impostos (federais e estaduais/municipais) que Bolsonaro abriu mão de julho a 31 de dezembro, para baratear os preços da energia elétrica, comunicações e combustíveis, acrescidos dos R$ 42,5 bilhões aprovados pelo Congresso para molhar a mão dos eleitores (AB elevado de R$ 400 para R$ 600, mesadas de R$ 1 mil a caminhoneiros e taxistas, duplicação do Vale-Gás e gratuidade no transporte público para idosos). Então, por que o olhar do mercado passou a ser pessimista com Lula?
Inflação, a volta da velha senhora
As mágicas eleitorais na área econômica duraram pouco e estão desmoronando com pouco mais de uma semana do 2º turno. Após três meses de deflação acumulada de 1,33%, focada em energia elétrica, combustíveis e comunicações, o IPCA de outubro, divulgado hoje pelo IBGE, teve alta de 0,59% (acima das expectativas do mercado). No ano o IPCA, que mede as despesas das famílias com renda até 40 salários mínimos (R$ 48.480), subiu 4,70% e 6,47% em 12 meses. Em outubro de 2021, o IPCA subiu 1,25%. O INPC, que mede os gastos das famílias até 5 SM (R$ 6.060) aumentou 0,47%.
Só comunicações (com efeito retardado da redução do ICMS) acusou baixa (-0,48%, bem menor que os -2,08% de setembro), devido à redução de 2,05% nas mensalidades da telefonia móvel, mas a telefonia fixa subiu 6,74%. Todos os demais oito itens do IPCA subiram. O item Transporte, mesmo com pequenas baixas em gasolina e etanol, subiu 0,58%, com o aumento de 27,38% nas passagens aéreas (como reflexo do reajuste do querosene de aviação). Habitação teve alta de 0,34%. A maior alta foi em Vestuário 1,22%.
A Alimentação e Bebidas encareceu 0,72% e contribuiu com 0,16 ponto percentual na taxa mensal do IPCA. A alimentação em domicílio subiu 0,80%, puxada pela alta de 23,36% da batata-inglesa (0,04 p.p. no índice final) e de 17,63% do tomate, que neutralizaram a baixa de 6,32% no leite longa vida. O 2º maior impacto (0,15 p.p.) veio de Saúde e Cuidados Pessoais, com alta de 1,16%, causada pelo aumento de 1,43% na apropriação dos reajustes de 15,5% nos Planos de Saúde.
No ano a alimentação subiu 10,32%, mais do que o dobro da variação de 4,70% do IPCA. A cebola lidera as altas (78,92%, seguido pelos 48,07% da batata-inglesa, pelos 41,21% no leite longa vida e pela elevação de 20,42% no preço do feijão carioca (rajado), que grande consumo em São Paulo.
No acumulado do ano, para uma inflação oficial de 4,70%, a Alimentação e Bebidas subiu 10,32%; Vestuário, 14,99%; Saúde e Cuidados Pessoais, 9,65%; Artigos de Residência, 7,98%; Educação encareceu 7,26%; Despesas Pessoais aumentaram 6,89%. A coluna das baixas é liderada por Transportes (-2,31%), seguido por Comunicações (-1,37%) e Habitação (-0,63%).
BB e a volta do lucro com juro alto
O Banco do Brasil surpreendeu os analistas ao apresentar lucro recorde de R$ 8,360 bilhões no 3º trimestre, alta trimestral de 7,1%, de 62,7% frente ao mesmo período de 2021 e de R$ 22,776 bilhões em 9 meses (+50,9% sobre 2021). Com muitos clientes funcionários públicos, que não tiveram reajustes, mas também ficaram imunes às demissões no setor privado, a inadimplência no BB não cresceu tanto como no Santander e Bradesco (hoje à noite o Itaú mostra seus números). O banco foi muito beneficiado com a alta dos juros que ampliou os ganhos de Tesouraria (106,2 em 12 meses e 36,3% no trimestre).
O BB tem base muito sólida de depósitos judiciais (a CEF tem parte menor) e de contas de órgãos federais com depósitos à vista. Com esses recursos não remunerados, o banco pode fazer arbitragens de taxas de juros na carteira de Títulos e Valores Mobiliários. Os ganhos nas operações de mercado aberto somaram R$ 35,1 bilhões de janeiro a setembro, avanço de 146%.
A alta dos juros também atraiu recursos de investidores institucionais para os fundos de investimentos em renda fixa, em especial da Previ, o fundo de pensão dos seus funcionários, o maior do Brasil). Só as receitas de fundos administrados responderam por 25% das receitas de prestação de serviços (R$ 2,206 bilhões no trimestre e R$ 6,295 bilhões em 9 meses.
Apesar de ter uma grande concentração de créditos estáveis no Consignado para funcionários públicos e uma forte carteira em agronegócio (setor em crescimento contínuo nos últimos anos), o BB sofreu com um robusto avanço de provisões para crédito duvidoso que alcançaram R$ 4,5 bilhões, aumento de 54% no trimestre e de 15% sobre setembro de 2021.
Olhando estruturalmente o balanço do BB, percebe-se que sua carteira de crédito (15,9% do mercado) estava 32,5% dirigida a pessoas físicas (funcionários públicos em maioria), 32,5% a pessoas jurídicas (sendo 13,4% para grandes empresas, 12,3% para pequenas e médias empresas e 6,7% para entidades governamentais) e o Agronegócio absorvia 30,7% dos créditos.
O BB ganhou muito dinheiro de suas participações na Cielo, Banco da Patagônia (Argentina) e na BB Seguridade. O esforço do governo Bolsonaro para turbinar lucros das estatais este ano (como vitrine eleitoral de gestão) e dar receitas para o Tesouro Nacional bancar os gastos eleitorais pode ter dado falsas ilusões. Não se deve esquecer que nos planos de Bolsonaro, caso fosse reeleito, constavam a privatização do BB e da Petrobras, barradas por Lula.