O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

No campo, o milho já vale milhões

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Publicado em 06/10/2022 às 13:00

Alterado em 06/10/2022 às 17:22

Gilberto Menezes Côrtes JB

Puxada pela alta recorde de 35,3% na produção de milho na 2ª safra (de inverno), plantada após a colheita da soja em várias regiões (em alternância com o algodão), a safra brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas deve alcançar o recorde de 261,9 milhões de toneladas em 2022, com aumento de 3,4% sobre 2021, conforme estimativas do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), de setembro, divulgado pelo IBGE.

A soja segue liderando a produção nacional, com previsão de colheita de 119,5 milhões de toneladas. Mas, com a queda de 11,4% em relação à produção do ano passado, devido à estiagem no Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, já começa a dividir com o milho o palco da produção de grãos do país. Computando a 1ª safra (25,4 milhões de t.) e a 2ª (84,2 milhões t.) o milho deve colher 109,6 milhões de t. na safra de 2022. Ano passado, com 134,9 milhões de t., a soja representou 55,8% da produção de grãos, contra 29,1% do milho. Em 2022, o IBGE estima que a soja reduza sua participação para 45,9%, enquanto o milho atingiria 41,8%. A produção do arroz foi estimada em 10,7 milhões de t.; a do trigo em 9,6 milhões de t. e a do algodão (em caroço), em 6,7 milhões de t.

O milho é o mais antigo e tradicional cereal cultivado no Brasil. Mas desde o final dos anos 60, quando começou o cultivo de soja no Rio Grande do Sul, foi perdendo a vantagem competitiva. As geadas de julho de 1975, que destruíram os cafezais de São Paulo e Paraná desequilibrou de modo drástico a produção de milho no país. No Paraná, as áreas de café (em cujas “ruas” o milho, o feijão e a mandioca eram plantados de forma manual) foram ocupadas pelo plantio mecanizado de soja; em São Paulo vieram a monocultura da cana de açúcar e a citricultura da laranja. Fugindo das geadas, o café foi para o Triângulo e o Sul de Minas Gerais (onde esta semana houve chuvas de granizo).

 

Salto de produtividade

Técnicas desenvolvidas pela Embrapa com sementes adaptadas ao cerrado do Centro-Oeste fizeram o Paraná perder o título de celeiro agrícola do Brasil para Mato Grosso. O aperfeiçoamento da mecanização e a técnica do plantio direto fizeram os fazendeiros que plantam soja usar a área colhida para plantar milho ou algodão em seguida. Isso levou o Brasil a mais do que dobrar a produção de grãos e cereais sem crescer na mesma proporção a área cultivada. Além do cerrado, muitos pastos foram ocupados, ainda que as pastagens tenham avançado pela região da Amazônia Legal (Maranhão, Sul do Pará e do Amazonas e Rondônia, e Norte do Mato Grosso) em áreas de florestas derrubadas.

O Brasil começou a produzir mais de 100 milhões de toneladas de grãos em 2003, no 1º ano do governo Lula. A produção quase chegou à marca histórica em 2002, quando foram colhidas 99,3 milhões de t. de grãos. Mas a seca de 2001, que levou a racionamento de energia, reduziu a safra em 1,8% para 97,5 milhões de t. Com a normalização das chuvas e o “boom” das importações da China, a demanda por soja arrastou para cima toda a produção do agronegócio, em especial no Centro Oeste, onde se destaca Mato Grosso. O cerrado, com a rotação de culturas, deu um salto de produtividade.

Vale notar que, de 1988 para cá, enquanto a área plantada aumentou de 48,4 milhões de hectares para 73,197 milhões de há (72%), a produção de grãos multiplicou-se quase quatro vezes, com aumento de 65,8 milhões de t. de grãos em 1988, para a colheita prevista de 261,8 milhões de t. em 2022. A soja é produzida hoje em quase todos os estados (a rigor só Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Sergipe e Amazonas não a cultivam). Amazonas ainda é um estado extrativista, pois o clima tropical não facilita a produção de milho (o 2º produto mais cultivado no país), nem de um fruto como o tomate (que também só não é cultivado no Acre, Amapá, Tocantins e Sergipe.

O aumento da demanda e os preços em elevação têm incentivado o cultivo do milho, sobretudo, na 2ª safra, após a colheita da soja. Assim como a soja, da qual, após a extração do óleo o farelo serve para a alimentação animal, o milho é usado como alimento humano e completa com a soja o preparo de rações. Mas, a exemplo do que há muito ocorre nos Estados Unidos, o milho vem sendo usado na produção de etanol. E o resíduo da produção de etanol é usado na produção de ração para aves, suínos e bovinos, em sistema de confinamento. Mato Grosso também lidera a produção, o que facilita a reduzir as diferenças de preços do combustível entre as unidades da Federação.


 

Macaque in the trees
. (Foto: IBGE)

 

O granizo no café

As perdas na produção de café em Minas Gerais serão duras para os fazendeiros no Sul do estado atingido por fortes chuvas de granizo. Minas responde por 67% da produção de café arábica, mas já sofrera com a seca nas regiões produtoras em 2021. A florada deste ano, prenunciava forte recuperação. Mas nas zonas atingidas, a destruição foi pesada e deve demorar dois anos para a recuperação da produção. Os estragos ainda estão sendo calculados.

O rateio da indústria

Para a LCA Consultores, não foi surpresa a queda de 0,6% na produção industrial em agosto, devolvendo o avanço de igual montante em julho. Segundo a LCA, “desde junho, alguns sinais de moderação do ritmo de melhora da indústria passaram a ser notados, mesmo com a ampliação das medidas de estímulo governamental, como os pagamentos maiores do Auxílio Brasil e Auxílio Gás e a ajuda excepcional a caminhoneiros e taxistas. Certo esgotamento do processo de recomposição de estoques, o aperto da política monetária e a falta de reação da indústria extrativa são parte da explicação”.

A consultoria assinala que “os resultados recentes das sondagens da indústria reiteram esse desempenho mais fraco da indústria”. A estimativa preliminar da LCA para a produção industrial de setembro indica uma ligeira alta de 0,1% na comparação interanual. Em termos dessazonalizados, haveria baixa de 0,8% em relação a agosto.

 

Lula larga bem

Piada irresistível: Lula largou à vontade no 2º turno, com 51% a 43% de Bolsonaro nas intenções de votos pelo Ipec.

Em termos de votos válidos, o levantamento aponta 55% a 45%.

A pesquisa foi feita antes das adesões de Simone Tebet e Ciro Gomes a Lula, que podem arrastar parte de seus eleitores.

As adesões de governadores e senadores a um e outro têm peso menor. Sobretudo nos estados em que as votações de Lula e Bolsonaro foram superiores às dos políticos que declaram adesão.