O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Bolsonaro perde onde PIB não cresce

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Publicado em 08/09/2022 às 17:35

Gilberto Menezes Côrtes JB

O governo Bolsonaro vem trombeteando aos quatro ventos que o PIB do Brasil cresceu 1,2% no 2º trimestre (abril a junho), acumulando expansão de 2,5% no semestre e que pode fechar o ano próximo a 3% com as benesses eleitorais temporárias distribuídas pelo governo até 31 de dezembro.

Mas o Boletim Regional do Banco Central aponta que as duas mais populosas regiões do país - o Sudeste, que concentra 42,9% dos eleitores, e o Nordeste, onde 26,9% dos eleitores vivem em seus nove estados - não acompanharam o crescimento do PIB nacional. E é justamente nas duas regiões, segundo a última pesquisa Quaest/Genial Investimentos (feita entre os dias e 2 4 de setembro), onde Lula, que vencia por 44% a 34% no total nacional, se sai melhor.

No Sudeste, o PIB encolheu 0,1%, com queda acentuada da indústria em São Paulo (-0,5%). A pesquisa dava um empate técnico, com 37% de intenções de votos em Lula e 39% em Bolsonaro. Há avanço de Bolsonaro em SP (21,8% dos eleitores) e no Rio de Janeiro (7%), mas Lula mantém grande vantagem em Minas Gerais, 2º colégio eleitoral do país (10,5%).

Inflação e desemprego castigam NE

No Nordeste, Lula vencia por 60% a 22%. Há razões históricas (Lula veio de Pernambuco para São Paulo) e o PT fez políticas sociais voltadas para a região e pontuais para isso. O PIB subiu apenas 1% na região. “A ocupação segue em elevação no mercado de trabalho formal e informal, mas a recuperação dos rendimentos tem sido mais lenta que a média nacional. Em 12 meses até junho, o IBCR-NE acumulou variação de 3,5%”, diz o resumo do Banco Central.

Mas é a situação da inflação, elevada dos alimentos na região, que agrava os problemas sociais no Nordeste.

Segundo o Boletim Regional do BC, “a inflação do Nordeste desacelerou para 1,17% no trimestre encerrado em julho, ante 3,51% no finalizado em abril” [os trimestres se dividem assim: o 1º, de janeiro a março; o 2º de abril a junho, mas o BC usou um período diferente, mais favorável ao governo]. Os preços dos itens administrados [que tiveram intervenção federal a partir de julho] registraram variação negativa, enquanto os dos preços livres apresentaram arrefecimento na comparação trimestral. As maiores quedas ocorreram em gasolina, energia elétrica residencial e gás de botijão. (...) Nos 12 meses finalizados em julho, a região registrou inflação de 10,81% (0,74 p.p. acima da média nacional). O índice de difusão alcançou 61,7% no Nordeste, indicando menor disseminação no aumento dos preços ante o período anterior”. Aponta o BC, que acrescenta numa visão prospectiva, tentando avaliar a reação positiva das benesses eleitorais:

“A economia nordestina mantém desempenho positivo em 2022, com destaque para serviços e indústria. Em perspectiva, o possível impacto positivo no comércio varejista das desonerações tributárias, a melhora das expectativas de empresários e consumidores e os efeitos dos programas temporários de transferência de renda devem sustentar a atividade econômica da região”.

Até aqui, os impactos negativos da inflação dos alimentos. Nas camadas com renda até 2 salários mínimos -R$ 2.424 tem neutralizado os ganhos da queda da gasolina e combustíveis, mais benéfica a quem ganha acima de 5 salários mínimos - R$ 6.060.

O sobe e desce no Sul e Norte

A economia cresceu mais no Sul, com 2,8%, praticamente devolvendo a queda de 2,9% no 1° trimestre, onde a queda da produção de soja afetou a produção dos três estados. No Centro-Oeste, celeiro do Brasil (e do mundo), houve crescimento de 2% no 2º trimestre, bem superior à variação positiva de 1,1% no 1º período, quando houve igualmente queda na produção de soja.

Também no Centro-Oeste se repetiu o paradoxo do país: apesar da produção agrícola bater recordes, a inflação dos alimentos segue em alta, em decorrência da falta de estoques reguladores. O governo poderia abrir empréstimos do governo federal (EGFs) para o setor privado manter estoques e não se repetir a queda dos preços na colheita (quando os produtores procuraram antecipar as exportações) e escalada de preços na entressafra. O EGF permitiria preços médios favoráveis ao produtor e ao consumidor.

“O IPCA do Centro-Oeste registrou variação de -0,49% no trimestre finalizado em julho, desacelerando significativamente em relação ao encerrado em abril, quando registrara variação de 3,78%. A redução se concentrou nos preços administrados, mais precisamente na gasolina e na energia elétrica residencial. O índice de difusão no trimestre recuou para 67,2%, frente a 73,0% no anterior. Vejam no gráfico que os alimentos voltaram a subir.

Não é mera coincidência o fato de que as pesquisas eleitorais apontem derrota de Bolsonaro para Lula no Sudeste e no Nordeste, e vitória para o presidente no Sul. No Norte e Centro-Oeste há oscilações.

Mercedes bate em retirada

Quando dirigia a Mercedes-Benz no Brasil, desanimado com a forte queda nas vendas em 2016, (era o 2º ano de recessão do governo Dilma e o mercado estava saturado de caminhões com a aplicação, em 2014, do programa de renovação da frota, com financiamentos do BNDES), o presidente da empresa Philipp Schiemer chegou a cogitar do fechamento da fábrica de caminhões em São Bernardo do Campo (SP), inaugurada no fim dos anos 50, no governo JK, para concentrar as atividades de caminhões na Turquia.

Schiemer, que deixou o comando da MB-Brasil em 2020, quando assumiu o posto de CEO da AMG, divisão de alta tecnologia da montadora alemã, fechou duas fábricas em São Paulo e a decisão de terceirizar as atividades em São Bernardo parece ser a concretização do plano. Toyota, Ford e Audi foram algumas montadoras que puxaram o freio de mão e até engrenaram, a marcha à ré.

A questão - que não está sendo abordada na campanha eleitoral - na qual os candidatos se limitam a criticar o encolhimento da indústria na formação do PIB (fenômeno que é mundial, com a ascensão das atividades de serviços, que se agrava com a crescente hegemonia industrial chinesa) é que a economia de escala do Brasil encolheu com o baixo crescimento da renda e isso agrava os diferenciais negativos de custos financeiros, tributários e de encargos sociais.

A partida de Elizabeth II

O mundo vai sentir muito a perda da Rainha Elizabeth II, que completou mais de 70 anos à frente do trono inglês. Agora, o novo Rei, Charles, deve ter suas convicções ecológicas postas à prova.

No Reino Unido quem comanda o país é a primeira-ministra, Liz Truss, que se apresentou à rainha na 3ª feira, no Palácio de verão de Balmoral, no último ato público de Elizabeth II antes de sua morte nesta 5ª feira. As cerimônias de exéquias devem atrapalhar as novas decisões da primeira-ministra, que deve prestar juramento ao novo Rei.

Mas Charles poderá tentar influir numa guinada mais ecológica e de substituição de fontes energéticas à base de combustíveis fósseis - tudo isso em meio à aproximação do outono-inverno, que pede mais combustíveis para aquecimento das residências, e o impacto da guerra da Rússia na Ucrânia continua influenciando o mercado de energia.

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