O OUTRO LADO DA MOEDA
Selic para à espera de bons índices
Publicado em 10/08/2022 às 12:55
Alterado em 10/08/2022 às 13:14
Gilberto Menezes Côrtes JB
A deflação de 0,68% em julho, que derrubou taxa acumulada do IPCA em 12 meses de 11,89% em junho para 10,07%, mesmo apoiada em desonerações tributárias temporárias (redução do ICMS até 31 de dezembro) nos preços dos combustíveis e da energia elétrica, com projeção de que setembro tenha novamente deflação (o Itaú espera -0,36%, a LCA, -0,22%), fez com que os principais bancos e gestores de investimentos acreditem que o Copom tenha encerrado em 3 de agosto o ciclo de alta da Selic em 13,75% ao ano.
Como pontuou a Genial Investimentos, nos últimos 12 meses, o IPCA apresentou variação de 10,07% e alta de 4,77% no ano. Além da forte queda dos administrados (-4,35%), houve desaceleração dos preços livres, com redução dos bens industriais (diante da queda do preço do etanol) e dos serviços (com atenuação dos preços das passagens aéreas e alimentação fora do domicílio). Por outro lado, a alimentação no domicílio apresentou crescimento com a alta dos leites & derivados e das frutas.
Inflação abaixo de 8% na eleição?
Pesando os prós e contras, há pressões de altas no varejo, sobretudo na Alimentação, e as influência da retirada do TUST e TUSD da base de cálculo do ICMS (impacto que o Departamento de Estudos Econômicos do Itaú estima em -0,31 p.p. no mês) que poderão ser exploradas pelo governo na campanha eleitoral.
O Itaú está com a projeção de queda preliminar de -0,36% para o IPCA de agosto. Como em agosto de 2021 o IPCA subiu 0,87%, se o Itaú acertar, a taxa em 12 meses do IPCA de agosto (divulgada em 9 de setembro) cairia a 9,35%. Uma nova baixa na gasolina teria efeito ainda mais benéfico.
Para setembro, o Itaú projeta aumento de 0,55% no IPCA. Como a taxa subiu 1,16% em setembro de 2021, a taxa em 12 meses cairia a 8,69%. Vale notar que o IBGE divulga a taxa em 11 de outubro. Assim, a notícia só poderia ser explorada pelo governo se houver o 2º turno, em 30 de outubro.
Mas o IPCA-15, que funciona como uma espécie de prévia do IPCA cheio, será divulgado pelo IBGE no dia 27 de setembro, menos de uma semana antes da votação do 1º turno (2 de outubro) e a tendência é que o IPCA-15 capte com mais intensidade o movimento de queda da inflação pelo rebaixamento dos combustíveis que o IPCA cheio de setembro). Vai valer tudo para virar o voto.
Com relação ao IPCA de outubro, que será conhecido em 10 de novembro, após o 2º turno (se houver), o Itaú prevê (pelo cenário atual) alta de 0,60%. Como o IPCA subiu 1,25% em outubro de 2021 (a maior taxa mensal do ano passado), o índice em 12 meses também cairia para menos de 8%, precisamente para 7,99%.
Vale chamar a atenção que a indicação de Adolfo Sachsida, que cuidava do acompanhamento dos preços no Ministério da Economia, para o comando do Ministério da Economia, com controle indireto sobre a Petrobras, pode facilitar (em caso de continuidade da queda dos preços do barril de petróleo e dos combustíveis - o barril do tipo Brent para entrega em outubro estava cotado hoje a US$ 94,94%, com queda de 1,73%) a redução dos preços da gasolina, diesel e GLP, para serem explorados a favor do presidente Bolsonaro.
Selic para por conveniência eleitoral
Chega a ser engraçada a ginástica explicativa dos departamentos econômicos dos bancos, gestores de investimento e consultorias para justificar a aposta de que a Selic deverá encerrar o ciclo de altas em 13,75%, sem a remota possibilidade de o Comitê de Política Monetária do Banco Central promover um último ajuste para cima de 0,25 ponto percentual na reunião de 21 de setembro, quando a Selic chegaria a 14%.
Dá para acreditar que, apesar do mandato de independência do Banco Central, o Copom elevaria a taxa de juros (que já está provocando forte contração nos negócios e no endividamento das empresas e famílias, o que deve se agravar neste 2º semestre) a duas semanas do 1º turno?
A lógica de todas as medidas eleitoreiras do governo para baixar impostos e distribuir benefícios compensatórios visava criar um clima favorável ao presidente Bolsonaro nos meses de agosto e setembro, quando haveria a campanha eleitoral gratuita no rádio e TV.
Uma alta de juros seria um gol contra. Já bastam as previsões de que a Selic, seguindo o recado do Copom de que o aperto monetário terá de ser prolongado, ficaria estável em 13,75% até o 1º semestre, ou até o 1º trimestre (na visão dos mais otimistas) de 2023, com a taxa fechando o ano entre 10,75% (previsão do Itaú) e 11,75% ao ano (Bradesco). A Genial espera 11%.
2º tombo do comércio assusta
A queda de 1,4% no volume de vendas do comércio varejista em junho, depois de retração de 0,4% em maio (na revisão feita pelo IBGE - as indicações anteriores apontavam avanço de 0,1% em maio), assustou os analistas do mercado e indicou que o diagnóstico do Copom de que a política monetária já está em “estágio significativamente contracionista”, e deverá “impactar a economia mais fortemente a partir do segundo semestre deste ano”, está sendo antecipado no fim do 2º trimestre pelo IBGE. Os dados do PIB do 2º trimestre serão divulgados pelo IBGE em 1º de setembro.
Pelos dados do Instituto, a média móvel trimestre (abril-maio-junho) teve encolhimento de 0,4% no volume de vendas sobre janeiro-fevereiro-março no varejo restrito. O acumulado no ano chegou a 1,4% e o acumulado nos últimos 12 meses, a -0,9%. As vendas do comércio estavam sem prejudicadas pelo avanço da inflação e a escalada dos preços dos combustíveis. É preciso esperar para se medir o impacto combinado da redução dos preços dos vários itens com a injeção de R$ 41,2 bilhões para estimular o eleitor a mudar o voto.
No comércio varejista ampliado, que inclui veículos, motos, partes e peças e material de construção, bens cuja comercialização depende da oferta de crédito e do valor das prestações determinado pelas taxas de juros, o volume de vendas caiu 2,3% em junho frente a maio. O acumulado no ano foi de 0,3% e o acumulado em 12 meses, de -0,8%.
Numa mostra do impacto do salto da Selic (que é o piso de captação dos bancos), que estava em 10,75% em março para 13,25% ao ano em junho, a média móvel do volume de vendas do comércio recuou 1,0%. Vale lembrar que nos quatros primeiros meses de 2022 houve crescimento no volume de vendas na margem. Os resultados de maio e junho invertem a trajetória, com -0,4% em maio e -1,4% em junho. Assim, o primeiro semestre de 2022 fecha acumulando alta de 1,4% ante o primeiro semestre de 2021. O resultado de junho está -4,6% abaixo do máximo da série, registrado em outubro de 2020, e 1,6% acima do patamar pré-pandemia (fevereiro de 2020).
Sete das oito atividades recuaram, na série com ajuste sazonal, e as principais influências sobre o varejo, em junho, foram Tecidos, vestuário e calçados (-5,4%) e Hiper e supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-0,5%).