Bradesco lucra 1,749 Santander no semestre

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Há várias leituras sobre o lucro líquido recorrente de R$ 7,041 bilhões do Bradesco no 2º semestre, com aumento de 3,2% sobre o 1º trimestre e ganho semestral de R$ 13,862 bilhões (aumento de 11,4% sobre igual período do ano passado. Como o Itaú vai revelar seus resultados na próxima 2ª feira, 8 de agosto, após o fechamento dos mercados, aguarda-se qual o banco brasileiro irá liderar os lucros neste ano.

No 1º trimestre, considerando só as operações do Brasil (o Itaú-Unibanco costuma revelar o resultado de todas as operações na América Latina, das quais o Brasil representa cerca de 86%), o Itaú lucrou R$ 6,659 bilhões e perdeu para os R$ 6,821 bilhões do Bradesco.

A comparação, por enquanto é com o Santander, que divulgou semana passada lucro líquido recorrente de T% 4,084 bilhões no 2º trimestre e de 6,9191 bilhões no semestre. O ganho do Bradesco foi 1,72% superior no trimestre e 1,749 vezes superior ao do Santander no semestre. Em relação à filial brasileira do espanhol Santander, o Bradesco está ganhando de goleada. Um dos motivos é que o banco de Ana Botin tinha feito baixas provisões para a inadimplências nos anos de 2020 e 2021. Agora, as provisões para a inadimplência reduzem os lucros.

Inadimplência em alta

Assim como no Santander, a inadimplência aumentou muito no Bradesco para um total de 3,6% em junho. No 2º trimestre, o Bradesco fez provisões de R$ 5,313 bilhões, um aumento de 9,9% sobre o 1º trimestre. De janeiro a junho, as provisões somaram R$ 10,149 bilhões, um aumento de 37,3% sobre igual período do ano passado.

A decomposição das operações mostra uma elevação maior na carteira de pessoas físicas, que representam 39,9% dos créditos. O Bradesco destina 20% dos créditos às pequenas e médias empresas e 40% às grandes empresas, grupo que vai bem, obrigado, com inadimplência de só 0,1% em junho.

As Pequenas, Micros e Médias empresas apresentavam forte expansão nos atrasos acima de 90 dias. Depois de estarem em 4,5% em março de 2020, quando o Banco Central incentivou o pacote de renegociações na pandemia, ao reduzir os depósitos compulsórios dos bancos e as provisões básicas, o nível de atraso desceu fortemente a 2,6% em junho e setembro de 2020, mas não parou de subir desde então. Fechou 2020 em 3%, foi avançando até 3,3% em março do ano passado. Houve renegociações e os atrasos, que fecharam em 2,8% em dezembro, subiram de 3,8% em março para 3,9% em junho.

A escalada da inflação, que afeta a renda das famílias, é também altamente desfavorável ao segmento das pequenas empresas. Mas nada se compara à devastação dos orçamentos familiares. A inadimplência das pessoas físicas estava em 5,6% quando foi decretada a pandemia da Covid-19, em março de 2020 e houve muitas renegociações a juros mais baixos. A inadimplência desceu a 3,6% em junho e a 3,4% em setembro de 2020. Mas já fechou em 4% em dezembro de 2020 e foi a 4,6% em março. Houve uma rodada de renegociações, as taxas de atraso voltaram a cair a 3,8% em junho de 2021, mas fecharam a 4,1% em dezembro do ano passado e saltaram para 4,9% em março, permanecendo com o mesmo índice em junho.

Cautela no consignado

Por isso, espera-se cautela dos bancos na concessão de empréstimos no consignado para aposentados, com o aumento da margem dos financiamentos para pensionistas do INSS de 40% para 45%, autorizado pelo governo Bolsonaro, bem como a extensão aos beneficiários do Auxílio Brasil e dos dependentes do Benefício de Prestação Continuada no acesso ao crediário.

No caso do INSS, como o crédito consignado aos aposentados tem as menores taxas do mercado, mesmo com a pressão das famílias para que os idosos aposentados contraiam mais dívidas para o clã familiar, os níveis de inadimplência da modalidade (com desconto em folha) é dos mais baixos. Mas está havendo escalada das taxas de juros, com a alta da Selic para 13,75% ao ano desde esta 4ª feira (era de 2,75% ao ano em março do ano passado).

Segundo levantamento do Banco Central entre os 15 e 21 de julho (antes, portanto, do último aumento do Copom) as taxas do consignado para aposentados do INSS oscilavam de 16,56% a 29,69% ao ano. No mesmo levantamento do BC, as taxas do crédito pessoal não consignado variavam de 20% ao ano a 150% ao ano para a maioria dos bancos de varejo.

Nas financeiras, sobretudo naquelas que financiam até quem “está negativado”, os juros podem chegar a 777,77% na Crefisa, patrocinadora do Palmeiras a 982,05% ao ano da JBCred (que nada tem a ver com o Jornal do Brasil). Como a nova alta da Selic, que é o piso dos juros no Brasil, as taxas já estão agora acima de 1.000% ao ano! São juros tão escorchantes que mesmo se o tomador do crédito vier a pagar só três ou quatro prestações até dezembro, a financeira ainda recupera o principal.

Corda para enforcado

A elevação das margens visa compensar a escalada dos juros. Mas é o mesmo que entregar corda na casa de enforcado. O país já tem mais de 63,6 milhões de pessoas com nome sujo no Serasa, por atraso em prestações financeiras e contas de serviços públicos (luz, comunicações, águas e esgoto e IPTU), estender facilidades de crédito aos beneficiários do Auxílio Brasil turbinado para R$ 600, cuja validade termina em 31 de dezembro, mais do que outra jogada eleitoral, pode configurar crime de responsabilidade a quem der crédito. Qual o lastro que o devedor terá de janeiro de 2023 em diante?

Na eleição de 2018, o país tinha mais de 60 milhões de brasileiros com nome sujo do SPC/Serasa, sem condições de assumir novos financiamentos. O então candidato Ciro Gomes foi o único a defender prioridade para as renegociações, de modo a destravam o endividamento de um terço da população. De lá para cá houve só a renegociação geral da Covid-19, que já esgotou seus efeitos. A realidade é que o mercado de crédito está com mais de 65 milhões de devedores em atraso. Dar mais facilidades para o endividamento é uma enorme responsabilidade, quando o correto é facilitar as renegociações.

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