O OUTRO LADO DA MOEDA
Agro cai e PIB cresce só 1% no 1º trimestre
Publicado em 02/06/2022 às 11:50
Alterado em 02/06/2022 às 12:24
Gilberto Menezes Cortes CPDOC JB
As expectativas eram de forte crescimento do Produto Interno Bruto no 1º trimestre, quando o Brasil colhe as principais safras agrícolas. O Bradesco e a Genial Investimentos previam avanço de 1,7% no PIB trimestral frente ao 4º trimestre de 2021 (+0,5%). A LCA Consultores estimava alta de 1,5%, que seria puxada pelo avanço de 2,5% na agropecuária, de 1% na indústria extrativa mineral e de 0,8% nos Serviços. A mediana do mercado apontava alta de 1,2% no PIB trimestral. O Itaú previa 1% e o Santander, +0,9%. Mas o agro e a indústria extrativa mineral frustraram o PIB pelo lado da oferta.
O 1º teve queda de 0,9%, puxada pela redução de 12,2% nas colheitas de soja e de 8,5% na de arroz (frente ao mesmo período de 2021). Já a indústria extrativa mineral caiu 3,4% no trimestre com menor extração de minérios. Os dois segmentos (junto com o petróleo) seriam o motor do crescimento da economia em 2022, devido ao impacto altista dos preços causado pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Assim, o PIB só avançou 1,0%, com alta de 1% no setor de serviços, que representa 70% do PIB e volta à normalidade com a vacinação.
A queda da mineração fez a indústria geral crescer só 0,1%, mas a indústria de transformação (50% da indústria) cresceu 1,4%, a construção avançou 0,8% e as atividades de utilidade pública (água, esgoto, atividades de gestão de resíduos) cresceram 6,6%, com maior geração de eletricidade e o menor acionamento das termoelétricas.
Frente ao mesmo trimestre de 2021, o PIB apresentou crescimento de 1,7%. No acumulado nos quatro trimestres, terminados em março de 2022, o PIB cresceu 4,7%, um pequeno avanço comparado aos quatro trimestres imediatamente anteriores (no 4º trimestre de 2021 a taxa era de 4,6%).
Pela ótica da despesa, a Despesa de Consumo das Famílias que tem o maior peso no PIB (encolheu dos 65,1% de 2019 para 61% em 2021), teve crescimento de 0,7%. A Despesa de Consumo do Governo ficou estável (com variação de +0,1%, enquanto a Formação Bruta de Capital Fixo registrou queda de 3,5%, causada pela menor internação de equipamentos da Petrobras pelo regime do Repetro (os equipamentos já estavam em operação, apenas o registro fiscal foi feito no país, o que não altera tanto a capacidade de produção). Por sinal, no 1º trimestre de 2022, a taxa de investimento foi de 18,7% do PIB, frente aos 19,7% do mesmo período do ano passado.
Revisões à vista
O ano de 2022 está derrubando expectativas. Em meados do ano passado, quando a crise hídrica e a redução dos níveis dos reservatórios das hidroelétricas projetavam cenário com alto risco de racionamento de energia este ano, o Departamento de Estudos Econômicos do Itaú previa racionamento e uma queda de 0,5% no PIB de 2022.
Mas as chuvas chegaram em fins de novembro e vieram fortes em dezembro, janeiro e fevereiro. Isto recompôs os reservatórios, trouxeram mortes e destruição na Bahia, em Minas Gerais, em Petrópolis-RJ (e agora no Nordeste, particularmente em Pernambuco, no Grande Recife). Afastado o racionamento, na tentativa de conquistar o eleitorado e reduzir a inflação, o governo antecipou de 1º de maio para 16 de abril a troca de bandeira de escassez hídrica, pela verde, o Itaú foi revisando as previsões, de negativas para positivas, sendo acompanhado pelos demais bancos e consultorias.
O Santander, que previa 0,9% de expansão no 1º trimestre admitia que um resultado altista poderia levá-lo a rever para cima a previsão de aumento de 0,7% no PIB deste ano. Para 2023, o banco espanhol é pessimista: queda de 0,3%. Itaú e Bradesco também preveem redução em relação aos números deste ano. Portanto, não é correto dizer que a economia brasileira está crescendo mais do que a economia mundial, cujas previsões de avanço (mesmo descontando a China) são superiores às do PIB do Brasil.
A alta de 1% no PIB, do modo que foi - sem ganhos na agropecuária, que pode sofrer percalços neste 2º trimestre, devido ao frio e às geadas (o que é ruim do ponto de vista do combate à inflação) - pode frustrar as expectativas de que a economia estava engrenando. Na verdade, um delírio (ou como dizem os americanos, um “wishful thinking”, pensamento positivo) dos apoiadores da reeleição, cada vez mais complicada, do presidente Jair Bolsonaro.
O governo contava com um número expressivo do PIB para espargir otimismo na economia (embora os números apontem para queda em relação a 2021). Por isso, trocou o calendário de divulgação do Caged (que apresenta dados do mercado de trabalho com um mês de antecedência, no caso, seriam os dados de abril) em relação à PNAD Contínua Trimestral do IBGE. O Caged, que seria divulgado na 2ª feira, foi adiado, e na 3ª feira o IBGE divulgou dados da PNAD Contínua de fevereiro-março-abril.
O número mostrou forte recuperação no emprego. Frente ao trimestre anterior de novembro-dezembro-janeiro, a taxa de desemprego caiu para 10,5% em abril, abaixo do esperado (10,9%), na maior queda mensal desde 2012. Os dados do Caged viriam completar a maré de notícias alvissareiras. Mas a continuidade da inflação acima dos dois dígitos (o IBGE divulga os dados do IPCA de maio dia 9 de junho) pode manter a situação mais desfavorável do mercado de trabalho: a perda de renda real.
O reajuste do salário mínimo (de 10,02%) já ficou abaixo da variação de 10,16% do INPC em 2021. Como a taxa em 12 meses continuou avançando para mais de 12% (só ficará abaixo disso e a inflação do IPCA de maio ficar inferior a 0,63%), a perda do poder de compra real do salário (descontada a inflação) tem sido uma constante. E a recuperação das vagas perdidas no mercado de trabalho durante a pandemia da Covid-19 em 2020 e 2021 tem sido feito com salários inferiores aos de antes da pandemia.
Os sinais negativos do IBGE
Vale ressaltar que devido à greve dos funcionários do Banco Central, os números do PIB do 1º trimestre estarão (como todos os outros) sujeitos a revisão. Desta vez, porém, faltaram dados sobre as Contas Econômicas Integradas (que determina o cálculo da Taxa de poupança) e a Conta Financeira, porque o Balanço de Pagamentos não foi ainda publicado pelo Banco Central, com dados relativos ao mês de março.
No quadro demonstrativo comparativo do consumo das famílias no 1º trimestre, frente ao mesmo período do ano passado, o IBGE antecipou o que poderá retrair o desempenho da economia no 2º semestre, por restrições do consumo das famílias, cuja participação no PIB já encolheu de 65,1% em 2019 para 61% no ano passado.
A inflação dobrou: “IPCA variou 10,7% no 1° trimestre de 2022 contra 5,3% no 1º trimestre de 2021”.
“Apesar do crescimento na ocupação, massa salarial real em queda”.
Junto com a disparada da inflação, o Banco Central iniciou, em março de 2021 uma corrida atrás da inflação (e na tentativa de segurar o dólar). Frisa o IBGE que a “SELIC alcançou 10,1% a.a no 1º trimestre de 2022 contra 2,0% a.a no 1º trimestre de 2021”.
Apertadas na renda, as famílias recorreram ao crédito com juros mais elevados (o que pode trazer mais problemas adiante). Frisa o IBGE ter havido “Crescimento nominal do saldo de operações de crédito do sistema financeiro nacional para as pessoas físicas”.
Advocacia administrativa rendosa
Se alguém tinha dúvidas, no governo Bolsonaro, que desmanchou a operação Lava-Jato, o depoimento do senador e advogado Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre a origem dos recursos para a compra de mansão em Brasília por R$ 6 milhões comprova que a advocacia administrativa dá muito dinheiro.