É a inadimplência, estúpido

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As estatísticas da Confederação Nacional dos Diretores Lojistas (CNDL) não deixam dúvidas. Com a escalada da inflação e das taxas de juros, na tentativa do Banco Central de conter a espiral inflacionária do IPCA, que atingiu a 12,13% nos 12 meses terminados em abril, e a 12,47% no INPC, que mede a renda dos que ganham até cinco salários mínimos (R$ 6.060), a inadimplência está explodindo. Conforme levantamento do CNDL, abril fechou com 61,94 milhões de brasileiros com contas atrasadas de 91 dias a um ano. Quem deve há mais de 91 dias tem seu nome inscrito no Serasa e no Serviço de Proteção ao Crédito. Negativado, perde acesso a novos créditos. Segundo o CNDL, quatro em cada 10 brasileiros adultos (38,45%) estavam negativados.

O número de inadimplentes, que tinha sido reduzido em abril do ano passado com o pagamento do Auxílio Emergencial e liberação do FGTS, voltou a subir dramaticamente nos últimos 12 meses. Segundo o CNDL, número da inclusão devedores com tempo de inadimplência de 91 dias a 1 ano aumentou 50,87% em um ano. O número total de inadimplentes ainda é um pouco inferior aos 62,6 milhões de dezembro de 2018.

Mas revela que o governo Bolsonaro não conseguiu atacar o problema crônico que trava o próprio crescimento da economia: como a população não tem renda e só pode consumir via crediário, quem está negativado perde capacidade de consumo. Nas famílias de renda média baixa (até R$ 4,315,04, segundo a definição do Ipea) pelo menos três a cada quatro membros estão envolvidos com dívidas (35,72% estavam com atrasos em dívidas até R$ 500 e 50,95% estavam com dívidas até R$ 1.000. No levantamento do CNDL o setor bancário concentrava 57,93% das dívidas em atraso, com juros elevadíssimos.

Assim, a liberação de até R$ 1.000 do FGTS dos trabalhadores que ainda tenham acesso a esse direito mal vai dar para limpar o nome no SPC/Serasa, a menos que os bancos concedam gordos descontos. Tecnicamente, podem fazer isso, e transformar crédito inadimplentes em lucros. É que quando as dívidas atrasam mais de 90 dias, os bancos são obrigados a fazer provisões, que aumentam com o prazo do atraso. Se o crédito é recuperado, o que tinha sido baixado para provisão pode virar lucro. Daí que o cliente deve exigir o máximo de descontos nos bancos para zerar as contas. No Comércio, que concentrava 14,01% das vendas em atraso, dá-se quase o mesmo. Idem nas contas de água e luz (11,29% do total) e de telefonia/TV e internet (9,60%).

Quando foi candidato à presidência em 2018, o ex-ministro Ciro Gomes apontou como uma das suas prioridades fazer um grande mutirão nacional para reabilitar o cidadão brasileiro das dívidas que inibiam seu consumo e o envergonhavam no comércio, ao ter negado créditos parcelados. O problema foi ignorado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, que não deu prioridade à questão. Coube ao Banco Central, em articulação com a Febraban, fazer vários mutirões de renegociação, mas a escalada da inflação e dos juros está tendendo a fazer com que 2022 feche com o mesmo número de inadimplentes.

 

Ipea vê maior inflação sobre os mais pobres

O Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada (Ipea), órgão do Ministério da Economia e que até semana passada era subordinado ao atual ministro das Minas e Energia, Adolfo Sachsida, ex-secretário de Assuntos Estratégicos, como faz habitualmente, divulgou hoje a decomposição da inflação de abril (1,06% no mês, pelo IPCA (que mede as despesas das famílias com renda até 40 salários mínimos -R$ 48.480), com 12,13% em 12 meses; e de 1,04% pelo INPC (renda familiar até 5 SM - R$ 6.060).

Como a inflação tem sido muito alta nos alimentos (artigos que têm grande peso nas despesas das famílias de menor renda), o Ipea indicou que a conta mais alta da inflação tem recaído sobre as camadas de menor renda. Não é de admirar a rejeição ao presidente Jair Bolsonaro seja maior entre os que ganham até R$ 4.315,04), que dão preferência de voto nas pesquisas ao ex-presidente Lula.

O Ipea considera seis faixas de renda domiciliar. As famílias que ganham até R$ 1.726,01 são consideradas de renda muito baixa (teriam prioridade no antigo Bolsa Família, transformado em Auxílio Brasil, com renda mensal de R$ 400). Nesta faixa de renda, a inflação foi de 12,72%. Até as faixas de renda média (R$ 8,630,07), a inflação ficou acima de 12%. Mas, à medida em que alimentação pesa menos no orçamento (dividindo pesos com Habitação, Transportes, sobretudo despesas com automóveis, e Educação), os índices ficam menores, caindo para 10,81% para as famílias que recebem acima de R% 17.260,14. Brasília se enquadra entre as cidades de renda alta (as comunidades das cidades satélites é que sofrem mais).

 

 

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. (Foto: OLM)

 

Estagflação entra no radar mundial

A queda de 2,9% na produção industrial da China provocou a troca do sinal amarelo para vermelho dos painéis de bancos e consultorias que analisam o risco de a atual escalada da inflação de insumos energéticos e commodities agrícolas, insuflada pelas consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia, levarem os Banco Centrais a um forte aperto nos juros e provocar o pior cenário: a estagflação. Ou seja, uma alta inflação, com baixou ou nenhum crescimento econômico.

A crise provocada pela Rússia já tinha levado ao corte pela metade das perspectivas de crescimento mundial. Agora, a decisão da China de facilitar o crédito, num movimento para tentar evitar a recessão, acendeu a luz vermelha.

 

Como classificar o Brasil?

No Brasil, por enquanto o cenário é de um crescimento de até 1,1%, com inflação na casa de 8% até dezembro. Como a população cresce 0,7% ao ano, se isso não é recessão, preciso pesquisar mais nos dicionários econômicos.

O ex-ministro Delfim Neto, com mais experiência de economia que meus 72 anos de idade, já disse que tecnicamente estamos em recessão per capita (crescendo menos que o aumento da população). Apesar das boas perspectivas de exportação de commodities agrícolas (minerais, menos), considero que estamos em estagflação.

Se medirmos a renda per capita em dólar o Brasil caiu mais de 43% desde 2012. Uma hecatombe.



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Gilberto Menezes Cortes


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