Pós Ata: Bradesco vê Selic a 13,25%; Itaú a 13,75%

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Como previsto, o Banco Central divulgou hoje a Ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da última 4ª feira (5 de maio). O item 18 diz que, após considerar, “diante de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos [olhando para 2023], é apropriado que o ciclo de aperto monetário continue avançando significativamente em território ainda mais contracionista”, por isso, aumentou, por unanimidade, a Selic em 1 ponto percentual, para 12,75% ao ano, e anunciou alta de menor magnitude em 16 de junho, frisando que o “Comitê (...) irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”. A interpretação, porém, dividiu os departamentos de estudos econômicos do mercado financeiro.

 

Para Bradesco, alta termina em 13,25%

“O Banco Central apontou que considera apropriado que o ciclo de aperto monetário continue avançando em território contracionista, deixando a porta aberta para ajuste adicional dos juros à frente. O relatório trouxe, ainda, discussões a respeito da defasagem da política monetária, dos riscos baixistas para a atividade econômica decorrentes do aperto das condições financeiras e da divergência entre as projeções de seu cenário de referência e as projeções de mercado, que têm apontado para uma inflação mais elevada”.

As possíveis explicações levantadas pelo comitê para essa diferença envolvem divergência nas hipóteses para a taxa de juros neutra, ou mesmo na velocidade da desinflação de bens industriais. (...) Em nossa avaliação, a velocidade de reversão dos preços de commodities e seus impactos sobre os preços industriais serão determinantes para o cenário de inflação de médio prazo. No curto prazo, os dados até a próxima reunião serão cruciais para determinar o ritmo de alta da Selic. Nosso entendimento é que o BC encerrará o ciclo de política monetária em 13,25% a.a. em sua próxima decisão”, frisa.

 

Itaú: ata reforça extensão do ciclo até agosto

Na visão do Itaú, a “Ata do Copom reforça as principais mensagens do comunicado da semana passada: uma nova alta da Selic é provável na próxima reunião, mas em ritmo menor, dada o estágio do ciclo e a necessidade de cautela em um cenário percebido como bastante incerto”.

O Itaú espera “alta de 0,50 p.p. na reunião de junho e, dadas as projeções brandas de inflação consideradas pelo comitê, esperamos outra alta de 0,50 p.p. na reunião de agosto (dia 3). Assim, mantemos nossa visão de taxa Selic em 13,75% aa ao final do atual ciclo de aperto monetário”. O banco só espera reduções na Selic a partir do 2º trimestre de 2023, quando recuaria a 8,75%.

 

Juros altos podem derrubar preços?

Uma questão que chamou a atenção foi a discussão, no Item 11, sobre o dilema das autoridades monetárias no manejo dos juros e no grau de endurecimento da política monetária diante das perspectivas de alta da inflação (com os impactos da invasão da Ucrânia pela Rússia e a maior desorganização das cadeias produtivas); e, de outro lado, pelas probabilidades de pressões baixistas nos preços das “commodities” que, quando os juros estavam baixos no mundo (até outubro de 2021) viraram fonte de especulação com ativos.

O Copom examinou “uma possível reversão, ainda que parcial, do aumento nos preços das “commodities” internacionais em moeda local [real]; e (ii) uma desaceleração da atividade econômica mais acentuada do que a projetada”, causada pelo duplo choque da elevação dos juros e da escalada de preços.

O Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco tratou do tema no último dia 4 de maio, em estudo dos economistas Thiago C. Angelis e Myriã Bast, intitulado “Determinantes dos preços de commodities no curto e médio prazo”. Lembram os economistas que diante de surtos inflacionários que foram estimulados pelas políticas monetária expansionistas nos Estados Unidos, Europa, China, Japão e economias emergentes, “o próprio avanço da inflação acabou estimulando a busca por ativos reais e diversas “commodities”.

Em vários ciclos da história, quando os juros estão baixos e há aceleração da inflação, “as “commodities” têm sido um ativo de proteção”. Eles assinalam que “desde outubro de 2021, a posição líquida comprada em “commodities” agrícolas vem crescendo, justamente em busca por proteção contra inflação. Até meados de abril, a posição comprada em contratos agrícolas era 40% maior do que a registrada em outubro de 2021 e 35% maior do que a média registrada desde 2017. Possivelmente refletindo o maior risco nas demais classes de “commodities”, mais afetadas por questões geopolíticas e mais expostas à China, a posição comprada em “commodities” metálicas e em petróleo permanece abaixo da média registrada em 2019”.

 

Preços fora do lugar

Com base nas premissas do Depec Bradesco para a economia global, ambos estimam “que os preços de “commodities” possam estar em média 35% acima dos valores de fundamento”. Eles utilizaram modelos que explicam o comportamento do índice CRB futuro em função do crescimento global (proxy de demanda) e do índice DXY (para capturar movimentos na precificação do dólar) e, de maneira auxiliar, também incorporaram uma análise de oferta para pensar as classes de “commodities” de forma desagregada.

Levando em consideração tanto essa estrutura geral quanto as particularidades de cada classe, eles entendem que “o desvio pode variar de 11% (“commodities” agrícolas pelo índice CRB) a 43% (metálicas), ficando o petróleo 21% acima”. Eles reconhecem que “os preços das “commodities” permaneceram acima dos valores de fundamentos por todo o ano de 2021 e, portanto, essa convergência pode não ocorrer rapidamente. Mas, neste momento, além de fundamentos condizentes com preços menores, há em curso um processo de reversão de política econômica – monetária e fiscal”.

 

Juros altos põem dólar na gangorra

Todos os ativos financeiros, de moedas, ações, títulos e “commodities” têm suas estruturas de preços formadas pelos mercados futuros. E os juros funcionam como eixo de uma gangorra. Quando estão baixos estimulam a alavancagem em ativos diversos, que valorizam (na cotação em dólar); quando os juros sobem, há necessidade de rápida reversão das posições futuras. Assim, os preços caem. Pelo duplo efeito de que sustentar posições futuras em juros mais elevados aumentam os riscos dos especuladores e porque a própria valorização natural do dólar ante outros ativos exige rápidos ajustes.

Para Thiago Angelis e Miryã Bast “os primeiros efeitos dessa mudança começam a aparecer no fortalecimento do dólar nas últimas semanas”. Eles lembram que “quanto mais forte o dólar, pior tende a ser o desempenho dos preços de commodities e isso ajuda a explicar a diferença crescente entre preços correntes e preços de fundamentos”. Refletindo fundamentos diferentes, eles acreditam que alguns preços ainda podem se sustentar por mais tempo.

“O caso mais evidente é o das “commodities” agrícolas, cujos estoques ainda devem levar mais tempo para se ajustar. Além disso, os custos de fertilizantes não apenas guardam relação com os preços finais, mas também podem afetar a produtividade das próximas safras, em um possível cenário de uso mais restrito. O caso se agravará na eventualidade de novos choques climáticos.

 

Efeito China será menor

No começo dos anos 2000, a entrada da China nos mercados como grande comprador de “commodities” agrícolas, metálicas e energéticas mudou o eixo do comércio mundial. O Brasil, particularmente, foi muito beneficiado no 1º governo Lula, que passou a ter na China o principal destino das exportações, gerando fortes superávits na balança comercial. Mas agora os dois economistas não veem possibilidade de ciclo semelhante.

Para eles, “a combinação de um processo de reversão de política econômica que vem sendo adotado em quase todo o mundo e revisões baixistas para a economia global (que também resultam desta mudança) devem exercer pressão cada vez menor sobre os preços. Questões específicas podem surpreender e mantê-los pressionados por mais tempo, mas não representam, a essa altura, uma mudança estrutural na demanda por “commodities” que justifiquem um super ciclo como aquele vivido no início dos anos 2000”.

 

Diesel pressiona pouco o IPCA

Amanhã, o IBGE divulgará a inflação de abril, medida pelo IPCA (cesta de consumo das famílias com renda até 40 salários mínimo -R$ 48.480) e pelo INPC (até 5SM - R$ 6.060) e vai ser possível ver a extensão da alta da gasolina, do GLP e do diesel nos dois índices. A gasolina e o GLP pesam mais; o diesel tem efeito indireto, se refletindo nos fretes de transportes de mercadorias e nos custos do transporte urbano e interurbano de passageiros.

Por isso, se não houver a curto prazo aumento da gasolina e no GLP, os cálculos do mercado são de impacto pequeno no IPCA de maio causado reajuste de 8,87%, a partir desta 3ª feira no preço médio de venda de diesel para as distribuidoras R$ 4,51 para R$ 4,91 por litro. Para a LCA Consultores, o impacto no IPCA será de apenas 1,5 ponto base.

Já o Depec do Itaú apontou impacto de + 2 pontos bases no índice de inflação do IPCA em maio, frisando ser importante “ressaltar que os preços da gasolina e do gás de cozinha permaneceram estáveis”, no cálculo. Mas alertou que “a diferença entre os preços internacionais e locais da gasolina, que tem um peso maior na cesta de inflação do IPCA, atualmente está em 34%, representando risco para cima em nossas previsões de inflação de curto prazo”.

 

Comércio anima PIB do 1º trimestre

A alta de 1% no volume de vendas do comércio varejista no país em março (acima do esperado - 0,4% a 0,6%), na 3ª alta mensal do ano, que fez o trimestre ter avanço de 1,3% frente ao mesmo período do ano passado e animou as projeções do mercado para o PIB do 1º Trimestre, que o IBGE divulgará no dia 2 de junho. O comércio varejista ampliado, que inclui, além do varejo, as atividades de veículos, motos, partes e peças e de material de construção, teve aumento de 0,7% no volume de vendas frente a fevereiro. No ano aumentou 1,1% sobre igual período de 2021.

Em parte, pode atenuar a queda de 4,5% na Indústria no 1º trimestre. O setor de serviços, do qual o comércio faz parte, pode ser o fiel da balança, com avanço devido à crescente retomada das atividades em turismo, lazer, bares e restaurantes. A agropecuária também será positiva. Por isso, o Itaú está prevendo avanço de 1% no Produto Interno Bruto no 1º trimestre. No 2º, o desempenho seria mais fraco (+0,6%), fechando o ano com alta de 1%, em viés de revisão para cima.

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