IPCA-15 sobe menos que o esperado

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O primeiro impacto do reajuste de 11 de março nos combustíveis nas refinarias da Petrobras (a gasolina foi aumentada 18,77% e o óleo diesel, em 24,93%) no IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de abril (apurado entre 17 de março e 13 de abril) foi menor que o esperado pelos analistas de bancos e consultorias. A alta de 1,73%, após ter avançado 0,95% em março foi a maior para o mês de abril desde 1995, mas ficou abaixo das estimativas do mercado (1,84%, sendo que a LCA Consultores previa 1,95%). Com o resultado, a inflação acumula 4,31% no ano e 12,03 em 12 meses, contra 10,79% em março, mas também abaixo da mediana das projeções (12,14%).

Como era de se esperar, a taxa mensal do IPCA-15 foi puxada pela alta de 3,43% no item Transporte, que contribuiu com 0,74 pontos percentuais para a taxa mensal, devido ao aumento combinado de 7,54% dos combustíveis. Mas os impactos dos reajustes de preços se intensificaram no item Alimentação e Bebidas, que subiu 2,25%, contribuindo com 0,47 p.p. no IPCA-15. Os dois itens somaram 1,21 p.p., ou seja 69,94% da inflação mensal. O 3º maior impacto (0,28 p.p.) veio do item Habitação, com alta de 1,73% (0,53% em março). O maior impacto (0,11 p.p.) veio da alta de 8,09% no gás de botijão (que subiu 16,06% em 11 de março, mas teve recuo de 5,58% no final do mês).

Nos Transportes, a alta nos táxis (4,36%) veio dos reajustes de 41,51% em São Paulo (17,77%), vigente desde 2 de abril, e de 14,10% em Fortaleza (1,02%), em 12 de abril. No Rio, o preço da passagem de metrô subiu 12,07% em 2 de abril, resultando em alta de 5,17% na área e de 1,66% no agregado nacional do subitem. Também houve reajustes nas passagens de ônibus urbano (0,75%) em Curitiba (10,44%), com reajuste de 22,23%, válido desde 1º de março; Belém (6,67%) com alta de 11,11%, a partir de 28 de março; e Recife (0,24%) reajuste de 9,33%, em vigor desde 13 de fevereiro. O calendário virá pressionado pelas empresas de ônibus e transporte nos próximos meses. Isso se não ocorrer novo aumento dado a escalada do dólar.

 

Morde e assopra em abril

Não dá para saber os efeitos do morde e assopra no IPCA fechado de abril de dois impactos baixistas em Habitação: a redução das tarifas de energia, com o fim da bandeira hídrica extra e a volta da bandeira verde em 16 de abril, e a queda do GLP. É que o IPCA-15 captou também alta de 3,31% no gás encanado, devido a reajustes de 7,72% no Rio de Janeiro (7,47%), em 16 de março, e de 25,90% em Curitiba (8,82%), válido desde 25 de fevereiro.

Na Alimentação e bebidas, os alimentos para consumo no domicílio subiram 3%, puxados pelo tomate (26,17%) e o leite longa vida (12,21%), que contribuíram conjuntamente com 0,16 p.p. no resultado do mês. Outros produtos importantes na cesta de consumo dos brasileiros, como a cenoura (15,02%), o óleo de soja (11,47%), a batata-inglesa (9,86%) e o pão francês (4,36%) também tiveram altas expressivas.

 

Efeitos secundários da guerra

Há que se distinguir produtos na entressafra (casos do tomate e da batata-inglesa) de artigos cujos preços estão impactados pelas consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia (caso do trigo e do milho), que impactam o preço do pão e das massas e das rações que alimentam aves e suínos. O caso da soja apresenta forte demanda mundial sobre o óleo.

Há risco de se repetir (em escala menor, claro) o estouro de 2020. Com excesso de exportações e escassez de estoques os preços subiram mais de 100% na pandemia, o que obrigou o Brasil a importar grão para fazer óleo. A retirada da Ucrânia e da Rússia do mercado de óleos comestíveis pode deslocar a demanda para a soja. As consequências não ficarão apenas na alimentação humana e de animais. Como o óleo de soja representa cerca de 80% do biodiesel adicionado em 12% a 15% ao óleo diesel (a gordura animal vem em 2º lugar), haverá pressão nos custos do diesel, que pode levar à redução da fatia do biodiesel e a um aumento do teor poluidor do combustível.

 

Copom ganha uma hora de fuso

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) perdeu uma janela de oportunidade para manter o real valorizado ante o dólar a partir do momento em que o Federal Reserve Board, o BC dos Estados Unidos anunciou, pela palavra de seu presidente, Jerome Powell, que iria elevar as taxas dos “fed funds” em três movimentos de 0,50 pontos percentuais.

O Federal Open Market Committee (FOMC), que serviu de modelo ao Copom, se reúne praticamente com a mesma periodicidade que o Copom brasileiro: a cada 45 dias. Isso facilitava a estratégia do Banco Central brasileiro. Quando iniciou um tardio movimento de alta da taxa básica Selic (de 2% ao ano em março de 2021, numa primeira elevação para 2,75%, que chegou a 11,75%), só a partir do fim do ano passado o BCB conseguiu, com o atrativo dos altos juros no Brasil X os juros nos EUA e na zona do Euro, provocar uma revalorização do real. Mas durou pouco.

Em meio ao frisson provocado pelas consequências da guerra no Leste europeu, o anúncio de vigorosa alta dos juros nos EUA pegou o Copom, que dissera que ia parar em 12,75% na reunião de 4 de maio (coincidente com o 1º movimento de alta do Fed), no contrapé. Justamente quando a inflação brasileira dá mostra de resistência na casa dos dois dígitos e sugere o prolongamento do ciclo, como indicou a última Pesquisa Focus, divulgada ontem, após quase um mês suspensa pela greve dos funcionários do BC, com expectativa de 13,25% (0.50 p.p. acima da meta admitida pelo Copom) e o dólar voltou a disparar.

 

Os desafios do calendário

O calendário das reuniões do Fed e do Copom será coincidentes em 3 e 4 de maio, 14 e 15 de junho, com a vantagem de que o horário de verão nos Estados Unidos, em vigor desde março, deve ampliar de três para quatro horas o tempo de maturação pelo Copom sobre a extensão do ciclo de juros no Brasil. Na reunião de 26 e 17 de julho, o Copom se adiantará em uma semana ao Fed (que, devido a feriados nacionais, adiou o encontro para 2 e 3 de agosto). Só em setembro (20 e 21) as reuniões voltam a ser coincidentes.

O Copom não pode perder nova janela de oportunidade. Se o dólar voltar a subir, perde-se um forte instrumento de contenção da inflação importada nos combustíveis, minérios e commodities agrícolas. E as tensões do calendário eleitoral se tornarão mais intensas numa conjuntura de nervosismo no câmbio.

 

Horário de verão o ano todo

Há um velho e ufanista ditado de que “mais uma vez a Europa se curva diante do Brasil”. Os ufanistas modernos trocaram a Europa pelos Estados Unidos. Mas a realidade é que o Brasil é que devia se curvar às decisões sensatas emanadas dos Estados Unidos e dos países europeus mais avançados.

O Senado dos Estados Unidos aprovou a vigência, a partir de 2023, do horário de verão não apenas no período da primavera-verão, mas para todo o ano, para poupar energia. Já o Brasil, de Jair Bolsonaro, para agradar os militares (das forças armadas e das forças de segurança dos estados), que tinham de acordar com o céu ainda escuro para iniciar o batente, baniu o horário de verão a partir de 2019.

A pequena economia de energia alegada fez falta na escassez hídrica de 2020 e 2021 e poderia ter aliviado os gastos de energia da população.

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