A Petrobras está acéfala

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Maior empresa brasileira, joia da coroa das empresas controladas pela União, principal exploradora do pré-sal, que descobriu em 2007 e que hoje responde por 72% da produção e das reservas de petróleo do país, a Petrobras está virtualmente acéfala. Decorrência da dupla trapalhada do governo Bolsonaro que, para se desvincular da responsabilidade pelos aumentos dos combustíveis (que vinham bem antes da Rússia invadir a Ucrânia e complicar o cenário mundial do petróleo e gás), decidiu trocar o comando do Conselho de Administração e da presidência da diretoria executiva para colocar pessoas mais dóceis à intenção do governo de congelar os reajustes dos derivados.

A dupla manobra atropelou todos os princípios da ética e da polidez no trato com funcionários do alto escalão, bem como as normas básicas do princípio de governança que rege uma grande companhia de capital aberto, com ações negociadas no Brasil (B3) e na Bolsa de Nova Iorque, sob supervisão, respectivamente, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Securities Exchange Comission (SEC).

No comunicado ao mercado em que o acionista controlador, a União, enviou à CVM e à SEC, dia 5 de março com a lista dos indicados para a renovação do Conselho de Administração da companhia, o contra almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira foi deslealmente excluído da presidência do CA da Petrobras. Em seu lugar foi posto o nome do sr. Luiz Rodolfo Rolim Machado, que já foi diretor da Petrobras, na área de petróleo e gás e presidente da BR Distribuidora, presidente reeleito do Flamengo, em dezembro, para mandato de três anos.

No mesmo comunicado estava mantida a indicação do presidente da diretoria Executiva, general Joaquim Silva e Luna, empossado em abril de 2021, quando em manobra semelhante e pelo mesmo motivo - a alta forte dos derivados, em especial a gasolina, o GLP e o diesel, que provoca uma inflação em cadeia, revoltando motoristas, donas de casa e caminhoneiros -, o presidente Jair Bolsonaro anunciou desde fevereiro que iria trocar o comando da Petrobras, exercido por Roberto Castello Branco. Quando seu mandato acabasse, em abril, seria substituído pelo general que foi ministro da Defesa de Michel Temer e exercia a presidência da Itaipu Binacional desde o início do governo Bolsonaro.

Mas a sorte do general Silva e Luna não durou uma semana. Logo era fritado pelo Palácio do Planalto, com o presidente da República, que já tentou culpar os govenadores pela carestia dos combustíveis, devido ao ICMS cobrado na cadeia de produção (refinarias) e distribuição (distribuidoras e postos) até a bomba. Em 28 de março, depois de ser virtualmente destituído da presidência antes do prazo de seu mandato de dois anos e do referendo da Assembleia Geral Ordinária, de 13 de abril, seu nome foi excluído da lista proposta pela União para compor o Conselho de Administração. Em seu lugar como candidato a presidente da Diretoria Executiva surgia o nome do economista, professor da Coppe-UFRJ e consultor de assuntos energéticos do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), Adriano José Pires Rodrigues.

Figurinha fácil em matérias sobre energia, incluindo os mercados de energia elétrica, gás e petróleo, Adriano Pires, tinha posições claras a favor da abertura do mercado de combustíveis e na direção da privatização da Petrobras, que agradavam tanto o ministro da Economia, Paulo Guedes, quanto o presidente Jair Bolsonaro. E sua posição liberal, a princípio, foi bem recebida pelos investidores sequiosos por gestões que gerem mais lucros para os acionistas.

 

Conflito de interesses

Na visão míope do mercado, o único conflito de interesses seria a visão privatista de Pires com o desejo intervencionista nos preços dos combustíveis, dada a urgência de estancar um flanco negativo para a campanha de reeleição. Assim como a escalada dos preços dos alimentos - no país que é o “celeiro do mundo” é uma pedra no sapato que demonstra a incompetência de gestão do governo Bolsonaro, a escalada dos preços dos combustíveis (antes mesmo da guerra provocada pela Rússia, com as consequentes retaliações dos Estados Unidos e dos países aliados à OTAN), e a pedra no outro sapato.

Mas Adriano Pires estava disposto a adotar uma fórmula híbrida para garantir prazo maior na estabilidade dos preços (a gasolina ficou estável 57 dias antes do último reajuste de 18%. Só faltou o governo examinar melhor a ficha dos dois altos funcionários que requisitou a prestar serviços na mais importante S.A. brasileira. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI), comandado pelo general Augusto Heleno, deveria ter examinado a ficha de Landim e de Pires para checar se não havia interesses conflitantes nas suas atividades privadas. Para tal deveria acionar os serviços da Agência Brasileira de Informação (Abin). Mas a Abin, que agora está acéfala, com a exoneração do ex-diretor Alexandre Ramagem, não mostrou serviço ou sequer foi acionada.

Para os métodos do governo Bolsonaro basta estar alinhado politicamente ou disposto a “fazer o que seu mestre mandar”, nos termos em que o ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, definiu “um manda e o outro obedece”. Só que não. Landim não passou pelo crivo do Departamento de Pessoas da Petrobras, uma unidade implantada depois que os escândalos da Lava-Jato com a participação de altos funcionários em subornos e superfaturamento, levaram a companhia a contratar a ex-ministra do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie para implantar rigoroso sistema de “compliance” na Petrobras, que deu origem a novos princípios e à Diretoria de Governança e Conformidade.

Pois Landim, acusado e processado por ter infligido perdas milionárias a fundos de pensão (entre os quais o Petros, da própria Petrobras - que acaba sendo chamada a cobrir rombos) e por conflito de interesses com empresas da área do petróleo e gás -, depois de sair da Petrobras integrou a OGX de Eike Baptista e manteve negócios com as empresas de gás do empresário Carlos Suarez, um dos fundadores da construtora OAS. Foi acionado pelo Ministério Público Federal e declinou do convite sábado à noite, após o Flamengo perder o Campeonato Carioca para o Fluminense. Oficialmente para cuidar do clube.

Os mesmos respingos que atingiram Landim, tisnaram irremediavelmente a posição de Adriano Pires, que como consultor do Cbie e de empresas particulares, dava assistência à Abegás (Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado, entre as quais estavam as empresas de Carlos Suarez (alvo de disputa judicial com a Petrobras no Amazonas), e de Rubens Ometto, dono da Cosan e do grupo Raízen, controla a rede Shell, e a Congás, a maior distribuidora de gás natural que atua em São Paulo.

 

Ações reagem após a renúncia

Os dois renunciaram, mas as ações PN da Petrobras, que chegaram a cair a R$ 32,30 por volta do meio dia, quando circularam as primeiras notícias da desistência de Adriano Pires, reagiram e voltaram a subir para R$ 32,65 às 15 horas, com tendência a retomar a alta do dia a R$ 32,90. Resta saber se o mercado está precificando maior ou menor interferência na Petrobras.

 

Ouvidor de ouvidos moucos na ANTT

Nada marca melhor o fim do desgoverno do presidente Jair Bolsonaro, após o troca-troca de cargos devido aos prazos eleitorais para mudar de partidos e desincompatibilização de quem ocupa cargos públicos e deseja concorrer nas eleições de outubro, do que a indicação do assessor da Casa Civil Robson Crepaldi, para a função de ouvidor na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), como parte de uma lista de 20 nomes para outras lacunas.

Ouvidor é quem ausculta as queixas da sociedade, sobretudo dos consumidores/contribuintes de serviços monitorados pelas agências reguladoras. No caso da ANTT, compete regular as atividades de exploração da infraestrutura ferroviária e rodoviária federal, bem como a prestação de serviços de transporte terrestre de mercadorias (frotas de transporte por trem ou caminhão) e de passageiros, principalmente por ônibus interestaduais.

Mas a atuação recente de Crepaldi não o recomenda. Foi dele o documento que sugeriu ao Palácio do Planalto não responder à oferta de vacinas contra a Covid-19, feita pelo presidente da Pfizer, Albert Bourla, em setembro de 2020 (após não obter resposta do governo à 1ª oferta, em maio). Mas demorou quase dois meses na resposta. Na maior urgência da sociedade brasileira, Crepaldi fez ouvidos moucos para não atender aos clamores da população pela contratação de vacinas. Imagina o que irá fazer à frente da ANTT.

A vacinação começou nos Estados Unidos e no Reino Unido no começo de dezembro. No Brasil, só teve início em 17 de janeiro de 2021, depois que o governador de São Paulo, João Dória Júnior insistiu para a Anvisa aprovar a CoronaVac, vacina negociada pelo Butantan com o laboratório chinês Sinovac.

 

Bradesco vê Selic a 12,75% e PIB de 1%

Com a greve dos funcionários do Banco Central interrompendo uma série de divulgações, incluindo o Relatório Focus, distribuído às segundas-feiras com a visão colhida pelo BC até a sexta-feira anterior sobre indicadores macroeconômicos junto a mais de uma centena de bancos, consultorias e institutos de pesquisa, vale verificar as últimas previsões dos departamentos econômicos dos grandes bancos.

O Bradesco considera que o Comitê de Política Monetária do BC reforçou que pretende encerrar o atual ciclo de alta da Selic em 12,75%, dentro de uma política monetária significativamente contracionista e suficiente para fazer a inflação convergir ao longo do horizonte relevante, que cada vez mais leva em consideração o ano de 2023. Entretanto, o Bradesco ressalva que o Copom “reforçou que estará pronto para ajustar o tamanho do ciclo caso o cenário exija ajustes adicionais e, nesse sentido, se mantém dependente dos dados até a próxima decisão. Assim, se não houver alívio dos preços das commodities em reais, se a inflação continuar se disseminando ou se houver piora relevante das expectativas, o ciclo de alta pode se estender um pouco mais”.

O Bradesco entende “que o BC buscará encerrar o ciclo de alta de juros em 12,75%, mas o contexto de inflação mais pressionada exigirá juros médios elevados por mais tempo. Assim, postergamos o início do ciclo de corte de juros para o 2º trimestre de 2023 e elevamos a projeção para a taxa terminal do próximo ano para 9,0%”.

 

Alta das exportações turbina o PIB

Em compensação, se a inflação tende a aumentar dos 6% previstos antes da guerra, para 6,9% este ano, e obrigar o Banco Central a puxar o freio de mão dos juros, as perspectivas de crescimento das exportações brasileiras levaram o Bradesco a elevar de 0,5% para 1% a previsão de crescimento do PIB este ano. Para 2023, o Depec Bradesco manteve a modesta expansão de 0,5%.

A duplicação da taxa de crescimento em 2022 se dá enquanto o banco prevê redução de 0,5% no avanço do PIB mundial, de 4% para 3,5%. Em 2023, reduziu a previsão de 3,4% para 3,2%.

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