'Não é só o petróleo', diz economista do Goldman

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O presidente Jair Bolsonaro, que não está medindo esforços - inclusive atropelando a ética e determinações da Lei de Responsabilidade Fiscal (com a palavra a Justiça Eleitoral) - para tentar turbinar com a caneta BIC a sua campanha à reeleição, com a apresentação de um “saco de bondades” que (antes da liberação do FGTS e novas regras do consignado, estendido, além de aposentados e pensionistas, a beneficiários do BPC e do Auxílio Brasil) não vinha dando o resultado esperado (embora tenha deixado de piorar), elegeu como vilão da hora a alta do petróleo e combustíveis (efeito da invasão da Ucrânia pela Rússia) e pôs a Petrobras na alça de mira dos apoiadores CACs.

Errático como uma biruta de aeroporto, o presidente que há um ano anunciou que não iria reconduzir o então presidente as Petrobras, Roberto Castello Branco, a mais dois anos de mandato, porque estava insatisfeito com a política de paridade de preços internacional (PPI), instituída em 2016, já no governo Temer (que atrela os reajustes internos dos combustíveis aos preços internacionais e à cotação do câmbio - real x dólar), agora quer descartar o substituto de Castello Branco. Em março de 2021 tirou da Itaipu Binacional o general Joaquim Silva e Luna para assumir a empresa de economia mista controlada pela União. Na ocasião escrevi que sua intenção era usar a Petrobras na campanha da reeleição, se possível, congelando reajustes, como fizeram Lula e Dilma, com grandes perdas à Petrobras (bem maiores que os superfaturamentos e desvios apurados na Lava Jato. Sem saber o que fazer agora com a disparada do barril do Brent, urde uma manobra para tirar o general Silva e Luna (quem sabe porque se confunde e fala “Lula da Silva”).
Pelo sim pelo não, a diretoria da Petrobras, que está também sob o fogo cruzado, distribuiu nota à imprensa para explicar a PPI e os últimos aumentos.

 

A alta é geral e pode produzir recessão

Pois ele devia instar seus auxiliares, em especial a equipe econômica, a ler a entrevista com o chefe Global de Pesquisa de Commodities da Goldman Sachs, Jeff Currie, por sua visão sobre as commodities globais e o impacto nos mercados. Ela foi publicada na carta semanal da Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimentos do mundo. Jeff Currie alerta que todos estão mais focados nos impactos do petróleo e do gás, mas os impactos da invasão da Ucrânia (que é um grande produtor de trigo e milho, dispõe de minérios estratégicos e fertilizantes e tem seu território cortado pelo gasoduto 1 que leva gás russo à Alemanha e países do norte europeu) serão mais duradouros.

Com relação ao petróleo e gás (para transporte em navios), falta a colaboração da logística (agentes seguradores não bancam os seguros das cargas, com receio das represálias dos Estados Unidos e Otan, e toda a cadeia de apoio não funciona), para redirecionar o petróleo e gás a outros consumidores. “Ainda há um choque físico descendo, apenas menos do que inicialmente temido”. Mas "os mercados de grãos pararam. Os metais pararam. Não há ninguém nos portos para fazê-lo e você não pode obter seguro para navegar os navios para a região. O impacto nos grãos é de cerca de 25% das exportações de trigo. Os grãos são provavelmente o mercado mais estressado no momento, com o risco mais claro para a produção global, não apenas o comércio”.

“Que tipo de temporada de plantio vamos conseguir na Ucrânia este ano? Essa é uma pergunta chave”, adverte. ”Voltando aos metais, é a mesma coisa lá”, citando a escalada do níquel na London Metal Exchange. Em metais preciosos, considera haver “uma tempestade perfeita para o ouro agora. É a única mercadoria com mais vantagens, com a história mais forte e menos incerta”.

 

A escalada das commodities

Para ele, “a curto prazo, haverá muita incerteza em torno do petróleo”. Metais, grãos e ouro têm menos incerteza em torno de seu lado positivo, especialmente a partir desses níveis. Mas tentar barrar isso [com políticas de juros altos pelos bancos centrais] pode resultar em uma recessão”, alerta. [por sinal, os indicadores da Bolsa de Nova Iorque já antecipam a redução pela metade na expectativa de crescimento da economia dos EUA este ano].

Há muita volatilidade. O petróleo tipo Brent para entrega em maio (na primavera do Hemisfério Norte, quando os preços dos combustíveis começam a cair) voltou a subir hoje, chegando a US$ 107 (+0,45%) por volta das 13 horas (horário do Brasil). É alta de quase 15% no mês e de quase 38% no ano.

Os contratos com grãos para entrega também em maio tiveram ligeiro ajuste para baixo hoje. O trigo baixou 2,72%. Até a véspera tinha subido 70,3% em 12 meses. O milho recuou 1,61% hoje. Até ontem acumulara alta de 16% em março e de 27% em 2022. A soja baixou 0,67%, acumulando alta mensal de 4,81% até ontem e de 25,5% este ano. A escalada dos dois insumos básicos das rações animais impacta o custo da produção das carnes de frango e porco.

A escalada dos preços de produtos que o Brasil é grande exportador (aqui se inclui, café, açúcar e carne bovina) é outra falha que Bolsonaro devia atacar, pois o Brasil, “celeiro do mundo” deixou que a desvalorização do real em 2020 estimulasse ao máximo as exportações (em alta de cotações) e não foi capaz de garantir até o abastecimento interno (o país teve de importar arroz, leite e soja em grão em setembro de 2020!).

Já que pretende intervir nos preços dos combustíveis, o serviço deveria ser completo. Mas a Petrobras rende mais dividendos e fica parecendo que a culpa não foi da própria má gestão da crise pelo governo.

 

Desemprego dá alívio

A redução da taxa de desemprego para 11,2% segundo a PNAD Contínua apurada pelo IBGE no trimestre encerrado até janeiro (novembro-dezembro-janeiro) já era esperada pelo Itaú. Foi um recuo de 0,9 ponto percentual frente aos 12,1% de agosto a outubro de 2021.

Mas o mesmo Departamento de Estudos Econômicos do Itaú-BBA não mudou suas projeções de piora do quadro do mercado de trabalho este ano, com o menor crescimento esperado para o PIB (abaixo de 1% na última revisão de cenário, em 14.03, o Itaú previu avanço de apenas 0,2% no PIB): a taxa média de desemprego deste ano deve ficar em 12,3% (13,3% em 2021), mas voltaria a subir para 12,7% em dezembro.

 

Será que o BC vai ser mais claro?

Ontem escrevi aqui na coluna sobre a enorme diferença entre a clareza e transparência do Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, após as reuniões do Federal Open Market Committee (FOMC), que serviu de inspiração ao nosso Copom e cobrei o mesmo do Banco Central do Brasil.

Hoje o BC informa que “a diretora de Política Econômica, Fernanda Guardado, apresentará, em sessão virtual transmitida pelo Canal do Banco Central no YouTube, o Relatório Trimestral de Inflação, às 11h de quinta-feira (24/03). O Relatório será divulgado às 8h na página do Banco Central na internet”.

E acrescenta: “Na sequência, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, concederá, também de forma virtual, entrevista coletiva trimestral à imprensa no contexto da apresentação do Relatório Trimestral de Inflação. A entrevista trimestral, que faz parte da política do BC de tornar sua comunicação mais clara e objetiva, será sobre a condução da política monetária”.

Assim esperamos todos. O BC parece um personagem do saudoso Agildo Ribeiro, o “professor Andorinha”, que dizia sempre “posso exclarexer?, Exclarecerei” e dizia coisas incompreensíveis.

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