O Fed é claro; Copom segue confuso

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O Comitê de Política Monetária do Banco Central, criado em 1999, junto com a introdução do câmbio flutuante e a adoção de metas anuais de inflação para balizar a trajetória da política monetária e dos juros, foi inspirado no Federal Open Market Committee (FOMC). Como o FOMC (integrado por representantes dos diversos bancos centrais regionais que operam em consonância com o Fed de Nova Iorque, que implementa a política monetária com intervenções diárias no “open market” do centro financeiro mundial), o Copom se reúne a cada 45 dias. Até aí param as semelhanças.

O mandato do Banco Central nos Estados Unidos pressupõe a estabilidade da moeda (pela estabilidade da inflação), o crescimento da economia e equilíbrio do mercado de trabalho. O mandato do BCB é para “garantir a estabilidade do poder de compra da moeda, zelar por um sistema financeiro sólido, eficiente e competitivo, e suavizar as flutuações do nível de atividade econômica e fomentar o pleno emprego”.

As últimas atribuições, de “suavizar as flutuações do nível de atividade econômica e fomentar o pleno emprego” são recentes. De fevereiro de 2021, quando o Congresso aprovou a independência do Banco Central do Brasil perante o Executivo, com mandato de quatro anos para seus diretores, não coincidentes com o da administração do governo (o mandato do presidente Roberto Campos Neto vai até 31 de dezembro de 2023).

 

A clareza do Fed

Mas o que diferencia as duas instituições (sem falar da extensão, em nível global, da repercussão de suas decisões) é a clareza da comunicação do Fed, presidido por Jerome Powell. Ontem, o Fed anunciou, às 15 horas, o aumento de 0,25 ponto percentual nos “fed funds”, os juros de curtíssimo prazo nos EUA, às 15 horas, informando ainda que pretende manter elevações da mesma magnitude por sete reuniões (até 2023). A comunicação do Fed foi um primor de transparência. Inclusive informando que um diretor votou por alta de 0,50 p.p.

Considerando que a projeção de inflação de 2022 aumentou de 2,6% (em dezembro) para 4,3%, com o núcleo de inflação ao consumidor saltando de 2,6% para 4,1%, em cenário que indica manutenção da baixa taxa de desemprego (3,5%), com o PIB recuando de 4% (previsto em dezembro) para 2,8%, o Fed elevou em um ponto percentual a projeção para os “fed funds” em 2022: de 0,875% para 1,875%, e em 1,125 p.p. a de 2023: de 1,625% para 2,750%. Tudo exposto em quadros com projeções claras até 2024.

 

BCB fala em “coponês”

Já o Banco Central brasileiro - que teve três horas a mais para decidir, às 18 horas, a trajetória da taxa Selic, os juros básicos do Brasil, equivalentes para o mercado financeiro doméstico aos “fed funds” -, não foi tão claro. O Copom aumentou de 10,75% ao ano para 11,75% ao ano a Selic (conforme as expectativas), mas, surpreendendo o mercado que esperava variação de 0,50 p.p. a 0,75 p.p., anunciou novo aumento de 1 ponto percentual em 4 de maio (próxima reunião). Mas não foi claro quanto às suas expectativas para juros e inflação para 2022, 2023 e 2024, ou de quando terminará o ciclo de alta dos juros. A linguagem do Banco Central continua elíptica, em puro “coponês”.

Nos últimos meses, os comunicados do Copom após cada reunião têm sido mais abrangentes. Mas, ao contrário do Fed, que tranquiliza imediatamente o sistema financeiro mundial sobre seus próximos passos, o BCB se dispõe a esclarecer melhor seus objetivos na divulgação da “Ata do Copom” na 3ª feira seguinte. No dia 22 de março, contudo a linguagem do Copom continuará, como diria o jornalista Elio Gaspari, “ignorada por Madame Natasha e talvez só compreendida por Eremildo, o Idiota”.

As especificidades da economia brasileira - que ainda mantém a indexação (a correção monetária dos preços passados para balizador dos preços futuros em reajuste de contratos, uma contradição com o regime de metas de inflação, sempre declinantes - podem deixar as projeções do nosso Banco Central sujeitas às chuvas e trovoadas não anunciadas nas previsões do tempo.

Os erros de previsões dos Relatórios Trimestrais de Inflação (o 1º deste ano será divulgado dia 24 de março) são a prova disso. Para se defender de possíveis erros, o Copom divulgou dois cenários dos impactos da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Mas está na hora de o Banco Central ser mais claro. E honrar o seu mandato. Para isso precisa melhorar a comunicação no próprio dia da reunião. Ou divulgar uma ata em linguagem mais compreensível.

 

Leituras do mercado

As primeiras interpretações das instituições financeiras e consultores mostraram certa surpresa com a escalada da visão do Copom. Para a LCA Consultores, o Copom identificou que o ambiente externo "se deteriorou substancialmente", com o conflito levando "a um aperto significativo das condições financeiras e aumento da incerteza em torno do cenário econômico mundial", com “potencial de exacerbar as pressões inflacionárias que já vinham se acumulando tanto em economias emergentes quanto avançadas (sic)".

No cenário "de maior probabilidade", o Copom adota "a premissa na qual o preço do petróleo segue aproximadamente a curva futura de mercado até o fim de 2022, terminando o ano em US$100/barril e passando a aumentar dois por cento ao ano a partir de janeiro de 2023". As projeções de inflação nesse cenário alternativo são de 6,3% para 2022 e 3,1% para 2023, sendo que as demais premissas adotadas são as mesmas do cenário de referência.

Assim, a projeção para a inflação 2022 apresentada no cenário de referência do Copom elevou-se substancialmente, de 5,4% para 7,1%; e a projeção para 2023 passou de 3,2% para 3,4%. Esse cenário considera Selic a 12,75% no final deste ano e a 8,75% no final de 2023, com o câmbio partindo de R$ 5,05 por dólar e evoluindo segundo a paridade de poder de compra (PPC)”.

O Bradesco considera que “os modelos apresentados indicam a inflação em 7,1% e 3,4% para 2022 e 2023, acima do centro da meta nos dois casos” (3,50% para 2022 e 3,25% em 2023). Este cenário foi desenhado com os preços das commodities em reais da semana anterior à decisão. Mas, seguindo o procedimento adotado em janeiro “para endereçar riscos fiscais, o Copom oferece um cenário alternativo ao de referência, que nos parece apropriado para as incertezas trazidas pela guerra”, assinala o Bradesco.

O cenário considera “que o petróleo se mantém ao redor de US$ 100/barril, o IPCA fica em 6,3% e 3,1% para 2022 e 2023. Em ambos os cenários, as trajetórias de juros simuladas pelo Banco Central são suficientes para a convergência da inflação para algo ao redor do centro da meta”, acredita o Bradesco.

O Itaú diz que o Copom entregou a alta esperada de juros e que “a outra alta de 1,0 p.p. (o banco esperava alta de 0,50 p.p. em maio e 0,25 p.p. em junho, quando a Selic chegaria a 13%%) “se justifica na próxima reunião de política monetária (em 4 de maio). O comunicado também indica que os cenários atuais, com taxa básica de 12,75% a.a. ao final do ciclo, garantiriam a convergência da inflação para a meta – o Copom considerou dois cenários, com trajetórias mais e menos agressivas para os preços do petróleo. O Itaú mantém a aposta de que o Copom eleve a taxa básica para 12,75% a.a. na próxima reunião, e encerre o ciclo em 13% a.a. Mas vai “aguardar a divulgação da ata, em 22 de março, para revisitar, se necessário, nossa expectativa”.

A Genial Investimentos considera que o “novo normal” é o aumento de juros na economia mundial, liderado pelo Fed, seguido pelo Banco Central Europeu e secundado pelas autoridades monetárias de países emergentes. E lembra que, mesmo engrenando a marcha para uma escalada mais íngreme dos juros, o comunicado destacou que “caso o choque seja mais persistente ou mais longo que o projetado, o Banco Central estará pronto para alongar o ciclo de alta da taxa de juros, com objetivo não só de consolidar o processo de desinflação como também de ancorar as expectativas em torno de suas metas”.

 

IBC-BR: PIB 2022 derrapa no grid

A queda de 0,99%, praticamente 1%, com desconto sazonal, no IBC-Br, o indicador do PlB do Banco Central de janeiro em relação a dezembro, divulgada hoje pelo BC, surpreendeu o mercado, que esperava queda de 0,1% (Bradesco, a -0,2%, mediana do mercado ou alta de 0,2% no caso do Itaú).

Foi uma má largada da economia para 2022, mostrando que a alta de dezembro de 2021, puxada pela indústria (+2,4%) foi artificial, com antecipação da produção da indústria automobilística (que acelerou a cadeia de fornecedores) de modelos cuja produção seria proibida em 1º de janeiro deste ano, pela entrada em vigor das novas normas ambientais.

É preciso esperar o 1º trimestre para uma avaliação melhor do PIB. Mas foi estranho o Banco Central suprimir as séries do IBC-Br de 2020, o que impede de fazer uma comparação mais acurada do desempenho em 12 meses.

O Fed é claro; Copom segue confuso

Gilberto Menezes Côrtes

O Comitê de Política Monetária do Banco Central, criado em 1999, junto com a introdução do câmbio flutuante e a adoção de metas anuais de inflação para balizar a trajetória da política monetária e dos juros, foi inspirado no Federal Open Market Committee (FOMC). Como o FOMC (integrado por representantes dos diversos bancos centrais regionais que operam em consonância com o Fed de Nova Iorque, que implementa a política monetária com intervenções diárias no “open market” do centro financeiro mundial), o Copom se reúne a cada 45 dias. Até aí param as semelhanças.

O mandato do Banco Central nos Estados Unidos pressupõe a estabilidade da moeda (pela estabilidade da inflação), o crescimento da economia e equilíbrio do mercado de trabalho. O mandato do BCB é para “garantir a estabilidade do poder de compra da moeda, zelar por um sistema financeiro sólido, eficiente e competitivo, e suavizar as flutuações do nível de atividade econômica e fomentar o pleno emprego”.

As últimas atribuições, de “suavizar as flutuações do nível de atividade econômica e fomentar o pleno emprego” são recentes. De fevereiro de 2021, quando o Congresso aprovou a independência do Banco Central do Brasil perante o Executivo, com mandato de quatro anos para seus diretores, não coincidentes com o da administração do governo (o mandato do presidente Roberto Campos Neto vai até 31 de dezembro de 2023).

A clareza do Fed

Mas o que diferencia as duas instituições (sem falar da extensão, em nível global, da repercussão de suas decisões) é a clareza da comunicação do Fed, presidido por Jerome Powell. Ontem, o Fed anunciou, às 15 horas, o aumento de 0,25 ponto percentual nos “fed funds”, os juros de curtíssimo prazo nos EUA, às 15 horas, informando ainda que pretende manter elevações da mesma magnitude por sete reuniões (até 2023). A comunicação do Fed foi um primor de transparência. Inclusive informando que um diretor votou por alta de 0,50 p.p.

Considerando que a projeção de inflação de 2022 aumentou de 2,6% (em dezembro) para 4,3%, com o núcleo de inflação ao consumidor saltando de 2,6% para 4,1%, em cenário que indica manutenção da baixa taxa de desemprego (3,5%), com o PIB recuando de 4% (previsto em dezembro) para 2,8%, o Fed elevou em um ponto percentual a projeção para os “fed funds” em 2022: de 0,875% para 1,875%, e em 1,125 p.p. a de 2023: de 1,625% para 2,750%. Tudo exposto em quadros com projeções claras até 2024.

BCB fala em “coponês”

Já o Banco Central brasileiro - que teve três horas a mais para decidir, às 18 horas, a trajetória da taxa Selic, os juros básicos do Brasil, equivalentes para o mercado financeiro doméstico aos “fed funds” -, não foi tão claro. O Copom aumentou de 10,75% ao ano para 11,75% ao ano a Selic (conforme as expectativas), mas, surpreendendo o mercado que esperava variação de 0,50 p.p. a 0,75 p.p., anunciou novo aumento de 1 ponto percentual em 4 de maio (próxima reunião). Mas não foi claro quanto às suas expectativas para juros e inflação para 2022, 2023 e 2024, ou de quando terminará o ciclo de alta dos juros. A linguagem do Banco Central continua elíptica, em puro “coponês”.

Nos últimos meses, os comunicados do Copom após cada reunião têm sido mais abrangentes. Mas, ao contrário do Fed, que tranquiliza imediatamente o sistema financeiro mundial sobre seus próximos passos, o BCB se dispõe a esclarecer melhor seus objetivos na divulgação da “Ata do Copom” na 3ª feira seguinte. No dia 22 de março, contudo a linguagem do Copom continuará, como diria o jornalista Elio Gaspari, “ignorada por Madame Natasha e talvez só compreendida por Eremildo, o Idiota”.

As especificidades da economia brasileira - que ainda mantém a indexação (a correção monetária dos preços passados para balizador dos preços futuros em reajuste de contratos, uma contradição com o regime de metas de inflação, sempre declinantes - podem deixar as projeções do nosso Banco Central sujeitas às chuvas e trovoadas não anunciadas nas previsões do tempo.

Os erros de previsões dos Relatórios Trimestrais de Inflação (o 1º deste ano será divulgado dia 24 de março) são a prova disso. Para se defender de possíveis erros, o Copom divulgou dois cenários dos impactos da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Mas está na hora de o Banco Central ser mais claro. E honrar o seu mandato. Para isso precisa melhorar a comunicação no próprio dia da reunião. Ou divulgar uma ata em linguagem mais compreensível.

Leituras do mercado

As primeiras interpretações das instituições financeiras e consultores mostraram certa surpresa com a escalada da visão do Copom. Para a LCA Consultores, o Copom identificou que o ambiente externo "se deteriorou substancialmente", com o conflito levando "a um aperto significativo das condições financeiras e aumento da incerteza em torno do cenário econômico mundial", com “potencial de exacerbar as pressões inflacionárias que já vinham se acumulando tanto em economias emergentes quanto avançadas (sic)".

No cenário "de maior probabilidade", o Copom adota "a premissa na qual o preço do petróleo segue aproximadamente a curva futura de mercado até o fim de 2022, terminando o ano em US$100/barril e passando a aumentar dois por cento ao ano a partir de janeiro de 2023". As projeções de inflação nesse cenário alternativo são de 6,3% para 2022 e 3,1% para 2023, sendo que as demais premissas adotadas são as mesmas do cenário de referência.

Assim, a projeção para a inflação 2022 apresentada no cenário de referência do Copom elevou-se substancialmente, de 5,4% para 7,1%; e a projeção para 2023 passou de 3,2% para 3,4%. Esse cenário considera Selic a 12,75% no final deste ano e a 8,75% no final de 2023, com o câmbio partindo de R$ 5,05 por dólar e evoluindo segundo a paridade de poder de compra (PPC)”.

O Bradesco considera que “os modelos apresentados indicam a inflação em 7,1% e 3,4% para 2022 e 2023, acima do centro da meta nos dois casos” (3,50% para 2022 e 3,25% em 2023). Este cenário foi desenhado com os preços das commodities em reais da semana anterior à decisão. Mas, seguindo o procedimento adotado em janeiro “para endereçar riscos fiscais, o Copom oferece um cenário alternativo ao de referência, que nos parece apropriado para as incertezas trazidas pela guerra”, assinala o Bradesco.

O cenário considera “que o petróleo se mantém ao redor de US$ 100/barril, o IPCA fica em 6,3% e 3,1% para 2022 e 2023. Em ambos os cenários, as trajetórias de juros simuladas pelo Banco Central são suficientes para a convergência da inflação para algo ao redor do centro da meta”, acredita o Bradesco.

O Itaú diz que o Copom entregou a alta esperada de juros e que “a outra alta de 1,0 p.p. (o banco esperava alta de 0,50 p.p. em maio e 0,25 p.p. em junho, quando a Selic chegaria a 13%%) “se justifica na próxima reunião de política monetária (em 4 de maio). O comunicado também indica que os cenários atuais, com taxa básica de 12,75% a.a. ao final do ciclo, garantiriam a convergência da inflação para a meta – o Copom considerou dois cenários, com trajetórias mais e menos agressivas para os preços do petróleo. O Itaú mantém a aposta de que o Copom eleve a taxa básica para 12,75% a.a. na próxima reunião, e encerre o ciclo em 13% a.a. Mas vai “aguardar a divulgação da ata, em 22 de março, para revisitar, se necessário, nossa expectativa”.

A Genial Investimentos considera que o “novo normal” é o aumento de juros na economia mundial, liderado pelo Fed, seguido pelo Banco Central Europeu e secundado pelas autoridades monetárias de países emergentes. E lembra que, mesmo engrenando a marcha para uma escalada mais íngreme dos juros, o comunicado destacou que “caso o choque seja mais persistente ou mais longo que o projetado, o Banco Central estará pronto para alongar o ciclo de alta da taxa de juros, com objetivo não só de consolidar o processo de desinflação como também de ancorar as expectativas em torno de suas metas”.

IBC-BR: PIB 2022 derrapa no grid

A queda de 0,99%, praticamente 1%, com desconto sazonal, no IBC-Br, o indicador do PlB do Banco Central de janeiro em relação a dezembro, divulgada hoje pelo BC, surpreendeu o mercado, que esperava queda de 0,1% (Bradesco, a -0,2%, mediana do mercado ou alta de 0,2% no caso do Itaú).

Foi uma má largada da economia para 2022, mostrando que a alta de dezembro de 2021, puxada pela indústria (+2,4%) foi artificial, com antecipação da produção da indústria automobilística (que acelerou a cadeia de fornecedores) de modelos cuja produção seria proibida em 1º de janeiro deste ano, pela entrada em vigor das novas normas ambientais.

É preciso esperar o 1º trimestre para uma avaliação melhor do PIB. Mas foi estranho o Banco Central suprimir as séries do IBC-Br de 2020, o que impede de fazer uma comparação mais acurada do desempenho em 12 meses.  


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